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Perguntar não ofende: cadê o novo futebol para o 'novo normal'?

Marília Ruiz

Tenho 20 anos de jornalismo esportivo: 5 Copas do Mundo, 4 Olimpíadas, muitos Brasileiros, alguns Mundiais e várias Copinhas. Neste blog seguirei fazendo isso: escrevendo sobre futebol. Sem frescura. Sem mimimi. Para versões oficiais dos clubes e atletas, recomendo procurar as assessorias de imprensa.

03/07/2020 11h49

No momento em que escrevo, 62.045 brasileiros haviam morrido por causa da Covid-19. Oficialmente. Mais de 60 mil pessoas. Um Maracanã cheio!

Muito bem...

Aliás, muito, muito mal.

Está mais do que na hora de falarmos sobre isso: qual o poder mágico do futebol que é imune a tudo isso?

60 mil pessoas tiveram interrompidos seus planos para o dia seguinte.

60 mil pessoas deixaram famílias e amigos, suas torcidas, destroçados, sozinhos, enlutados.

60 mil pessoas não têm mais dia nenhum para cumprir coisas programadas em seus calendários.

60 mil pessoas não estão mais aqui.

Não estão. Ponto. Fim.

Todos os planos de quem ficou precisaram mudar e, às custas de muita força, fé e responsabilidade, mudaram.

Todas as agendas daqueles que se foram tiveram de ser infelizmente canceladas.

Já os dirigentes de futebol, sem a dor/o luto/o desespero/a tragédia que as mais de 60 mil mortes causaram em suas "torcidas" pessoais, não conseguem sair da "paralisia mental" desde 15 de março. Os dirigentes precisam ter o mínimo de coragem para encarar uma feliz realidade: eles só perderam datas e dinheiro. Só.

Imagine se qualquer um dos familiares dos mais de 60 mil pudesse trocar de lugar, se pudesse trocar por dinheiro/datas as vidas dos seus?

Quem não queria ter pedido APENAS datas e dinheiro?

A discussão sobre a IMPOSSIBILIDADE de mexer no calendário é patética, é mimada, é ingênua (para dizer o mínimo).

Ao empurrar para 2021 o Brasileiro, por exemplo, ninguém ainda parou para pensar que se prejudica também os ganhos de mais um ano? Em vez de tentar estancar a sangria SEM SANGUE de 2020, nossos despreparados dirigentes fazem o que sempre fizeram: empurram para o próximo ano fiscal, para os próximos dirigentes e para o futuro os problemas com os quais não sabem e não querem lidar.

Senhores, decisões assertivas, duras, racionais e técnicas são necessárias para salvar o futebol.

Ontem, os clubes e as federações estaduais ficaram abalados com a possibilidade de a Globo cortar os contratos de TV (tal qual fez no RJ). Vamos lá, perguntar não ofende: se o Brasileiro for até março, o Estadual do ano que vem será quando? Hã? E a Libertadores que começaria em janeiro/fevereiro: como serão as vagas para os daqui? Hã?

O que estamos assistindo há 119 dias no Brasil é uma combinação de notas oficiais vazias, medidas tímidas e uma fé cega de que "Deus é Brasileiro" e já, já as coisas vão melhorar.

Se depender do que (não) estamos fazendo, não vão tão cedo.