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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sem Djokovic, Nadal e Federer, 'Mini Three' deixa a desejar em Miami

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

02/04/2021 10h33

Pela primeira vez desde 2004, um torneio da série Masters 1000 não teve nem Roger Federer nem Rafael Nadal nem Novak Djokovic nem Andy Murray. O chamado Big Four, que dominou o circuito por boa parte das últimas duas décadas, foi, primeiro, reduzido a Big Three devido à séria lesão no quadril de Murray. Agora, com a pandemia, nenhum dos outros três topou deixar a Europa para disputar um torneio só nos Estados Unidos. Assim, o Miami Open teve caminho aberto para a geração seguinte dar os primeiros passos na estrada para assumir o reinado no circuito masculino.

Dominic Thiem, lidando com problemas físico, também não fez a viagem. A chave ficou apetitosa especialmente para Daniil Medvedev, 25 anos, vice-campeão do Australian Open, número 2 do mundo e primeiro cabeça de chave em Miami; Stefanos Tsitsipas, 22 anos, #5 e cabeça 2 na Flórida; e Alexander Zverev, 23 anos, #7 e autor de recentes críticas ao ranking mundial que congela pontos durante uma pandemia - o alemão acha que deveria estar mais bem colocado devido a seus resultados "recentemente".

O que aconteceu, então, nesta espécie de bonus round do trio? Nenhum deles chegou sequer às semifinais. Zverev nem passou da estreia. Perdeu de virada para o garotão Emil Ruuusuvuori, 21 anos, #83. Medvedev e Tsitsipas tombaram nas quartas. O russo caiu diante do espanhol Roberto Bautista Agut, 32 anos, #12, e o grego foi eliminado pelo polonês Hubert Hurkacz, 24 anos, atual #37 do planeta. Sim, o "Mini Three" decepcionou.

Talvez "decepcionar" não seja o verbo mais justo para a ocasião. Talvez não seja adequado julgar que os três deveriam (em vez de "poderiam") ter ido mais longe em Miami. Talvez seja até ingênuo acreditar que, um dia, Medvedev, Tsitsipas e Zverev possam replicar o domínio que o Big Four exerceu e ainda exerce nos slams. Só que, no fundo, é assim que grande parte do público de tênis - sobretudo quem começou a acompanhar a modalidade em algum momento dos últimos 20 anos - vai julgar o Mini Three ou quem quer que venha a brigar pelas primeiras posições do ranking nos próximos anos.

A referência do Big Four ainda é muito próxima e muito forte. O Big Three ainda domina os slams. Thiem foi o único "estrangeiro" a vencer um slam nos últimos 16 (!) torneios desse tipo - e isso aconteceu quando Nadal e Federer não competiram, e Djokovic foi desclassificado pela bolada na juíza de linha. Por isso, boa parte dos fãs tende a olhar para a ex-next Gen, o Mini Three, Rublev e etc. como seres inferiores, que, entre outras coisas, "decepcionam".

Em algum momento, é preciso que haja um ajuste de expectativas. O público tem que entender que o domínio do Big Four foi algo único na história do tênis e que o normal - mesmo! - é que isso não se repita. Não é necessariamente ruim. O cenário mais provável para o pós Big Three é algo como acontece na WTA atualmente: uma dezena de nomes com chances reais de vencer cada torneio. E, felizmente, o circuito feminino vai ver uma final de Miami Open entre Ashleigh Barty e Bianca Andreescu, tenistas cheias de recursos que enchem os olhos.

Da minha parte, como jornalista, colunista, analista ou seja lá o que for, cabe olhar, julgar e explicar. Sim, Medvedev, Tsitsipas e Zverev - cada um de seu modo - deixaram a desejar em Miami. O russo não esteve bem fisicamente, o grego perdeu um jogo que parecia sob controle, e o alemão fez uma apresentação muito aquém do seu melhor.

Mais do que condenar os três por perderem uma bela chance em um Masters 1000, mas muito mais mesmo, o resultado coletivo deixa óbvia a distância deste Mini Three para o Big Three de hoje e o Big Four que reinou até 2017. Até agora, ninguém no circuito masculino, nem sozinho nem num grupinho qualquer de rótulo marqueteiro, mostrou ser capaz de repetir o que os quatro do Big Four faziam a cada torneio grande.

É um problema da ATP lidar com esse ajuste de expectativas e evitar que seu público veja cada partida dizendo que "fulano nunca vai ser Federer" ou coisa parecida. Até as três aposentadorias, vai haver tempo. Até lá, que consigamos aproveitar bem o Big Three e entender mais o Mini Three.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL