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Djokovic: se isenção pareceu privilégio, visto cancelado parece volta atrás

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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

06/01/2022 07h12

Quando as autoridades australianas concederam, apoiadas por dois painéis de especialistas, uma isenção para Novak Djokovic entrar em seu país sem estar vacinado, a repercussão interna foi muito ruim. O torneio deu suas explicações, e os governantes também, mas o povo que viveu os últimos dois anos sob regras sanitárias mega rígidas não gostou nada de ver um reconhecido (embora nem tão assumido) antivaxer receber uma permissão para desembarcar em Melbourne e possivelmente ganhar uma pequena fortuna em seu território.

O que aconteceu após Novak Djokovic anunciar seu embarque e a isenção concedida foi, no mínimo, esquisito. A primeira parte dessa minissérie tragicômica tem o primeiro-ministro do país, Scott Morrison, declarando que "Djokovic precisa provar que tem uma isenção médica genuína quando descer na Austrália ou ele estará no próximo voo de volta para casa."

Paremos e pensemos aqui: como assim, o primeiro-ministro questiona a autenticidade dessa isenção emitida pelo próprio país? Djokovic teria mentido e embarcou sem tê-la? Ou será que o governante, após ouvir seu povo queixar-se fortemente do que pareceu tratamento privilegiado a um estrangeiro famoso, decidiu soltar uma frase forte para posar de poderoso e desinflamar sua população? Fiquei, inicialmente, com esta última hipótese. Inclusive comentei isso ao lado de Renato Maurício Prado no UOL Esporte News, na manhã de ontem (veja abaixo).

É importante apontar que isso aconteceu enquanto Djokovic voava para Melbourne. Ao chegar na cidade, o número 1 do mundo teve sua entrada negada. E aí as redes foram inundadas com informações desencontradas, e os fatos não foram totalmente explicados ainda. O que se sabe, ao certo, é que Nole passou a noite numa salinha da alfândega australiana e, pela manhã (horário de Melbourne), teve seu visto cancelado e não pôde sair do aeroporto.

Inicialmente, houve relatos de que Djokovic desembarcou com um visto incompatível com a isenção médica. Mais tarde, o ministro da Saúde australiano, Greg Hunt, disse que Djokovic não não forneceu provas de padrão apropriado para entrar no país. Isso dá a entender que os documentos médicos usados para conseguir a isenção (repito: documentos aceitos pelos painéis de especialistas do país) não foram considerados prova suficiente para que a isenção tivesse sido concedida.

"Regras são regras, especialmente no que diz respeito às nossas fronteiras. Ninguém está acima dessas regras. Nossa forte política de fronteira tem sido crucial para que a Austrália tenha uma das taxas de morte por covid mais baixas do mundo. Estamos continuando a ser vigilantes", disse Morrison, sem especificar quais regras foram (ou teriam sido) quebradas por Djokovic ao entrar no país.

A Australian Border Force (ABF, polícia alfandegária do país), por sua vez, soou como um Michael Masi fronteiriço ao soltar um comunicado nada específico dizendo que "o sr. Djokovic não forneceu as devidas provas para preencher os requisitos de entrada na Austrália, e seu visto foi subsequentemente cancelado."

Resumindo: até agora, ninguém sabe exatamente o que Djokovic apresentou ou deixou de apresentar ao desembarcar em Melbourne. As autoridades não foram específicas o bastante, e Novak (que teve, sim, acesso a seu telefone) não se manifestou, embora seu pai - que mais atrapalha do que ajuda - tenha até ameaçado ir às ruas para protestar.

Há, porém, uma pista (ou não, quem sabe?): oficiais de saúde da Tennis Australia admitem que seu painel de especialistas que examinou o pedido de Djokovic não investigou a origem e a autenticidade dos documentos de saúde apresentados pelo sérvio. Teria a polícia alfandegária sido mais rigorosa nessa apuração e, portanto, considerado inválido o documento que serviu de origem para o pedido de isenção? Conseguem imaginar um oficial australiano examinando o documento e olhando para Djokovic com expressão casimiresca de "meteu essa?" A essa altura, eu até consigo.

Ao afirmar isso, não sugiro que Djokovic tenha usado um atestado falso, pedido o visto errado ou coisa parecida. Longe disso. A impressão que fica é que se conceder a isenção gerou desconfiança e a sensação de que a Austrália deu privilégios ao número 1 do mundo, agora o visto cancelado tem cara de arrependimento e manobra improvisada às pressas para livrar os governantes de um problemão com sua população. Aguardemos os próximos episódios e os devidos esclarecimentos.

Coisas que eu acho que acho:

- Que ninguém se engane: mantenho o que escrevi no texto de ontem. Djokovic optou por não tomar a vacina e deve arcar com a responsabilidade. E não pensem que o sérvio é um forte defensor do "meu corpo, minha escolha." Fosse assim, teria levantado a bandeira, questionado e boicotado o torneio. Em vez disso, pensou apenas na sua carreira e buscou uma brecha nas regras. Foi covarde, egoísta e pequeno. Estivesse vacinado - algo mais do que necessário numa pandemia, cenário em que o global precisa se sobrepor ao individual - não teria passado por nada disso.

- Se você chegou aqui tendo Djokovic como herói e ícone do "só coloco no meu corpo o que tem resultado comprovado", sinto informar: o Novak que é contra vacinas é o mesmo Djokovic que diz consumir "Coated Silver", um líquido composto por nanopartículas de prata, água e polissacarídeos que promete neutralizar vírus e fungos e fortalecer o sistema de defesa do organismo - mas nada disso tem efeito comprovado (veja aqui).

- No Jornal Nacional, William Bonner classificou o incidente como "vexame planetário." Bravo.

- Djokovic segue em Melbourne. Enquanto apela da decisão (do cancelamento do visto) na Justiça australiana e aguarda uma audiência final diante de um juiz federal na segunda-feira, está hospedado (sem poder sair) em um hotel que também abriga refugiados esperando resolução sobre seus status no país.

- Segundo o jornal australiano "The Age", que cita fontes "familiares com a papelada apresentada por Djokovic no desembarque", as evidências mostradas pelo sérvio para apoiar o pedido de isenção eram mínimas e endossadas por apenas um médico. Além disso, a maioria da documentação apresentada eram papéis da Tennis Australia, a federação australiana de tênis. As fontes ouvidas pelo Age mencionam ainda que outro tenista e um oficial que entraram no país com isenções apresentaram documentos mais substanciais e endossados por mais de um médico.

- A teoria que circula com mais força por enquanto dá conta de que Djokovic teria argumentado que pegou covid em algum momento nos últimos seis meses e, por isso, não precisaria da vacina. No entanto, o Ministério da Saúde já havia informado a Tennis Australia de que apenas contrair covid no período não era suficiente para garantir entrada livre de quarentena no país.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: "The Clansman" (Iron Maiden), porque de alguma maneira o verso "with a need to belong" e os seguidos gritos de "freedom" fazem sentido.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL