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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Código do Silêncio

Homem faz sinal de silêncio - Pixabay
Homem faz sinal de silêncio Imagem: Pixabay

Colunista do UOL

25/01/2023 15h15Atualizada em 25/01/2023 15h15

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Já faz anos que cobro e mostro que a classe de jogadores de futebol é corporativista e se cala em situações importantes em que deveriam se posicionar.

Não são só os jogadores, aliás. Uma boa parte da imprensa esportiva também se cala e paparica, passa pano para esses atletas estrelados.

Eu denuncio essa situação há muito tempo, mas o assunto ganhou corpo durante a Copa do Qatar.

Estou mostrando que o comportamento desses jogadores, sem generalizar, não é compatível com a posição de ídolos do futebol.

Muitos podem dizer: "E o seu comportamento, foi legal?"

Na parte de posicionamento em questões sociais e na participação como cidadão, foi muito legal. Os erros que cometi foram graves, mas consegui me recuperar e usar o meu problema para alertar e ajudar famílias e pessoas que também são dependente ou codependentes.

Outra coisa é a questão da visibilidade que existe hoje em dia.

A responsabilidade dos jogadores nos tempos de hoje é muito maior do que era décadas atrás.

Voltando ao silêncio da classe, vou repetir que está ficando constrangedor para eles a omissão de posicionamento.

Quando critiquei o péssimo comportamento dos pentacampeões lá no Qatar, eles se uniram contra mim para tentar desqualificar as minhas opiniões, mas sou convicto no que digo sobre isso. Banquei e banco o que falo sobre eles.

No entanto, eles se calam em relação ao estuprador Robinho, que anda livre pelas praias, e agora novamente se calam sobre o caso Daniel Alves.

Homens casados, muitos com filhas, se omitem, e de uma certa forma aceitam a convivência com quem comete esse e outros crimes.

Ninguém abre a boca para falar sobre o frio assassino da garota Elisa Samudio, o ex (ou atual) goleiro Bruno.

É claro que todos os presidiários que cumprem a sua pena, ou parte dela, que a nossa frouxa legislação coloca em liberdade, merecem e devem ter a possibilidade de uma ressocialização, arrumando um trabalho.

Mas é absurdo e inaceitável que volte a ser jogador de futebol e dê entrevista na televisão, tirando fotos e ficando em evidência.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, declarou que está estudando o caso do estuprador Robinho e que vê possibilidade e necessidade de ele cumprir a sua pena de 9 anos aqui no Brasil.

Não se pode mais passar pano para ninguém que comete o crime de estupro, seja ele quem for. Acusado por este crime, Daniel está preso e sem direito a fiança.

A Justiça espanhola não quer correr o risco de ser alvo de deboche por parte do suposto criminoso Daniel, como o criminoso Robinho faz com a Justiça italiana.

A imprensa esportiva precisa, sim, falar repetidamente sobre o caso do Robinho. Senão, sua postura será equivalente à dos jogadores omissos e no mínimo coniventes.

Já no caso Daniel Alves, que ainda está sendo investigado, a imprensa tem o dever de debater, sim, esse tipo de comportamento.

Não é fazer julgamento prévio, mas discutir atitudes antissociais desses ídolos.

Fico tranquilo por cobrar posicionamento de todos, porque faço isso há anos e muitas vezes fui atacado por jogadores, enquanto uma parte da imprensa só falava de futebol.

Tem muita gente que ainda não entendeu que jogadores de futebol são, antes de tudo, cidadãos brasileiros, e que como todos, devem zelar pelo espaço das pessoas por meio do respeito e da ética.

Quem age fora desses parâmetros precisa ser confrontado mesmo por todos.

O importante é não partir para a agressividade e ter elementos para argumentar. Sempre que falei sobre a postura de jogadores, nunca inventei nada nem persegui ninguém. Simplesmente, apontei para um tipo de comportamento que é perigoso em diversos sentidos.

Arrogância, prepotência e soberba levam a pessoa a se sentir superior às outras e a perder complemente a noção de espaço, achando que pode tudo e nada terá consequências. Esses casos estão mostrando que a sociedade mundial não pensa como eles.

Hoje em dia, boa parte da mídia esportiva parece mais preocupada em bajular essas estrelas em troca da expectativa por entrevistas exclusivas ou uma presença em determinado programa, ao custo de fingir que nada de errado está acontecendo.

Eu aprendi, logo que comecei a trabalhar como comentarista, que nessa profissão é essencial ser totalmente independente.

Sou assim até hoje e serei sempre. Às vezes, pago um preço alto por ousar confrontar pessoas que se sentem blindadas e acham que podem falar e fazer o que quiserem, inclusive importunar uma garota sem o seu desejo.

Acho que a sociedade está esperando os jogadores de futebol se posicionarem sobre o caso do estuprador Robinho e sobre essas acusações e implicações do caso Daniel Alves.

Código do silêncio com crimes é omissão e conivência.

Vocês irão ficar calados até quando?