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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Perrone: Mais do que defender Crispim, Neymar levanta debate necessário

Neymar em ação durante treino do PSG - Divulgação/PSG
Neymar em ação durante treino do PSG Imagem: Divulgação/PSG
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Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

19/06/2022 11h13

Neymar se manifestou no Twitter para criticar o afastamento de Lucas Crispim do Fortaleza após o jogador promover festa para comemorar seu aniversário em meio à crise vivida pelo clube.

O jogador do PSG soube usar sua visibilidade nas redes sociais para destacar uma discussão importante e histórica.
Apesar de envelhecido, o eterno debate sobre o que o jogador de futebol faz fora de campo é um assunto mal resolvido no Brasil. Principalmente pela falta de profundidade com que é tratado.
Neymar também não foi profundo ao falar do tema. Nem dá para ser num tuíte, mas ele levantou a bola para uma discussão necessária.
"Perdeu? não pode comemorar o aniversário da vó, do filho, da esposa e principalmente o seu. Ser atleta não tá fácil, ser feliz só pode depois que a carreira encerrar, que loucura", escreveu o astro da seleção brasileira.
Ao defender seu amigo e colega de profissão, Neymar citou um argumento pré-histórico usado por quem defende o controle da vida dos jogadores nas folgas.
A tese vai por essa linha: "quando se aposenta, o atleta ainda é jovem e tem a vida inteira para se divertir. Principalmente os que ganham bem. Então, tem que se segurar enquanto joga".
Apesar de absurda, a ideia segue com uma legião de adeptos. Como todo trabalhador, o jogador de futebol tem seus direitos e obrigações. Tem horário de folga e jornada de trabalho. Isso independe de quanto ele ganha ou da idade com que vai se aposentar.
O Fortaleza não usou esse argumento para justificar o afastamento. Porém, encaminhou a discussão para o lado errado, na opinião deste colunista.
"Os atletas, obviamente, têm direito ao lazer. No entanto, devem saber que há momentos e formas adequadas para isso. Jogadores profissionais representam o clube, e a instituição precisa ser respeitada sobretudo nos momentos mais difíceis", diz o comunicado emitido pela agremiação.
Ou seja, Neymar resumiu bem a nota: "perdeu, não pode comemorar".
O Fortaleza diz que o atleta deve saber o momento adequado para seu lazer. Em toda profissão, esse momento acontece durante as folgas, após o trabalho diário e nas férias. O clube ainda avança o sinal quando diz existir forma adequada para o atleta desfrutar de seu momento de lazer. O empregador não pode controlar a maneira como seus funcionários aproveitam as horas livres.
O Fortaleza errou no rumo escolhido para justificar a sua decisão porque o que interessa para a agremiação não é o como o atleta se diverte fora do clube, mas como ele desempenha seu trabalho. Se o cara tomou todas na folga e no dia seguinte chegou atrasado no treino e/ou não conseguiu treinar direito, a diretoria deve agir.
As festas nas folgas não são da conta dos dirigentes e das comissões técnicas. Mas se o jogador está fora de forma e produzindo menos por conta disso, o clube deve agir baseado no desempenho profissional do atleta.
Simplesmente entregar a cabeça do jogador para a torcida porque ele fez festa em momento ruim do time é alimentar a hostilidade contra os atletas. O Fortaleza precisa justamente do contrário, depois de um torcedor agredir atacante Robson com um capacete no aeroporto.