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Mauricio Stycer


O melhor e o pior na TV durante a primeira rodada da Copa

Luís Roberto e Roger são obrigados a fazer comentários sobre novelas durante a transmissão de jogos da Copa -
Luís Roberto e Roger são obrigados a fazer comentários sobre novelas durante a transmissão de jogos da Copa
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

É jornalista desde 1986. Repórter e crítico do UOL, autor de um blog que trata da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Colunista do UOL

20/06/2018 05h01

Seis dias de futebol, dezenas de horas de transmissões esportivas, noticiários, debates e programas de humor. A Copa na Rússia começou com tudo na televisão. Abaixo, um primeiro balanço do que aconteceu de pior e de melhor na tela durante a primeira rodada da fase de grupos do Mundial.


Papo sobre novela: Não é de hoje que os narradores de futebol da Globo promovem as novelas da emissora entre a descrição de um lance e outro. Mas nesta Copa a propaganda está ostensiva demais, incômoda mesmo. Os comentaristas entraram na roda e ajudam. Tipo esta conversa no meio de Alemanha e México: Luís Roberto: “Pensa nisso, Roger, o que pode ser mais forte do que a luta de uma mãe tentando encontrar o verdadeiro assassino do filho". Roger: “Luís, esta é a história da nossa supersérie ‘Onde Nascem os Fortes’. Mesmo aqui da Rússia a gente não perde”. Luís: “Não perde. Aquele aplicativo salva todo dia. Você tá por dentro, Roger. E essa semana vai ser decisiva pra essa mãe. Eu convido todos vocês para ver ‘Onde Nascem os Fortes’, a partir de amanhã, depois de ‘Segundo Sol’.” Não consigo ver nada mais ridículo e constrangedor do que isso.

Quase tudo “off tube”:  Globo, SporTV e Fox Sports investiram no envio de vários narradores e comentaristas para a Rússia, mas muitas partidas estão sendo transmitidas do estúdio, em Moscou, e não diretamente dos estádios. A rigor, poderiam estar sendo narradas a partir de São Paulo, também. Este tipo de narração, claro, perde em qualidade na comparação com a feita no local do jogo. Dificuldades de logística e custos altos impedem que os canais enviem suas equipes de narração para os jogos. Uma pena.

Surto de Galvão: Três dias depois da estreia do Brasil na Copa, a Globo ainda não se conformou com o gol da Suíça. O tom da cobertura foi dado pelo descontrole do narrador Galvão Bueno no momento da cabeçada de Zuber contra o gol de Alisson. “Seu juiz, vai olhar! Pra que tem árbitro de vídeo? Tem que ver. Tem que olhar”, exigiu. “É a desmoralização do árbitro de vídeo. É a desmoralização do árbitro de vídeo”. Furioso, acrescentou: “Esse negócio de árbitro de vídeo vai dar lambança na Copa do Mundo. Já ajudaram a França, agora prejudicaram o Brasil”. E concluiu: “Pra que existe o tal árbitro de vídeo? Eu estou dizendo isso há meses e meses. É um blefe!” Suspeito que o narrador só mudará de opinião quando o Brasil for beneficiado pela tecnologia.

Reprise de briga: Sempre num tom mais estridente do que nas suas concorrentes, os debates esportivos no canal Fox Sports podem não ser muito esclarecedores, mas oferecem a garantia de polêmica. Os conflitos entre Edmundo e Paulo Vinicius Coelho já são uma tradição – eles quase sempre divergem e, não raro, se desentendem, criando um climão no ar. Esta semana, uma discussão sobre Neymar mexeu com os ânimos dos dois comentaristas, levando o mediador João Guilherme a se levantar para promover a “paz” entre os dois. Edmundo ainda disse: “Eu e o PVC não brigamos, nós divergimos”. Mas ninguém acreditou.
 
Tempo irreal: Não é a primeira vez que, sem direitos de transmissão de um evento importante, a ESPN corre por fora e propõe soluções alternativas para remediar o problema. A iniciativa de “Tempo Real” é boa, mas o resultado está expondo o canal a constrangimento. Com seis comentaristas ao redor de uma mesa, cada um diante um laptop (sintonizado em qual canal?), bebendo café e comendo salgadinhos, o programa parece experiência de jovens universitários tentando tirar onda no You Tube com as emissoras tradicionais. 

Humor tropeça na informação: De volta à TV, agora mais turbinado, o “Central da Copa” é a versão bem-humorada da Globo aos repetitivos debates esportivos na TV paga. Tem quem goste. A marca principal do programa segue a mesma – Tiago Leifert fazendo piada com Caio Ribeiro –, mas agora há mais opções, como um campinho onde os participantes batem bola. Em meio a variadas piadas, o programa tropeçou ao tentar falar sério e confundiu a tecnologia que alerta os árbitros quando a bola cruza a linha do gol com o chip inserido na bola oficial. Um mico  - rasgaram uma bola inutilmente. Alguns dias depois, o “Central da Copa” compensou o vacilo com uma boa lição sobre a tecnologia do árbitro de vídeo.  

Aula de futebol: Somando todos os ex-jogadores atuando como comentaristas na TV durante esta Copa do Mundo, deve dar para montar dois times de futebol. Mas, além do nome, que empresta prestígio aos canais, poucos conseguem agregar informação e conhecimento original. Um dos novatos na atividade, o ex-atacante Grafite, aposentado dos gramados este ano, tem se mostrado uma grande revelação. Em ação no “Troca de Passes”, no SporTV, está dando verdadeiras aulas sobre tática, posicionamento em campo e situações de jogo. Com muita clareza e didatismo, a sua explicação sobre os erros cometidos pela defesa do Brasil no gol da Suíça foi uma das melhores da semana.

Mulheres no microfone: Outra ótima novidade nesta Copa é a maior presença feminina com narradoras e comentaristas. O Fox Sports, em particular, merece elogios pela iniciativa de dedicar um canal para a prática de três jovens narradoras, Isabelly Morais, Renata Silveira e Manuela Avena, que têm se revezado em jogos importantes. Apesar da inexperiência e falta de traquejo, o trio merece elogios pela coragem de encarar desafio tão grande. É, de fato, um momento histórico, como registrou o blog Dibradoras. Também tem chamado a atenção pela qualidade de suas observações no “Troca de Passes”, do SporTV, a repórter Ana Thaís Matos. Neste caso, não é surpresa. Profissional já experiente, ela lembra que não há motivos, além do preconceito, para haver limitações para mulheres neste campo profissional.  

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