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Carinho, comida e rima: morador de rua vira "xodó" de promessas corintianas

Léo Santos - Marcello Zambrana/AGIF - Marcello Zambrana/AGIF
Zagueiro Léo Santos, de 18 anos, participa do projeto "Entrega por SP"
Imagem: Marcello Zambrana/AGIF

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

18/04/2017 04h00

Entre um sorriso e outro, Thiago Bonfim Dias acena para uma criança que está em uma van escolar. Eles se cumprimentam brevemente até o automóvel seguir caminho. Thiago continua ali porque é morador de rua. E repete o roteiro com uma moça, um senhor e um atleta, com dezenas de pessoas, sempre com  a simpatia a tiracolo e a sede do Corinthians ao fundo.

Foi no cruzamento da rua São Jorge com a avenida Condessa Elizabeth de Robiano, no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, que Thiago conheceu os jogadores da base do Corinthians: o atacante Leo Jabá e o zagueiro Léo Santos, que já estão no time profissional, e o lateral Renan Guedes, do sub-20. Do trio, Thiago ganhou carinho, atenção, o apelido de MC Romarinho e até um perfil no Instagram.

"Conheci os moleques e no dia a dia eles viram que sou sossegado. Não converso com as pessoas pelo que elas têm, mas, sim, pelo que elas são. Eles (jogadores do Corinthians) são humildes demais, não esqueceram de mim, não importa que estejam lá em cima. Falo para eles: 'não importa a fama que tenha, humildade é sempre do berço'", disse Thiago à reportagem do UOL Esporte.

MC Romarinho - Diego Salgado/UOL Esporte - Diego Salgado/UOL Esporte
Thiago Bonfim vive na rua São Jorge
Imagem: Diego Salgado/UOL Esporte

Thiago tornou-se MC Romarinho devido às rimas famosas entre seus conhecidos e ao estilo Romarinho, com tranças no cabelo. "Eu dei o apelido. Faz uns três anos que ele está lá. Ele começou a fazer as rimas, eu e o Jabá começamos a gravar os vídeos e resolvemos fazer o Instagram. Léo Santos também é um dos fundadores", contou Renan Guedes.

O perfil de MC Romarinho traz apenas vídeos e foi feito em julho passado. Além de Renan e Jabá, mais dois jogadores corintianos acompanham as postagens: o volante Maycon e o meia-atacante Pedrinho.

"A gente sempre conversa com ele, pergunta como ele está. Ele faz as rimas certinhas. Fizemos o Instagram para ver se ele fica famoso", disse Léo Santos, que também ajuda com doações. "Eu já dei algumas roupas para ele também".

Renan conta que os meninos do Corinthians dão suporte como podem. "A gente sempre ajuda, paga almoço. Estamos vendo de levá-lo para tomar uma ducha, comer um hambúrguer. Eu ajudo pela pessoa que ele é, não tem tempo ruim para ele, ele fala que a gente mora no coração de graça. Todo mundo ali sabe quem é o MC Romarinho", ressaltou Renan.

Quem é MC Romarinho?

Thiago Bonfim nasceu em Guaianazes, bairro do extremo leste de São Paulo, e mora na rua há quatro anos, depois que ganhou a liberdade - ele ficou preso por 20 meses "por coisas que aconteceram no passado".

MC Romarinho não gosta de falar sobre o que aconteceu, nem mesmo quando isso o remete à família. "Tenho contato com a minha mãe e meu pai. Eles moram na Cidade Tiradentes. Morava com eles, mas prefiro pular essa parte. Somos em sete irmãos, às vezes eles vêm aqui, vejo eles e converso", contou.

O morador de rua, segundo ele mesmo, era um andarilho antes de encontrar abrigo e atenção no Parque São Jorge depois de passar por cidades como São José dos Campos, São José do Rio Preto, Taubaté e Jacareí, todas no interior paulista.

"Pulei para cá e fui me adaptando. Lutei para ficar aqui. O lugar onde ganho meu troco é preciso preservar. Já expulsaram um monte daqui, o único que ficou aqui fui eu, já apanhei muito", frisou. "Eu durmo por aí, nunca tem lugar certo. É difícil, perigoso, mas é assim em todo lugar. Tem de ficar o tempo todo correndo, a polícia acha que a gente é bandido", continuou.

Como se fosse um rap gravado pelos jovens corintianos, MC Romarinho não perde a chance de passar uma mensagem. "A gente que está na rua é sempre por Ele mesmo, porque inveja é mato. Nossa dignidade não é ganha, é conquistada, como o respeito. Respeito conquistado ninguém quer perder", versa.

São Paulo tem mais de 15 mil moradores de rua

A capital paulista é a recordista no número de moradores de rua, com mais de 15 mil pessoas de um total de 101 mil no Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em dezembro de 2009, o governo federal criou um braço da Secretaria Especial de Direitos Humanos especificamente para ajudar os cidadãos sem moradia.

Renan Guedes - Reprodução - Reprodução
Renan Guedes "adotou" MC Romarinho
Imagem: Reprodução

De acordo com Carlos Alberto Ricardo Júnior, coordenador geral dos direitos da população em situação de rua, existe hoje uma equipe especializada e capacitada para abordar, criar um vínculo com a pessoa e, a partir da necessidade, encaminhar para a rede de assistência social.

"Há uma política nacional que cuida dessas pessoas. A pessoa [que quer ajudar] pode ligar para o serviço de abordagem social do município. Eles vão indicar qual é o serviço que atua no local. Existem serviços durante o dia, para participar de oficinas e atividades, lavar as roupas, fazer higiene pessoal, até um abrigo, localização de família e encaminhamento para área de saúde", afirmou Carlos.

O coordenador, entretanto, explica que existem outras formas de apoio. "Toda pessoa pode ajudar de acordo com seus valores, um ser humano olhando para outro. A pessoa pode se solidarizar com uma pessoa que sente frio e dar um agasalho, que não resolve o problema dela, é um paliativo, mas que no momento foi útil. As pessoas têm necessidades imediatas", ressaltou.

Corintianos também participam de projeto social

Além de dar atenção a MC Romarinho, os jovens jogadores do Corinthians participam de um projeto chamado "Entrega por SP", que existe desde junho de 2013, e já conversou com mais de 29 mil moradores de rua.

"Conversamos com 1.300 pessoas em situação de rua por mês e temos em média 300 voluntários por mês. Nós levamos conversa. Nós levamos carinho. Nós acreditamos que podemos ser amigos de quem hoje está em situação de rua. Acreditamos em uma cidade mais humana a partir da convivência. Do abrir os olhos", explicou Lucas Caldeira Brant, idealizador e coordenador do projeto.

O zagueiro Léo Santos participou das últimas três edições, que sempre ocorrem na última terça ou quinta-feira do mês. Vinicius Del'Amore, campeão da Copinha pelo Corinthians e que hoje está no Fortaleza, também já compareceu. Renan Guedes pretende fazer o mesmo.

"O intuito é sempre trocar mais ideia, dar um abraço, dar um aperto de mão e conversar. Sempre procuro mais fazer isso. Gosto de conversar com eles, eles falam da vida deles, é muito bom, me sinto bem quando estou com eles, me faz bem", admite Léo Santos.