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Tales Torraga

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Covid e ameaças de morte: o duro momento de Pato Fillol, ex-goleiro do Fla

Pato Fillol, lendário goleiro de Flamengo e seleção argentina, em encontro com torcedores - Reprodução Instagram
Pato Fillol, lendário goleiro de Flamengo e seleção argentina, em encontro com torcedores Imagem: Reprodução Instagram
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

25/08/2021 04h00

Maior goleiro da história da Argentina, Ubaldo Matildo Fillol, o lendário "Pato", vai precisar de toda a sua famosa capacidade de superação para bater um rival traiçoeiro. Ele testou positivo para covid-19 no último domingo (22) e "está bem, em casa", segundo a Télam, agência de notícias do governo do país.

Fillol, de 71 anos, agora descansa na cidade natal, San Miguel del Monte, província de Buenos Aires. O seu caso ganhou ainda mais espaço no noticiário portenho por ele ter recebido duas doses da vacina Sputnik, reforçando a conscientização geral em não relaxar nos cuidados e na luta contra o vírus.

Coordenador-geral do departamento de goleiros do futebol amador do River Plate, Fillol é também presença constante em uma verdadeira febre argentina: o rádio. Ele é comentarista da La Red, uma das principais emissoras de Buenos Aires, e gerou apreensão há pouco tempo por uma outra questão. Ele apresentou na Justiça uma denúncia por ameaças de morte através de mensagens em seu celular por vários dias, sem parar.

O homem que o ameaçava foi identificado (Cristian Vitale), e Fillol aceitou o pedido de desculpas em uma audiência virtual. Vitale apresentava um programa de rádio chamado "Amor por Boca" e responsabilizou seu filho, deficiente mental, pelas intimidações. Fillol encerrou o assunto e rejeitou a possibilidade de receber uma compensação financeira pelo incômodo.

"Poucos desculpam e dispensam dinheiro. O Pato evidentemente não tem preço", ressaltou Gregorio Dalbon, advogado que defendeu o ex-goleiro.

pa - Divulgação Flamengo - Divulgação Flamengo
Ex-goleiro Pato Fillol visita a Gávea em 2018
Imagem: Divulgação Flamengo

"No meu coração para sempre"

Ídolo do River e da seleção, Fillol anda pela Argentina como um verdadeiro monumento ambulante da história do futebol do país —e sem esconder de ninguém o carinho pelo Flamengo, clube que defendeu em 1984 e 1985.

''Eu falo hoje para as pessoas e elas não acreditam que joguei no Maracanã para 200 mil pessoas'', disse Fillol ao blog Patadas y Gambetas, aqui do UOL Esporte, em julho de 2017. Não eram 200.000 pessoas, tudo bem —mas o público de 150.000 torcedores, bem real, já é grandioso o suficiente.

''O Flamengo mudou minha vida. Depois de defender aquele gol, não há ser humano que não se modifique pelo menos um pouco. Eu já era bem experiente, tinha disputado três Copas, mas poucas vezes me emocionei tanto quanto depois de atuar diante de tamanha multidão. Era uma loucura.''

''A torcida argentina é mais apaixonada, ninguém discorda, mas não dá para discordar também que o carioca te dá um banho de alegria. A energia que o Maracanã tinha naqueles tempos era uma coisa realmente de outro mundo. Os argentinos amam o Rio, têm uma visão muito boa da cidade, e desfrutar tudo daquela maneira foi algo que realmente me tocou para sempre.''

''Não teve a menor rivalidade Brasil-Argentina, nenhuma hostilidade, nada. Os cariocas vão morar no meu coração para sempre. Quando digo que o Flamengo mudou minha vida, digo que mudou de uma maneira feliz, pude ver como as pessoas viviam muito alegres, bastante diferente da Argentina.''

''Não mantenho muito contato, mas fiz enormes amigos naquele tempo. O Zico era ótimo. Eram ótimos tempos, de ótimos jogadores. Falava muito em campo com Jorginho, Leandro e Mozer, que jogavam logo diante de mim. Todos excelentes em campo, excelentes pessoas.''

Em 1985, já aos 35 anos, e com uma irresistível proposta do Atlético de Madri, Fillol deixou o Rio, mas seguiu interessado no que acontecia na cidade. Em sua última visita à Gávea, em 2018, ele estava visivelmente emocionado.

"E isso porque em campo eu era gelado, um durão que não dava trégua a ninguém, nem a mim", escreveu na autobiografia "El Pato", lançada em 2018.