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Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Jogam amanhã: 5 loucuras do Uruguai x Argentina da final da Copa de 1930

Argentina e Uruguai entram em campo na final da Copa de 1930 - Reprodução web
Argentina e Uruguai entram em campo na final da Copa de 1930 Imagem: Reprodução web
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

09/10/2021 04h00

A Argentina recebe o Uruguai amanhã (10), às 20h30 (de Brasília), no Monumental de Núñez em seu décimo compromisso nas Eliminatórias para o Qatar-2022. Nem todos sabem, mas as duas seleções azuis e brancas já decidiram um Mundial entre si, em 1930, o primeiro da história das Copas.

A coluna publica cinco histórias sobre este Uruguai x Argentina que é visto até hoje pelos apaixonados vizinhos como a final de Mundial mais maluca de todos os tempos. Os trechos estão no livro Copa Loca - As inacreditáveis histórias da Argentina nos Mundiais, lançado pela editora Garoa Livros.

Nebuloso desde a semi

Semifinais da Copa de 1930. Além da Argentina, estavam classificados Uruguai, Estados Unidos e Iugoslávia. O regulamento previa que os cruzamentos seriam determinados por sorteio - o que abria as portas para um choque prematuro entre argentinos e uruguaios, colocando americanos ou iugoslavos na finalíssima. No fim, o Comitê Organizador anunciou que os favoritos foram sorteados em lados opostos da chave. O episódio é nebuloso, já que antes mesmo desse desfecho a imprensa local já tratava do sorteio como a mera definição dos adversários de Uruguai e Argentina. A suspeita inevitável é de que o processo não teve a devida lisura.

Os argentinos decidiram a vaga com os americanos, uma equipe sem tradição alguma, mas reforçada por veteranos ingleses e escoceses naturalizados às pressas para que pudessem participar do torneio. A defesa, ainda invicta na competição, era o ponto forte - tanto que a Argentina custou a furar o bloqueio dos Estados Unidos. Depois de descer aos vestiários ganhando por um magro 1 a 0, a favorita só deslanchou de vez depois que o arqueiro James Douglas deslocou o ombro ao cair de mau jeito.

Os americanos já estavam desfalcados do centromédio Ralph Tracey, que sofrera uma fratura numa dividida e não voltara para o segundo tempo. Com o goleiro baleado, bastava arriscar para o gol que a bola entrava así de una, nomás. Os argentinos marcaram mais cinco vezes antes que os americanos guardassem um de honra. Placar final, 6 a 1. Os rivais não queriam ficar para trás: no dia seguinte, o Uruguai se classificou com uma goleada pelo mesmíssimo marcador sobre os iugoslavos.

O jogo que selou a ida dos argentinos à final foi marcado não só pelas contusões dos adversários, mas também por uma atuação inesperadamente pacata de Luis Monti. O homem estava um doce: maneirou nos lances ríspidos, ajudou a levantar os oponentes caídos, tratou a arbitragem com bonita fidalguia. Costuma-se dizer que foi o primeiro jogo em que não cometeu uma infração sequer.

Explica-se: Monti estava na corda bamba desde a partida anterior, contra o Chile. O único outro atleta do elenco que seria capaz de exercer bem a função de centromédio - o organizador do jogo - era Zumelzú, que havia sofrido uma grave lesão contra os mexicanos e estava fora da Copa. Luis Monti era o principal alvo das intimidações uruguaias e havia prometido não retornar a campo depois daquela anárquica estreia contra a França - "não volto a jogar neste torneio por nada deste mundo", prometera.

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Selo húngaro em homenagem à decisão da Copa do Mundo de 1930
Imagem: Reprodução web

Nos matan, boludo!

Com Zumelzú descartado, o caudilho foi convencido pelos dirigentes não apenas a retomar seu lugar no time como também a andar na linha contra os americanos, de forma a passar incólume pela semi e não desfalcar sua seleção na finalíssima. Monti voltaria a anunciar que abandonaria o time às vésperas da decisão, quando a guerra psicológica dos uruguaios subiu de tom. O argentino tinha recebido cartas anônimas com bárbaras ameaças à sua família e dizia não ter condições de atuar. Os dirigentes e companheiros de time conseguiram fazê-lo mudar de ideia, apelando ao seu orgulho: "O que vão pensar por aí se ficar parecendo que Luis Monti é um frouxo?" O estrago, contudo, já estava feito. Apavorado, Monti jogou a final com uma inacreditável indiferença. E não sem razão: os próprios cartolas o alertaram para evitar qualquer atrito com os rivais uruguaios na decisão, "porque entonces sí nos matan a todos, boludo".

Uma guerra do outro lado do rio

A semifinal havia sido presenciada por milhares de argentinos, que fizeram a travessia noturna do Rio da Prata em quatro barcaças lotadas.

Ao fim do percurso pelo estuário, tinham ouvido um inusitado aviso pelos alto-falantes: como a entrada de armas de fogo seria proibida no Estádio Centenário, seus portadores deveriam deixar suas pistolas nas embarcações e retirá-las só na viagem de volta. Não há relatos de incidentes graves, mas essa seria apenas uma amostra do clima bélico que cercaria a partida seguinte, já valendo a taça.

Calcula-se que entre 10.000 e 15.000 argentinos cruzaram o Rio da Prata na madrugada de 30 de julho de 1930, uma quarta-feira - até hoje, aquela foi a única final de Copa realizada no meio da semana. O número de barcaças empregadas na travessia passou de quatro na semi para dez na final, e mesmo assim havia multidões no porto esperando viagens adicionais. O grito mais ouvido no momento em que as embarcações zarpavam rumo a Montevidéu resumia a sensação geral em ambas as margens do estuário: "Victoria o muerte!"

Uma espessa neblina e a má vontade das autoridades fluviais e portuárias do Uruguai, que não tinham a menor pressa para receber os visitantes na capital, retardaram o traslado. Muitos argentinos acabaram entrando no Centenário com o jogo já em andamento (não sem antes passar por uma nova revista pelas mãos de policiais à procura de armas).

Carlitos por una cabeza

A tensão também era imensa nas duas equipes. Para tentar dissipar um pouco do nervosismo entre os atletas, Carlos Gardel visitou ambas as concentrações antes da final, nas noites dos dias 28 e 29. Cantou algumas de suas mais inesquecíveis canções e conversou com os jogadores. Tanto os argentinos como os uruguaios idolatravam Gardel, mas a interminável controvérsia em torno das raízes do rei do tango, incluindo o mistério sobre seu local de nascimento - Toulouse, na França, ou Tacuarembó, no Uruguai -, era mais um motivo de disputa entre os vizinhos. A visita aos uruguaios revoltou os fãs argentinos do ícone das milongas.

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Carlos Gardel, o "rei do tango", chamado para cantar na véspera da Copa de 1930
Imagem: Reprodução web

No fim, Carlitos não quis assistir à partida no Centenário. Temia assistir a um confronto generalizado entre os dois povos que tanto amava.

Deixemos a descrição do cenário da decisão para um cracaço do time da casa, o escritor uruguaio Eduardo Galeano: "Nas arquibancadas não cabia nem um alfinete quando Uruguai e Argentina disputaram a final do campeonato. O estádio era um mar de chapéus de palha. Também os fotógrafos usavam chapéus, e câmeras com tripés. Os goleiros usavam gorros e o juiz vestia um calção negro que lhe cobria os joelhos".

Galeano também destacou o descaso dos europeus, que à época registraram a final com curtíssimos registros em seus jornais. "Afinal de contas, estava se repetindo a história dos Jogos de Amsterdã em 1928: os dois países do Rio da Prata ofendiam a Europa mostrando onde estava o melhor futebol do mundo."

A partida estava marcada para as 14 horas, mas os portões foram abertos às oito da manhã. Ao meio-dia, as arquibancadas já estavam completamente tomadas. O público foi estimado em 80.000 pessoas, sendo que uma boa porção desse total entrou sem pagar ingresso. Em Buenos Aires, a final seria transmitida ao vivo por duas emissoras de rádio, a Splendid e a Belgrano. A Casa América, loja que comercializava instrumentos musicais e telefones, instalou alto-falantes na calçada, parando o trânsito na capital.

A final, enfim

A Argentina entrou em campo com dois de seus principais atletas em situação precária. Além de Monti, destruído do ponto de vista anímico, o jovem Varallo estava com o tornozelo inchado. Ao procurar a comissão técnica para sugerir que outro jogador entrasse em seu lugar, o atacante foi submetido a uma situação bizarra.

Como quase nenhuma seleção viajava com um médico próprio, o doutor da delegação uruguaia (e filho do presidente da República) foi chamado para examinar Varallo. Recomendou que ele não atuasse, mas o diagnóstico causou desconfiança entre os argentinos - que resolveram então fazer um improvisado teste de vestiário, pedindo ao atleta que ficasse chutando uma bola contra a parede. A essa altura, o inchaço no tornozelo de Varallo estava ainda maior. Inexplicavelmente, foi considerado apto a participar do duelo.

Quem também chegou a ter sua presença colocada em dúvida foi o próprio árbitro da peleja, o belga Jean Langenus, o mesmo da tumultuada partida contra o Chile. Langenus cobrou garantias de segurança para ele e seus auxiliares e teria inclusive pedido um seguro de vida à Fifa, além de requerer que o navio Duilio, que o levaria de volta à Europa, partisse de Montevidéu longo depois da decisão (no fim, a neblina acabou atrasando o início da viagem). O belga tinha aproveitado os dias livres até a final para passear em Buenos Aires. Voltara alarmado com o ambiente belicista em ambas as margens do Rio da Prata.

O árbitro teve de mediar um conflito antes mesmo do apito inicial: cada equipe chegou para o jogo trazendo sua própria bola. Depois de muita discussão, decidiu-se que cada tempo da final seria jogado com uma pelota. Metade da partida com uma T-Shape de fabricação inglesa, escolhida pelos uruguaios, e a outra metade com uma Players escocesa, a mais usada pelos argentinos na época, com a qual a selección havia disputado todas as outras partidas do Mundial.

Com o jogo finalmente em andamento, a primeira decisão de Copa do Mundo transformava-se numa grata surpresa. Ao invés da carnificina temida por muitos, a partida foi empolgante e inesperadamente limpa. Empurrado pela torcida, o Uruguai abriu o placar logo aos 12 minutos, com Dorado. Oito minutos depois, Peucelle deixou tudo igual. A Argentina virou no fim do primeiro tempo, com o artilheiro Stábile, para desespero do capitão uruguaio Nasazzi, que não parava de reclamar de impedimento num dos gols dos visitantes.

A torcida local reagiu com admirável comedimento diante do suposto erro do árbitro - só o fato de ninguém ter tentado invadir o campo já deve ser considerado um milagre. No intervalo, a vantagem no placar não empolgava os visitantes. Pelo contrário: Pancho Varallo conta que muitos companheiros não conseguiam esconder seu receio com a reação dos uruguaios em caso de vitória argentina. "Mejor que perdamos, si no aquí morimos todos", teria dito Paternoster.

"Quando voltamos para o segundo tempo, havia uns trezentos militares com baionetas no campo, e eles não estavam ali para nos defender", contou Luis Monti anos depois. "Disse aos meus companheiros: 'Estou marcado, não posso fazer nada'. Queriam o quê, que virasse herói por um jogo de futebol?"

Que fique claro: a preocupação argentina não significa que aquela equipe se acovardou e simplesmente abriu mão do título por temer as represálias. É inevitável concluir, no entanto, que a pressão uruguaia pesou na final, ainda que o resultado tenha sido considerado legítimo. Com o ambiente todo a seu favor, a Celeste virou com gols de Pedro Cea e Santos Iriarte, e fechou o placar com Héctor Castro, nos momentos finais da partida. Temendo perder seu navio e doido para se mandar de Montevidéu, o árbitro belga apitou o final de jogo naquele mesmo instante. O Uruguai vencia a primeira Copa. A Argentina amargava seu primeiro vice - e só retornaria a uma decisão quase meio século depois, quando o torneio voltaria a ser realizado às margens do Rio da Prata.

Recebida nos braços do povo no retorno ao país, aquela seleção fez surgir a expressão "campeã moral" - tivesse sido disputada no outro lado do estuário, aquela Copa certamente seria deles, juram os argentinos. Enquanto o governo uruguaio declarava feriado nacional para comemorar o título, sua representação diplomática em Buenos Aires era apedrejada. A associação argentina rompeu relações com sua equivalente uruguaia. Dois meses depois, um golpe militar derrubou o presidente argentino Hipólito Irigoyen. Muitos acreditam que o levante nos quartéis só foi possível pela crescente ebulição social nas ruas, agravado justamente pela revolta com o vice no Mundial.