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Como gestão tumultuada do Santos gera ameaça de debanda de jogadores

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

21/07/2020 04h04

A epidemia do coronavírus impactou as finanças de todos os clubes brasileiros. Os efeitos mais graves, no entanto, ocorrem sobre as agremiações que já enfrentavam problemas financeiros e que cometeram equívocos na gestão durante a crise. Foi o caso do Santos que agora vê dois jogadores pedindo rescisão contratual, Everson e Sasha, e a ameaça de que isso se repita com outros.

Em dois anos e meio, o presidente do Santos, José Carlos Peres, tem feito uma gestão que gasta além do que pode e aposta na venda de atletas para fechar a conta. Apertado pela falta de recursos, tomou atitudes que colocaram o clube em risco de rescisão de contrato de atletas.

No seu primeiro ano de mandato, em 2018, o Santos acumulou um déficit de R$ 77 milhões. Sua chance de consertar as finanças do clube estava na venda de Rodrygo para o Real Madrid cujo dinheiro entraria em 2019. Mas Peres a desperdiçou.

Mesmo com R$ 215 milhões de receitas de jogadores o clube acabou com um superávit de só R$ 23 milhões, insuficiente para redução significativa do débito total. Isso por conta do investimento alto do time de Jorge Sampaoli que levou o time ao vice-campeonato no Brasileiro. Ao final do ano, o cenário era de uma débito líquido de R$ 440 milhões.

E foi aí que Peres fez sua segunda aposta. Fez uma orçamento para 2020 que previa R$ 171 milhões em vendas de atletas, como se houvesse um novo Rodrygo. Não passou pelo Conselho Fiscal que determinou um corte pesado na previsão de receitas e nos gastos - as negociações foram calculadas em R$ 69 milhões.

Mas as contas do 2020 mostram que o presidente ignorou esse orçamento. A folha de pagamento integral do Santos nos três primeiros meses de 2020 fechou em 51% acima do gasto previsto pelo orçamento. Foram R$ 36,6 milhões, o que daria algo próximo de R$ 150 milhões por ano. Era ainda início da epidemia do coronavírus e o clube gastava mais do que tinha tantos que o déficit foi de R$ 19,8 milhões. O clube atribuiu o problema a variações cambiais.

Em documento ao Conselho Fiscal no meio do ano, a diretoria defendeu essa política de folha salarial acima do orçamento: "Importante salientar que diferentemente de outros segmentos de negócios, onde se busca reduzir ao máximo os custos e despesas fixas com folha de pagamento, no segmento do futebol profissional, a montagem e manutenção de elenco qualificado de atletas faz parte do "core business" dos clubes, onde reduzir ao mínimo a folha de pagamento nem sempre é a melhor escolha. O desafio é buscar o equilíbrio entre investimento x retorno."

O equilibrista caiu com o futebol parado. Com a paralisação dos campeonatos, a Globo passou a pagar só 30% das parcelas do Brasileiro. A Turner, com quem o Santos tem contrato de TV Fechada, não quitou nada neste ano de 2020 e tenta romper o contrato. As verbas do Paulista estão retidas até seu reinício, nesta quarta-feira.

Sem dinheiro, no meio da epidemia, o Santos determinou um corte unilateral nos salários dos jogadores de 70% sem que eles tivessem acordado com a medida. Em nota, em abril, o clube reconheceu que "não houve desfecho nas negociações de redução salarial com os atletas, e que, independentemente deste fato, optou por tomar a decisão de efetuar o pagamento parcial de seus respectivos salários referentes ao mês de abril, sob a mesma política adotada para todos os demais funcionários do Clube."

"O acordo de redução salarial é um acordo, precisa de comum acordo. Não existe um acordo unilateral. O que a MP que virou lei permitiu é que possa fazer acordo individual ou coletivo de tenha 25%, 50% a 70%. . Se o empregado não concordar, não tem acordo", explicou o advogado Carlos Eduardo Ambiel, especialista em direito esportivo. "Seria melhor ele ter pago 100% de um mês do que 30% de cada um dos meses. Assim, ficou exposto."

Outras reclamações de Sasha e Everson são falta de pagamentos de direitos de imagem e de depósitos de FGTS. Ambos também deixam o clube exposto à rescisão, segundo Ambiel. "Foi equiparada para fins de mora a questões de trabalho."

Um projeto de lei, que está no Senado, prevê que os clubes não têm estão sujeitos à rescisão por falta de FGTS durante a epidemia. Mas a lei ainda não foi aprovada e, portanto, não vale para os casos de Everson e Sasha.

Questionada, a CBF informou que, se a Justiça determinar a rescisão do contrato, irá cumprir e liberar os jogadores como é padrão na entidade. Teoricamente, qualquer clube poderá contrata-los. Ambiel ressalta, se o Santos ganhar a ação no final, o clube estará sujeito a pagar a multa rescisória junto com o jogador. Perguntado como pretendia quitar os salários e pagamentos atrasados, José Carlos Peres não respondeu.

Fato é que a conta do Santos não se acumulou por conta da epidemia do coronavírus. O vírus foi só a gota d'água.

Blog do Rodrigo Mattos