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Ele tentou unir árabes e judeus pelo futebol, mas teve gente que não deixou

Abbas Suan, do Bnei Sakhnin, treina antes de partida pela Liga dos Campeões - AP
Abbas Suan, do Bnei Sakhnin, treina antes de partida pela Liga dos Campeões Imagem: AP

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

07/08/2014 06h00

Está lá, no Youtube, nove anos depois. Uma troca de passes perto da meia-lua termina com a bola sendo rolada para trás, para ninguém. De repente, ele aparece na tela, se aproxima da bola, posiciona o corpo enquanto três irlandeses que deveriam estar marcando-o apenas o observam à distância. Ele chuta seco, rasteiro, no canto direito do goleiro adversário, que talvez atrapalhado pela multidão de jogadores à sua frente, demora a cair. A bola desliza na rede.

A arquibancada explode, e com ela o narrador. Mesmo que você não entenda uma única palavra de hebreu, você sente que existe alguma coisa diferente naquele gol. O cronômetro marca os 45 minutos do 2º tempo. O placar mostra 1 a 1. O narrador continua gritando “Suan! Suan! Suan!” Um dos jogadores cai de joelhos no chão, as palmas da mão no rosto. Ele está chorando?

Abbas Suan, talvez o maior jogador palestino a vestir a camisa da seleção israelense de futebol, autor do gol mais importante da história de país, é abraçado por, um, dois, cinco companheiros e some no meio deles. “No que eu pensei naquela hora?”, reflete Suan durante conversa com o UOL Esporte nove anos depois. “Eu só rezei para o meu Deus. Só conseguia rezar e agradecer por aquele gol, por ter me permitido aquela felicidade, pela minha família, por tudo.”

O gol que empatou aquele jogo decisivo pelas eliminatórias da Copa de 2006 permitiu a Israel continuar sonhando em jogar pela primeira vez o Mundial (mais tarde, eles seriam eliminados e acabariam não chegando à Alemanha). Mas a importância simbólica do lance é ainda maior que sua dimensão esportiva.

Suan faz parte dos cerca de 20% de palestinos que têm cidadania israelense e sonham com um Estado para os territórios ocupados de Gaza e Cisjordânia. Uma semana depois de fazer aquele gol e virar um herói nacional instantâneo, Suan foi vítima de ataques racistas por parte de uma facção ultrarradical da torcida do Beitar Jerusalem, o único clube israelense a jamais ter tido um jogador árabe.

“Não apenas eu, como a maioria das pessoas em Israel, acreditamos que eles são loucos, pessoas ruins e muito perigosas”, afirma Suan sobre os radicais racistas. Como poucos jogadores em Israel, ele entende bem do que está falando.

“Eu sabia que podia ser assassinado, mas fui jogar lá mesmo assim”

Abbas Suan é um ídolo histórico do Bnei Sakhnin, um clube árabe que já teve a política de aceitar apenas jogadores árabes, mas hoje está aberto à coexistência e tem atletas judeus e cristãos jogando juntos. É o único time palestino até hoje a ser campeão da liga israelense e o primeiro árabe a jogar as fases iniciais da Liga dos Campeões da Europa.

De uma maneira geral, árabes, judeus e cristãos jogam juntos e se cumprimentam respeitosamente ao final de cada partida dos cerca de 70 clubes das quatro divisões do futebol no país.

Isso só não acontece no Beitar. Ligado historicamente ao movimento sionista Betar, fundado na década de 1920 e ligado à extrema-direita, o clube, ou a parte mais radical de sua torcida, permanece contrária à coexistência com os árabes. Há dois anos, o magnata russo que comprou a equipe tentou uma política de abertura e anunciou a contratação de dois jogadores mulçumanos da Chechênia.

No dia seguinte, havia uma faixa na arquibancada que marcava a posição dos radicais: “Beitar, puro para sempre!” Por mais estranho que pareça uma torcida judia proclamar uma suposta “pureza racial”, a organizada manteve suas práticas violentas e nas semanas seguintes, uma sala no clube foi invadida e incendiada em protesto contra a contratação dos chechenos.

Suan se habituou a ouvir insultos racistas toda vez que encontrava torcedores radicais do Beitar. Foi vaiado e xingado diversas vezes durante partidas em Jerusalém, mesmo enquanto jogava pela seleção israelense. Um dia, teve que ser resgatado pela polícia porque seu time havia vencido, e a torcida do Beitar ameaçava invadir o campo para agredi-lo. Um dos cânticos mais comuns chegava à infâmia de rimar o nome de Suan com a palavra em hebreu para “câncer”.

Ainda assim, ele foi convidado pelo presidente russo Arcadi Gaydamak a defender o Beitar. E aceitou, mesmo que alguns de seus fãs o chamassem de traidor por vestir a camisa de um rival. “Eu sabia que poderia ser assassinado, agredido, insultado, mas mesmo assim decidir lutar por isso”, diz o ex-jogador. “Seria a minha contribuição à causa da coexistência e do respeito entre as pessoas. E eu sabia que não estaria sozinho porque a maior parte dos israelenses não concorda com os racistas.”

Mas os racistas, uma vez mais, venceram.

Reféns

A direção do clube começou a temer que a contratação de um jogador árabe pudesse causar uma revolta tão grande entre a organizada radical a ponto de sangue ser derramado nas arquibancadas. O projeto foi abortado. “Eles não tiveram coragem o suficiente”, diria Suan.

Mas, analisados os antecedentes, é difícil culpá-los. Além do episódio dos jogadores chechenos e das agressões contra Suan, se tornaram comuns os ataques simbólicos e violentos da torcida do Beitar contra árabes e o Islã. Em um jogo, torcedores do Sakhnin apareceram com duas bandeiras da Palestina. Em resposta, a torcida do Beitar incendiou cópias do Alcorão. Quem sabe o que um ato tão incisivo quanto a contratação de um árabe poderia causar?

“São 500 torcedores que fazem o clube todo de refém”, disse o diretor Itzik Kornfein ao site americano "Grantland.com" no ano passado. “Algumas centenas que fazem dezenas de milhares de reféns.”

Foi o mesmo tipo de raciocínio apresentado por Peto Kettlun, capitão da seleção palestina de futebol, em conversa com a reportagem há algumas semanas. Segundo ele, uma incorporação maior de jogadores árabes na seleção israelense é impedida porque os dirigentes sofreriam pressão de governos e de parte da sociedade para não fazê-lo.

No caso de Suan, o fato de não ter conseguido jogar pelo Beitar não diminuiu sua militância pela causa da coexistência entre povos na região que vive décadas de um conflito sem data para acabar.

Mesmo depois de se aposentar, ele trabalhou como uma espécie de porta-voz do Peres Center for Peace, um instituto que faz campanhas sociais para diminuir o preconceito que ainda existe entre árabes e judeus na região.

Questionado sobre se ele acredita que um dia ainda verá as seleções de Israel e da Palestina jogando juntas uma mesma partida, ele responde:

“É um sonho meu. Que haja um Estado palestino, e que a seleção da Palestina possa viajar e jogar contra seus vizinhos, inclusive Israel. É por esse sonho que nós estamos aqui, e é pensando nele que acordamos todos os dias e conseguimos tocar a vida vendo tudo o que está acontecendo em Gaza.”

Esse gol Suan não sabe quem pode fazer.

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