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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Caso de Simone Biles reforça obrigação de cuidar da saúde mental do atleta

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

29/07/2021 08h41

Por Gabriel Coccetrone

Considerada por muitos como uma das maiores estrelas da ginástica, a americana Simone Biles desistiu de disputar a final individual da modalidade artística nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. A confirmação ocorreu nesta quarta-feira (28) e o motivo é novamente um problema sério que vem assombrando o esporte nos últimos anos: a saúde mental dos atletas.

Nos últimos meses, o Lei em Campo falou sobre o tema em diferentes oportunidades. A alta exposição à qual os atletas têm sido submetidos está trazendo um efeito colateral preocupante. A pressão pelo máximo desempenho, as frustações, a cobrança da torcida. Tudo isso somado pode desencadear um quadro clínico complexo e levar o jogador a ter a sua saúde mental afetada.

"Há uma idealização dos atletas por parte das pessoas, como se eles tivessem que ser heróis. Não há uma clareza, para muitas pessoas, que antes de tudo esse atleta é um ser humano. Eles precisam de acompanhamento psicológico -treinamento mental- pois estão sob forte pressão em muitos momentos. Além disso, também precisam se ver como seres humanos que acertam e erram, e não podem permitir que a empolgação ou a vaia dos torcedores definam a visão que eles têm de sí mesmo, pois na quarta feira eles podem ser incríveis na visão da torcida, mas em breve eles podem falhar e serem vistos como canalhas", avalia Daniel Mello, psicólogo esportivo.

João Ricardo Cozac, psicólogo e presidente da Associação Paulista de Psicologia no Esporte, afirma que a parte mental e emocional é a base de um atleta.

"No triângulo da preparação esportiva, de um lado temos a parte física, do outro a parte técnica, e a base dessa pirâmide é a parte mental e emocional. Tanto nas categorias de base como no profissional, é preciso fortalecer os atletas para encarar as pressões da carreira profissional, a expectativa da mídia, da torcida, para poder dar conta de uma rotina bastante cansativa de jogos, treinos e viagens", ressalta o especialista.

O caso de Simone Biles chamou a atenção do mundo. Na terça (27), a ginasta desistiu de competir na final por equipes nos Jogos Olímpicos após cometer um erro no salto. A atleta teve problemas na aterrissagem e tirou uma nota muito abaixo do que está acostumada. Após a atitude, muito se especulou que a americana teria se lesionado, o que foi desmentido pela própria, afirmando que sua decisão foi por conta de questões mentais.

"Preciso me concentrar no meu bem-estar, há vida além da ginástica. Infelizmente aconteceu nesse palco. Esses Jogos Olímpicos têm sido muito estressantes? Uma longa semana, um longo ciclo olímpico e um longo ano. Eu acho que estamos todos muito estressados. Nós deveríamos estar nos divertindo e esse não é o caso", declarou Biles, em entrevista coletiva após a conquista da medalha de prata.

A ginasta ainda afirmou que não está feliz e que teve que colocar sua saúde mental como prioridade.

"Eu sinto que eu não estou me divertindo. Eu queria que esses Jogos Olímpicos fossem por mim mesma, mas eu sinto que ainda estou fazendo pelos outros", finalizou.

A decisão definitiva de não participar a final individual ocorreu após uma avaliação médica em que a atleta escolheu por cuidar do seu bem-estar emocional. A equipe de ginástica dos Estados Unidos confirmou a decisão pelas redes sociais e declarou apoio à estrela da ginástica.

"Após avaliação médica adicional, Simone Biles retirou-se da competição individual geral final. Apoiamos de todo o coração a decisão de Simone e aplaudimos sua bravura em priorizar seu bem-estar. Sua coragem mostra, mais uma vez, por que ela é um modelo para tantos", escreveu a equipe.

É importante destacar que as entidades esportivas têm obrigação legal de fazerem acompanhamento psicológico com os atletas. No futebol, por exemplo, diversos clubes contam com profissionais da área em suas instalações e no ambiente de trabalho.

No domingo, após ter falhas em aparelhos nas classificatórias, Biles usou suas redes sociais para fazer um forte desabafo. Lá, disse que a pressão por ser apontada como a maior estrela dos Jogos Olímpicos de Tóquio estava muito pesada.

"Eu realmente sinto que às vezes tenho o peso do mundo sobre meus ombros. Eu sei que eu ignoro e faço parecer que a pressão não me afeta, mas às vezes é difícil hahaha! As olimpíadas não são brincadeira!", declarou a ginasta.

Para Daniel Mello, a pressão é totalmente prejudicial para a saúde mental do atleta.

"A pressão, em qualquer ambiente profissional pode ser danosa, porém dificilmente o atleta ou eu e você temos controle sobre essa pressão. O que podemos fazer é lidar com pressões, injustiças, críticas, ressignificando internamente e respondendo a isso da melhor maneira possível. O problema é que muitas vezes vemos pressões absurdas no esporte, e isso possivelmente tem consequências na saúde mental do atleta, e em toda a sua vida", ressaltou o psicólogo.

Simone Biles, de 24 anos, é dona de quatro ouros e um bronze no Rio-2016, o que a levou a ser considerada uma das grandes favoritas em Tóquio-2020. Por conta de sua importância para o esporte, seu caso pode ser uma ótima oportunidade para fazer com que as pessoas passem a tratar a saúde mental com mais seriedade e cuidado.

Crédito imagem: AFP

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL