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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alcaraz brilhou e bateu Rafa, mas não falemos em passagem de bastão (ainda)

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

06/05/2022 19h05

Parecia questão de tempo. Em março, no Masters 1000 de Indian Wells, depois de um começo fulminante, Carlos Alcaraz, 18 anos, não esteve nada longe de derrubar seu ídolo, Rafael Nadal, que então vinha em uma sequência de 19 vitórias. fez um começo fulminante, venceu um set no meio de uma incrível ventania e perdeu por apertadas parciais de 6/4, 4/6 e 6/3.

Como aconteceu

Outra chance se apresentou nesta sexta-feira, nas quartas de final do Masters 1000 de Madri, em um cenário mais favorável ao adolescente - agora com 19 anos e já no top 10 como número 9 do mundo. Condições de jogo mais rápidas (provocadas pela altitude da capital espanhola) e um Nadal ainda aquém de sua melhor forma física e técnica por ter feito apenas duas partidas oficiais após fraturar uma costela naquele mesmo duelo de Indian Wells.

Alcaraz não perdoou o ídolo. Foi fisicamente arrasador no primeiro set, agredindo antes e com mais eficiência. Ganhou quando usou ângulos, quando deu curtinhas ou quando, simplesmente, disparou winners inalcançáveis. Na segunda parcial, tropeçou torceu o tornozelo e, por um momento, perdeu-se em quadra. Rafa não perdoou e forçou a terceira parcial, mas bastou um game ruim do Rei do Saibro para Alcaraz tomar a dianteira e não largá-la mais. Venceu por 6/2, 1/6 e 6/3, avançando às semifinais de um Masters 1000 pela terceira vez na temporada e, mais do que isso, adicionando ao currículo um triunfo mais do que memorável.

O último game foi, talvez, a melhor amostra da quantidade de recursos e do poder de execução de Alcaraz - e sem tremer diante da proximidade de completar a vitória sobre seu ídolo de infância. No primeiro ponto, um saque-e-voleio definido com uma curtinha junto à rede. Pouco depois um drop shot de esquerda seguido por um backhand de fora para dentro. Indefensável. Com o placar em 30/30, outra curtinha - agora de direita - deu a Alcaraz o match point. E o último ponto... Bem... Apenas assistam abaixo.

O que significa

Para Alcaraz, é mais um carimbo no seu cartãozinho de fidelidade como integrante do top 10. Só este ano, o adolescente derrotou Tsitsipas (#5 do mundo) duas vezes, além de Berrettini (#7), Hurkacz (#10), Ruud (#8) e, agora, Rafa Nadal (#4). A cada triunfo, mais confiança, mais convicção de que não se trata apenas de uma fase boa, mas do momento de arrancada de um garoto que pensa grande e vai se descobrindo capaz de conquistar tudo que almeja.

Bater Rafa no saibro, na Espanha, é, certamente, um desses momentos que mostram do que Alcaraz é capaz. Ainda que não tenha sido o melhor Rafa competindo nas condições ideais, é sempre bom sair do zero e conquistar aquela primeira vitória sobre um rival pode aparecer novamente no caminho daqui a um mês, na segunda semana de Roland Garros.

Para Nadal, porém, o revés desta sexta não pode ser visto como alarmante. Pela fratura na costela e o tempo fora das quadras desde Indian Wells, bater o embaladíssimo Alcaraz em Madri talvez fosse querer demais. Rafa não se mostrou nem fisicamente pronto nem tecnicamente afiado o bastante para isso. Ainda assim, tirou um set quando teve a chance e não esteve tão longe assim do nível do rival no terceiro set.

Para quem tem 35 anos e 21 slams, a meta no momento é apenas Roland Garros, e Nadal terá a semana do Masters 1000 de Roma, a semana seguinte e, possivelmente, a primeira semana do slam francês para encontrar seu melhor tênis e chegar à reta final de RG jogando seu melhor tênis. Uma derrota para Alcaraz - um espetacular Alcaraz - não é o fim do mundo.

Coisa que eu acho que acho:

- Não acredito em passagem de bastão. Não pelo resultado de hoje. Não pelas condições em que a partida ocorreu, sobretudo nas quartas de final de um Masters 1000. Ouso dizer, por outro lado, que, a julgar pela velocidade da evolução de Alcaraz, talvez esse dia não esteja tão longe assim.

- Nem tanto pelo resultado final, mas pelos recursos que mostrou para superar Nadal nesta sexta, Alcaraz prova novamente por que é "o" cara a ser seguido no circuito hoje.

- Considerando o pouco tempo de competição e o nível altíssimo que Nadal é capaz de alcançar quando tudo em seu jogo está funcionando, é bem provável que Rafa não chegue a Roland Garros em seu melhor nível. Dizer isso não é duvidar de sua capacidade de ganhar o torneio nem desrespeitá-lo. É fazer uma análise baseado no tempo e na história. Estou com Mouratoglou nessa. Pena que ainda há muitos tenistas e ex-tenistas que só gostam de ler opiniões que lhe são favoráveis. Achar que A é melhor que B não é desrespeitar ninguém. É apenas ter uma opinião (e, aparentemente, coragem para dizê-la em público).

- Som de hoje no meu Kuba Disco: Wildest Dreams (Iron Maiden) porque é o que me vem à cabeça quando penso em "make my wildest dreams come true".

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