Milly Lacombe

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Se a chave é machismo e misoginia, eleição no Corinthians deve ser adiada

Nesse sábado, 25 de Novembro, o clube mais popular do Estado e o segundo mais amado do Brasil vai eleger seu novo presidente. O Corinthians é a sua torcida e seus valores sociais. Sem essas duas coisas, o clube seria apenas mais um. Mas, de alguns anos para cá, o time vem se distanciando desses valores e afastando a torcida de menor renda.

Para falar de coisas recentes, contratou um treinador condenado por envolvimento em estupro de uma adolescente, não se manifestou contra os anos de fascismo que vivemos, nunca mais se colocou ao lado da classe trabalhadora, não participou de protestos e manifestações em nome da democracia, encareceu produtos, sócio-torcedor e ingressos.

Com a eleição, a esperança seria a de mudar tudo, resgatar raízes, voltar a poder ser chamado de Time do Povo sem que a frase soe hipócrita. Vamos lembrar que mais da metade desse tal povo que o clube diz ser seu é composta de mulheres e que a contratação de Cuca ofendeu, portanto, grande parte da torcida.

Mas essa eleição não traz com ela esperança. Traz, a bem da verdade, desespero.

De um lado, Augusto Melo, o candidato da oposição flagrado em áudios se manifestando de forma abertamente machista e misógina dizendo, entre outras coisas, que futebol é coisa pra homem. Talvez Augusto não esteja acompanhando o time feminino do Corinthians.

A situação, que lançou André Negão como o candidato da continuidade, se esbaldou denunciando o rival pelo machismo e misoginia dos áudios. Seria apenas curioso se não fosse trágico.

Essa mesma situação contratou o treinador condenado por envolvimento em estupro. E bateu o pé dizendo que "acreditou na palavra de Cuca" de que ele nada havia feito de errado. Não se preocupou em checar, apurar, investigar. Meia hora de esforço teria revelado que talvez essa ideia fosse ofensiva às corintianas.

Essa mesma situação arquivou mensagens de cunho altamente machista e misógino que continha ameaça de violência de gênero por parte do conselheiro vitalício conhecido como Mané da Carne. O conteúdo da mensagem revelava que ele mandou uma conselheira lavar um tanque de roupa para ficar mais tranquila, reclamou da Lei Maria da Penha, uma lei histórica que todos os dias salva mulheres de agressões e assassinatos, disse que agora mulher pode tudo e homem não pode nada mas que com ele não tem esse negócio não porque "se uma mulher me ofender vou pra cima e dou-lhe murro mesmo" e usou com tranqüilidade, duas vezes, a palavra de teor racista "denegrir".

No referido áudio, para tentar se justificar, ele diz ter quatro filhas e uma esposa maravilhosa, uma argumentação que não faz nenhum sentido para qualquer pessoa com alguma cognição. E seguiu defendendo que mandar uma mulher lavar um tanque de roupa não tem nada demais, recusando-se a se desculpar com a colega.

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Pois esse senhor apoia e é bem recebido por André Negão e a turma da situação. Nada aconteceu com o Mané, vejam que interessante. Ele segue ali atuante como conselheiro vitalício. André Negão, através de sua assessoria, informou que na época, como presidente do conselho de ética do Corinthians, não pôde tomar atitude nenhuma porque o áudio não foi mandando em um grupo oficial de conselheiros, mas em um grupo informal.

Então estamos diante de um candidato que acha legítimo que um conselheiro diga que vai dar murro mesmo em mulher desde que o faça em ambientes não oficiais. André calou. Escutou a ameaça, não se manifestou publicamente contra o que ouviu, cruzou os braços e seguiu sua vida de amizade com o conselheiro Mané da Carne.

Na época, a conselheira Analu Tomé, vítima do machismo de Mané da Carne, escreveu o seguinte no Instagram:

"Dei entrada à representação ao Conselho Deliberativo e Comissão de Ética do Sport Club Corinthians Paulista sobre o insulto de autoria do conselheiro Mané da Carne. Também esteve comigo a Cons. Susy Sanches com outra representação contra o mesmo conselheiro. Agora é aguardar... " Toda solidariedade a nossa co-fundadora e Conselheira na luta contra a misoginia e o machismo feito pelo também Conselheiro Mané da Carne. Nós, torcedoras, não admitimos homens ( em qq cargo) misóginos e machistas que desrespeitam mulheres no time do povo.

Mancha nossa história democrática.Exigimos a expulsão desse indivíduo, qualquer punição menor fere a Instituição Corinthians e pelo menos 15 milhões de Corinthianas. Agora é a hora de mostrar em atitudes o respeito as minas, desde já saiba Senhor presidente @duiliomalves que não aceitamos apenas"notinhas" queremos posicionamento e punição, o mesmo recado se estende ao Presidente de Ética do Conselho.

Nada aconteceu.

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Depois disso, numa reunião de conselheiros, Mané da Carne teria ido pra cima de Susy Sanchez, conselheira que, com Analu Tomé, se mobilizou para denunciá-lo ao Conselho de Ética. Para confrontá-la sobre a representação feita contra ele, teria dito, na presença de todos, que bate mesmo em mulher. Os demais conselheiros assistiram à intimidação corporal sem nada fazer.

Agora, para acrescentar ainda mais indecência à eleição, a situação anda temerosa de que novas acusações de assédio apareçam contra um de seus membros mais conhecidos. Fui apurar junto a algumas mulheres ligadas ao Corinthians, cujos nomes preciso manter em sigilo pela segurança das mesmas, e haveria episódios bastante constrangedores que poderiam surgir entre hoje e amanhã envolvendo um dos nomes associados à Democracia Corintiana e ligado à chapa da situação.

A luta contra o machismo e a misoginia está chacoalhando a eleição no Corinthians. Essa é a boa notícia. A notícia ruim é que nenhum dos dois candidatos preenche requisitos básicos para ser eleito para a presidência do time que se diz do povo e que tem mais da metade da torcida composta por mulheres.

Se a eleição não for adiada vamos esperar o que? Que vença a continuidade desse estado deplorável de coisas ou que vença a oposição que tampouco parece compreender o que é machismo e misoginia?

O mínimo que poderíamos esperar é que, para a vice presidência, as chapas tivessem colocado uma mulher já que ambas alegam estar sim atentas à luta contra violências de gênero. Nenhuma das duas fez isso e escolheram mais do mesmo como seus vices. Dizer estar atento à luta feminista envolve ações práticas e não apenas esse blablablá sem fim.

O Corinthians faz tempo encara um abismo jamais visto. E, como ensinou o filósofo, se você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha de volta para você. Que São Jorge esteja positivo operante no sábado e que escolha o candidato mais disposto a rever conceitos e a incluir a pauta feminista em sua agenda de forma prática, clara e tão revolucionária como pede a história desse clube.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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