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Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que casas de apostas investem bem mais no Brasil que na América Latina?

Eduardo Vargas e Enzo Perez disputam lance na partida entre Atlético-MG e River Plate - EFE/EPA/JUAN MABROMATA / POOL
Eduardo Vargas e Enzo Perez disputam lance na partida entre Atlético-MG e River Plate Imagem: EFE/EPA/JUAN MABROMATA / POOL
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

17/09/2021 12h00

Os patrocínios no futebol brasileiro com os principais sites de apostas do mundo estão atingindo recordes. Hoje, 11 empresas possuem acordos com 19 clubes da série A (a lista completa está no blog do Lavieri). Em outros países da América Latina, como México e Colômbia, o número de equipes patrocinadas também é alto, mas a quantidade de empresas investindo nos clubes é inferior. Como parâmetro, três companhias estão presentes no futebol mexicano, três no argentino e apenas duas no colombiano.

Mesmo com o protagonismo apresentado nos torneios sul-americanos, apenas quatro clubes argentinos estampam em seus uniformes plataformas de apostas. Entre eles está o River Plate, que concretizou recentemente um contrato com a marca Codere e negocia para que a empresa se torne a patrocinadora máster do clube a partir do ano que vem, por um valor anual de R$ 20 milhões. Ao compararmos os investimentos feitos pelo ramo de apostas no futebol argentino, e no latino-americano como um todo, é nítida a preferência das empresas em realizar parcerias no futebol brasileiro.

Volume explica

De acordo com Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria esportiva, os fatores que justificam essa preferência estão relacionados à grande quantidade de consumidores de esporte no Brasil e ao nível de competição dos torneios nacionais. "Temos uma população massiva, apaixonada pelo esporte, com campeonatos competitivos. As apostas estão inseridas na cultura do nosso povo, esses fatores tornam o Brasil extremamente atrativo às empresas do setor", explica Maia, que fechou um dos um dos primeiros acordos entre clubes e empresas do setor quando atuava como vice-presidente de Marketing do Vasco, entre 2018 e 2019.

"O momento atual é de crescimento no interesse dos fãs em relação a dados estatísticos relacionados ao universo esportivo, a geração jovem consome muito este tipo de entretenimento. Caso avance o processo de regularização do segmento no país, o futuro do mercado por aqui será ainda mais promissor."

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19.8.21- Egidio, do Fluminense, e Adonis Preciado, do Barcelona-EQu, durante partida das quartas de final da Libertadores
Imagem: DOLORES OCHOA/AFP

A regularização citada faz referência à necessidade de atualização da legislação brasileira na abordagem do mercado de apostas. Até pouco tempo, o único referencial jurídico sobre o tema havia sido criado na década de 1940, e proibia a exploração dos jogos de azar em locais públicos. Por não se encaixar na categoria, a atividade permaneceu em um limbo jurídico e foi exercida por meio de brechas legislativas até o final do ano de 2018.

Ao constatar a "oportunidade de geração de emprego, rentabilidade e arrecadação de impostos", o congresso nacional sancionou a lei 13.756/18, responsável pela criação da modalidade de aposta "quota fixa", que enquadra as apostas por meios físicos ou online. A norma promete uma regulamentação adequada da atividade até o ano que vem.

Segundo Eduardo Carlezzo, advogado de direito desportivo especialista no assunto, o governo federal já deveria ter colocado a regulação em prática desde 2019: "A regulação do setor já era para ter acontecido. Mesmo sendo algo já esperado, proporcionará novidades e surpresas, pois ainda não temos um mercado regulamentado para as apostas esportivas no Brasil".

Longe do teto

A regulamentação deve ampliar ainda mais as parcerias entre clubes e empresas. Para se ter ideia, em 2018 não havia nenhuma companhia do ramo estampada nos uniformes do Brasileirão.

Atualmente, cerca de 450 sites de apostas com sede no exterior atuam no país. Hans Schleier, diretor de marketing da Casa de Apostas, patrocinadora máster de clubes como Bahia e Vitória, explica: "Há o objetivo de popularizar e consolidar as apostas como um hábito do consumidor de esportes brasileiro. Além disso, o investimento em clubes de futebol traz credibilidade e ajuda a conquistar a confiança do público. Outro fator relevante é que quando comparamos a economia brasileira com a dos países latino-americanos, há uma disparidade muito grande, isso também contribui para que as empresas escolham o futebol brasileiro".

"Mais de 60% dos brasileiros assistem jogos de futebol semanalmente, e o futebol é um dos grandes esportes do mercado de apostas. O fato de termos uma regulamentação prestes a acontecer também atrai olhares do mercado e torna o cenário mais interessante. Um outro fator expressivo é que temos uma penetração digital cada vez maior no nosso país, esses aspectos contribuem para que sejamos um grande alvo do mercado de apostas na América Latina", esclarece Renê Salviano, profissional de marketing esportivo especialista em captação de patrocínios.