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Marcel Rizzo


Governo nomeia especialista em marketing esportivo para fiscalizar o Profut

Marcelo Magalhães, novo secretário especial do Esporte, e Jair Bolsonaro  - Reprodução/Facebook
Marcelo Magalhães, novo secretário especial do Esporte, e Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Facebook
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

02/06/2020 16h36

A Apfut (Autoridade de Governança Pública de Futebol) tem novo presidente, o quarto desde que Jair Bolsonaro (sem partido) assumiu a presidência, em janeiro de 2019. O órgão tem como função fiscalizar os clubes que aderiram ao Profut, a lei de responsabilidade fiscal do futebol.

O nomeado para o cargo é Thiago Brejeiro Froes, que segundo o Diário Oficial terá cargo DAS 101.5 com direito a remuneração mensal de R$ 13.623,29. A principal função do presidente da Apfut é coordenar a fiscalização dos clubes que parcelaram suas dívidas fiscais com juros camaradas em troca de algumas contrapartidas, muitas delas contábeis. Por isso o cargo, originalmente, foi criado para um profissional com experiência nessa área.

Froes, formado em publicidade pela Belas Artes, tem em seu currículo experiência na área do marketing esportivo, principalmente, por isso sua nomeação causou estranhamento em pessoas do setor. Ele trabalhou, por exemplo, na Samsung quando a empresa fechou patrocínios com alguns clubes do Brasil, como o Corinthians, em meados da década de 2000.

Depois Froes passou pela Adidas, atuando com mais ênfase em esportes olímpicos. Na empresa manteve contato com Marcelo Magalhães, o atual secretário especial do Esporte e responsável por sua indicação — a Apfut está dentro do organograma da secretaria, que por sua vez faz parte do Ministério da Cidadania.

Froes trabalhou com Magalhães quando o atual secretário foi empresário das gêmeas do nado sincronizado Bia e Branca Feres. Elas tinham patrocínio da Adidas e Froes era a ponte entre a empresa e as atletas.

O blog procurou pela manhã a secretaria e perguntou sobre a indicação de Froes e a resposta chegou à tarde, por meio de uma nota publicada no site do governo com duas frases do novo presidente da Apfut. "Nosso país, bem como todo o mundo, vive um momento muito difícil por conta dessa pandemia da covid-19. O esporte, e o futebol está incluído nessa realidade, passa por um período complicado, com o cancelamento de torneios, de eventos e com os atletas afastados dos treinos. Isso gera reflexos negativos nas receitas dos times de futebol. Nesse momento, precisamos dar apoio às equipes para que elas possam atravessar esse período. Essa é a minha intenção inicial à frente da Apfut", disse Froes.

"Sabemos que isso não vai durar para sempre. Quando tivermos superado essa fase difícil, imagino que o mercado do futebol estará receptivo para um período de inovação e de mudanças de comportamento. Acredito que será uma oportunidade para reestabelecer um alto padrão de gestão para os clubes e entidades esportivas no futebol", completou.

Desde que Bolsonaro assumiu, a Apfut continua com técnicos levantando dados para a fiscalização dos clubes, mas em banho-maria. Por exemplo: até agora o conselho não foi formado, o que limita punições à associações que não cumprirem as contrapartidas.

A última reunião do conselho da Apfut foi em dezembro de 2018, ainda sob a presidência de Michel Temer (MDB). Em fevereiro de 2019 os membros tiveram os mandatos encerrados e, desde então, nunca houve a nomeação dos substitutos. A Apfut trocou de presidente duas vezes em 2019, primeiro saindo André Argolo e assumindo Luiz André de Figueiredo Mello e depois com a entrada de Benny Kessel, especialista em ciências contábeis e antigo coordenador de fiscalização e controle da própria Apfut.

Kessel foi exonerado em março de 2020, na esteira da troca do secretário especial do Esporte. Saiu o general Décio Brasil e entrou Marcelo Magalhães, ligado a Flávio Bolsonaro, filho do presidente.

A troca de Brasil por Magalhães atrasou a formação do conselho da Apfut, como mostrou o blog. Os nomes do grupo formado por membros do governo federal e representantes de clubes, jogadores, árbitros e da sociedade civil, entre outros, já estavam definidos, prontos para serem publicados no Diário Oficial, mas o procedimento foi paralisado para que Magalhães validasse os escolhidos. Agora, a expectativa é se Froes vai agilizar esse procedimento.

Mesmo sem conselho, a fiscalização da Apfut referente aos participantes continua — 137 associações aderiram inicialmente ao programa em 2016. Há em andamento investigações contra clubes grandes, como Vasco e Cruzeiro. Eles podem ser punidos, se encontrada irregularidades, por decisão do presidente, mas caso recorram precisam do conselho para um julgamento. Ou seja, sem o conselho qualquer punição não é validada.

O Ministério da Economia decidiu no começo de maio que devido à crise financeira causada pela pandemia do novo coronavírus, as parcelas do Profut de maio, junho e julho seriam adiadas por até cinco meses, dando fôlego aos clubes. O blog apurou inclusive que havia um movimento no governo de extinguir a Apfut e deixar para a Economia a fiscalização do Profut, por isso outro estranhamento na nomeação de um novo presidente para o órgão.

O Profut, a lei de responsabilidade fiscal do futebol, foi sancionado em agosto de 2015 ainda no governo Dilma Rousseff (PT). Deu às entidades esportivas, principalmente a clubes de futebol de alto rendimento, a possibilidade de parcelar dividas fiscais em 20 anos e com juros camaradas, mas com contrapartidas exigidas, como não ter dívidas em folhas salariais, limitar o gasto com departamento profissional em 70% da receita bruta e investir em futebol feminino. Dos 12 clubes de maior orçamento do país, somente o Palmeiras ficou fora por opção.

Marcel Rizzo