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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Nadal: dor, incertezas e esperança antes de Roland Garros

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

13/05/2022 04h00

As cenas são duras para qualquer fã de tênis. Com dores causadas pela lesão crônica que tem no pé, Rafael Nadal faz o que pode na partida contra Denis Shapovalov, válida pelas oitavas de final do Masters 1000 de Roma. O espanhol de 35 anos, contudo, não consegue esconder nem a dor nem a frustração (e Rafa sempre foi muito bom em não demonstrar ao rival esse tipo de sensação).

Mesmo sem abandonar a partida, fica evidente que Nadal não tem condições de competir. Entre os pontos, manca nitidamente. Termina derrotado por 1/6, 7/5 e 6/2, perdendo os últimos quatro games do embate. Vejam abaixo:

Faltam dez dias para o início de Roland Garros, e a participação de Nadal, neste momento, é uma incógnita até para ele. Rafa convive com essa lesão desde 2005 - na época, médicos lhe disseram que não seria possível seguir no tênis profissional - e hoje não sabe o que é o melhor a fazer.

Na coletiva após o jogo, frases fortes. "Continuo sonhando. Ainda faltam uma semana e alguns dias [para Roland Garros]. Não estou lesionado. Sou um jogador que vive com uma lesão constante. É triste porque vinha jogando melhor, sentindo-me bem nos treinos, e voltar a isto é duro porque não há nada que se possa fazer. Não se sabe se é melhor descansar ou treinar. Só resta aceitar e lutar."

Sobre a frustração, disse ainda: "Vai chegar um momento em que minha cabeça vai dizer basta. Eu jogo para ser feliz, mas a dor me tira a felicidade. Não só pelo tênis, pela minha vida. Meu problema é que em muitos dias vivo com dor demais. Curto o que faço, mas me traz muitos dias de infelicidade."

Sobre a lesão: "É difícil entender meu dia a dia, não quero me fazer de vítima. Tenho o que tenho, e amanhã vou levantar mal porque não vou tomar nada. Vivo com um monte de antiinflamatórios porque senão não posso treinar", disse, segundo relato do jornal espanhol Marca.

A última que morre

Apesar do desânimo causado pela derrota, a eliminação e, principalmente, a dor, Nadal deu algumas palavras de esperança à sua torcida: "Durante um tempo, joguei no meu melhor nível desde que voltei [no começo de 2022]. Não vou deixar de acreditar nem de lutar para me dar uma chance. Nisso não vou falhar. Vou fazê-lo da melhor maneira possível. Caso haja uma possibilidade remota, que eu esteja preparado para brigar. Isso é o que eu sei fazer."

E mais: "Olhemos para a frente. Minha cabeça segue preparada para estabelecer um objetivo. Sigo acreditando que vou ter minhas chances na semana que vem. Só tenho que conseguir que meus pés me deixem jogar. Tenho confiança. Vi coisas positivas [em seu tênis]."

A lesão

O problema crônico que Nadal tem em seu pé esquerdo é chamado de Síndrome de Müller-Weiss, e é uma lesão degenerativa. Trata-se de uma deformidade de um dos ossos na parte do meio do pé e que é essencial para a mobilidade.

Ano passado, quando Nadal avisou que não iria mais competir até o fim do calendário, declarou que precisaria de um tempo para "mudar uma série de coisas e entender a evolução do que aconteceu com o pé nos últimos tempos". Na época, Nadal falava em buscar um tratamento um pouco diferente para encontrar uma solução que lhe permitisse ainda ser competitivo (veja abaixo).

Desde o fim de 2005, para lidar com a lesão, Nadal joga com uma palmilha agressiva - é como se ele jogasse com o pé inclinado em um ângulo quase de 45 graus. A implantação dessa palmilha, lá atrás, exigiu até que a Nike refizesse os calçados de Rafa dando um espaço extra para a palmilha porque os pés do tenista não cabiam nos tênis.

O que todos sabemos agora é que o uso da palmilha permitiu a Nadal competir durante todos estes anos, mas também provocou problemas de joelhos, quadril e coluna. E, ainda assim, Rafa conquistou tudo que conquistou.

Este ano, Nadal conquistou o Australian Open e se tornou o maior campeão de slams em simples da história do tênis masculino. Também venceu um ATP em Melbourne, foi campeão em Acapulco e vice em Indian Wells. Durante todo esse tempo, mostrava-se surpreso por ter conseguido jogar sem dores no pé.

Em Indian Wells, no entanto, sofreu uma fratura por estresse em uma costela e teve de se afastar do circuito por mais de um mês. A pausa, ao que parece, não fez bem para seu pé, que voltou a incomodar nos últimos torneios e provocou as cenas que vimos nesta quinta-feira, em Roma.