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Lito Cavalcanti


As muitas facetas de um herói

Leclerc posa com equipe da Ferrari em Monza - Dan Istitene/Getty Images
Leclerc posa com equipe da Ferrari em Monza Imagem: Dan Istitene/Getty Images
Lito Cavalcanti

Envolvido de diversas formas com o automobilismo desde o início dos anos 60, Lito Cavalcanti completa 50 anos de profissão como o jornalista de esporte motor mais publicado no Exterior.

09/09/2019 13h49

O Grande Prêmio da Itália, ontem (8), mostrou claramente a ascensão do jovem Charles Leclerc. Aos 21 anos, o piloto de Mônaco venceu com a classe e, sobretudo, com o domínio de um competidor experiente, que não se intimida ao concorrer pela primazia em uma equipe onde tem um companheiro/adversário que carrega em seu currículo quatro títulos mundiais. Ao contrário do que sua brilhante atuação sugere, Leclerc está apenas em seu segundo ano na Fórmula 1, em seu primeiro ano na Ferrari.

Não tão evidentes, mas igualmente importantes, outros fatos ocorreram entre a pista e os boxes de Monza. A supremacia da unidade de potência da Ferrari, onde antes a Mercedes reinava absoluta, o descontentamento de toda a Scuderia Rossa com o comportamento egocêntrico de Leclerc na fase final da prova de classificação e o perdão do chefe Mattia Binotto aos maus feitos de sua nova estrela no cumprimento final passaram de certa forma despercebidos - mas são sinalizações enfáticas do que acontecerá no futuro próximo da Fórmula 1.

Ao cruzar a linha de chegada, após uma demonstração brilhante de autocontrole, talento, e combatividade sem limites, Leclerc ouviu de Binotto, além dos previsíveis parabéns, uma frase sintomática. "Está tudo perdoado", disse o chefão, voltando atrás na discussão que se seguiu à recusa de cumprir sua parte no que fora combinado momentos antes.

O plano para o Q3, a fase que define quem ocupará que posição entre os 10 primeiros do grid, era Vettel puxar Leclerc no vácuo durante a primeira saída e Leclerc devolver o favor na segunda. Tudo teria corrido de acordo com o roteiro, acredita-se, se não fosse pela comédia de erros que se viu na pista. Depois de esperarem parados nos boxes até o último segundo, todos pilotos (à exceção de Kimi Raikkonen, que havia batido na primeira saída, prejudicando a volta que poderia ter colocado a Mercedes de Valtteri Bottas na pole position) entraram na pista juntos. O que se seguiu foi um dos momentos mais constrangedores da F-1.

O que valia era ser mais lento

Em Monza, a ajuda do vácuo pode representar de três a oito décimos de segundo, variando de acordo com a qualidade da execução desse jogo. À frente do pelotão, Nico Hulkenberg se recusou a ser o abre-alas e dirigiu seu Renault pela área de escape da primeira chicane, na tentativa de ser ultrapassado por pelo menos um outro carro. Mas Carlos Sainz, o segundo na fila, desacelerou seu McLaren, no que foi imitado pelos outros sete participantes, e mesmo a contragosto, Hulkenberg continuou na frente.

Daí para a frente, cada piloto tentava se colocar atrás de um outro, todos a baixa velocidade - a despeito dos avisos insistentes dos engenheiros de que o tempo estava se esgotando. Entre eles, Leclerc se negava a acelerar e, ao ver que Vettel se colocara logo atrás dele, desacelerou. Sua explicação foi que, na primeira saída, sua volta não fora das melhores, e que puxando Vettel um ou os dois Mercedes poderiam vir junto e a Ferrari poderia perder não só a primeira posição, mas toda a primeira fila.

Nem todos aceitaram seus argumentos - principalmente seu companheiro de equipe, relegado ao quarto lugar em um qualify em que tinha potencial para ser ele o dono da pole position. A soma de seus melhores setores, em voltas separadas, resultava em um tempo dois centésimos de segundo melhor do que o que deu o primeiro lugar a Leclerc. No primeiro setor, seu melhor tempo fora 26s565; no segundo, 26s330; no terceiro, 26s393. Tudo somado, sua volta seria de 1min19s,288, a pole de Leclerc foi 1min19s307. Dos quatro primeiros do grid, Vettel foi o único que não usou o vácuo. Seu tempo final foi 1min19s457, a 0s150 do tempo de Leclerc.

Bastidores da trama

A atitude do monegasco custou não apenas a pole position de Vettel; custou também à Ferrari ocupar toda a primeira fila em uma corrida em que a anunciada vantagem não era nem de longe tão pronunciada como uma semana antes em Spa, e, talvez mais grave, a harmonia interna tão prezada e cultivada por Binotto. Evidenciou acima de tudo que Leclerc põe seus próprios interesses à frente e acima da equipe.

É lícito pensar que, largando na primeira fila, Vettel não teria cometido o exagero que o fez rodar na sexta volta, na veloz chicane Ascari, quando tentava se aproximar de Bottas para lhe tirar o terceiro lugar na reta dos boxes. Já o acidente que causou ao retornar precipitadamente à pista, colhendo de raspão o Racing Point de Lance Stroll, recai pesadamente sobre seus ombros.

Por poucos centímetros, Monza não foi palco da repetição da batida em T que causou a morte do jovem francês Anthoine Hubert no fim de semana anterior em Spa-Francorchamps. Não menos grave a repetição de tudo imediatamente depois, quando Stroll repetiu a insensatez de Vettel e por pouco não foi colhido pelo Toro Rosso de Pierre Gasly - que já vinha um tanto desequilibrado depois de desviar da Ferrari de Vettel.

Essa precipitação valeu a Vettel não só a punição de 10 segundos parado nos boxes; acrescentou também mais três pontos à sua carteira, onde já figuravam os três da batida em Verstappen em Silverstone e outros três da reentrada na pista do Canadá na frente de Hamilton. Ele precisa evitar novas infrações até pelo menos o GP dos EUA, quando começam a caducar suas punições.

Cada um por si, contra tudo e contra todos

Alheio a tudo, Leclerc provou na pista ser feito do mesmo material dos maiores campeões. Forte e longamente pressionado por Lewis Hamilton, ele recorreu a todos os segredos para se manter à frente. Cometeu erros, sim, mas não foi o único. E também recebeu a bandeira preta e branca, de advertência pela defesa de posição quando Hamilton o pressionou na freada da curva della Roggia.

Foi logo depois da troca de pneus. Hamilton tinha parado na 19ª volta e colocado pneus médios; Leclerc, na 20ª, passando para os pneus duros, que demoram um pouco mais que os médios para atingirem sua temperatura ideal de funcionamento. Na 23ª volta, Hamilton aproveitou o melhor momento de seus pneus e saiu da curva Parabólica, a que leva à reta dos boxes, bem próximo da Ferrari. Acionou o DRS para abrir a asa traseira, mas os cinco a seis quilômetros por hora ganhos não foram suficientes para passar, mas foram para forçar Leclerc a adiar demais a freada, a ponto dele sair da pista.

Ao retornar para o asfalto, o piloto de Mônaco ainda estava na frente, mas Hamilton vinha colado e se pôs lado a lado na saída da curva Grande, que é feita a pleno acelerador. Até pouco antes do ponto de freada da della Roggia, Leclerc respeitou as regras, dando espaço para um carro à sua direita. Mas ao atingirem o ponto exato de acionar os freios, a Ferrari se moveu um pouco na direção de Hamilton e o fez sair da pista, perdendo segundos preciosos e anulando a vantagem da melhor aderência de seus pneus.

Divididos pelo emaranhado de regras, os comissários optaram pela bandeira de advertência. Avisado, Leclerc mostrou certa surpresa (que soou como um momento teatral), perguntando a razão da bandeirada. Ao analisar aquele momento, Hamilton emitiu um aviso: "Se não estivesse disputando o título, eu não teria evitado a colisão. Sairíamos os dois da pista".

As lições de Monza

No fim das contas, o Grande Prêmio da Itália mostrou que:

1º) A Mercedes já não tem mais potência que a Ferrari. A vantagem dos carros vermelhos reside não no motor a combustão interna, e sim na maior eficiência dos sistemas de recuperação de energia, o MGU-K (que transforma a energia térmica das freadas em eletricidade) e MGU-H (que faz o mesmo com a rotação dos turbocompressores).

Ao contrário da potência crescente gerada pelos motores convencionais, hoje denominados motores térmicos, a que vem dos sistemas elétricos entra em cena de uma vez, imediata, e se faz sentir majoritariamente nas acelerações. Isso era evidente na entrada das retas, mais claramente na saída da curva Parabólica, onde a Ferrari de Leclerc se distanciava claramente das Mercedes.

Esse é um ponto de otimismo para a Ferrari quando olha para 2020. Com um novo conceito aerodinâmico, que não repita as preferências equivocadas do atual SF90, Maranello pode sonhar com um retorno aos tempos de glória, quando possuía o melhor conjunto carro/motor.

2º) Charles Leclerc não é mais um menino em busca de um sonho; é um piloto altamente capaz e disposto a sacrificar a equipe em prol de seus próprios objetivos. Isso coloca o sempre gentil (e inegavelmente habilidoso) Mattia diante de um enorme desafio: como proceder para manter satisfeitos dois superstars. De um lado, o futuro promissor; do outro, um passado brilhante que em tempo algum justificou a esperança e o investimento que a Ferrari depositou nele - mas que continua sendo a voz que o departamento técnico mais escuta por sua experiência.

3º) Mesmo batida por dois fins de semana seguidos, a capacidade de reação dos alemães deve e precisa ser considerada e respeitada. A sua evolução de Spa para Monza foi mais do que inesperada, mais do que surpreendente. A tão anunciada vantagem da Ferrari nas retas de Monza não aconteceu. A diferença na prova de classificação entre o pole Leclerc e o segundo Hamilton foi de apenas 0s039; poderia ter sido muito diferente caso o Q3 seguisse o script original. Na corrida, a melhor volta foi de Hamilton, 1s020 melhor que a de Vettel, as duas feitas com diferença de apenas uma volta, ambos com pneus macios.

4º) A troca da guarda é inexorável. A geração liderada por Max Verstappen é uma das mais brilhantes da história. Alex Albon, Lando Norris, George Russell, Antonio Giovinazzi (que começa a dar sinais de recuperação dos males que faz um ano sem correr) e Esteban Ocon exigem passagem e já aliam nomes como Romain Grosjean, Nico Hulkenberg e Robert Kubica (que ainda não mostrou a que veio). Sorte da F-1 e de espectadores como nós, que presenciaremos embates entre esses jovens sequiosos por sucesso e o establishment, onde ainda brilham Lewis Hamilton, Daniel Ricciardo e Kimi Raikkonen.

Um futuro de tirar o fôlego

Que venha 2020. Até sua chegada, teremos mais sete corridas. Nelas, favoritismo claro da Mercedes em Cingapura, Rússia, Japão e no Brasil; não tão claro nos EUA e em Abu Dhabi. Já no México, com sua enorme altitude, qualquer resultado que não seja o domínio da Red Bull pode ser considerado zebra.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no último parágrafo, a etapa de Fórmula 1 será nos Emirados Árabes Unidos, não no Bahrein.

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