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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

27 nos depois, F1 mudou e esta mais segura por causa de Senna

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

04/05/2021 04h01

Andrei Kampff

Lá se vão 27 anos sem Ayrton Senna. Mesmo assim, todo dia 1º de maio, se multiplicam pelo mundo homenagens ao piloto. No último sábado (1º) , a organização da F1, pilotos e fãs relembraram o tamanho que esse brasileiro tem para o esporte. O nome do piloto esteve entre os principais assuntos do mundo no Twitter. Um gênio, que mudou também as regras do esporte.

Não sou daqueles que gostam de dizer que uma tragédia deixou um legado positivo para alguma coisa. Afinal, se algo mudou, foi porque antes estava sendo feito da forma errada. E foi o que se viu quando da morte de Ayrton Senna.

Foi no dia 1º de maio de 1994. Na sétima volta do GP de San Marino, a Williams de Senna entrou na curva Tamburello e ele perdeu o controle do carro, seguindo reto e batendo de frente em uma proteção de concreto. O choque se deu a 200 km/h.

O acidente que matou um dos maiores nomes do esporte brasileiro foi mais um em um final de semana que já era trágico para o automobilismo.

Um dia antes, Roland Ratzemberger morreu quando o carro dele bateu durante treino qualificatório pra corrida. O acidente dele e de Senna foram os piores, mas não os únicos naquele final de semana.
Rubens Barrichello, na sexta-feira, também perdeu o controle da Jordan, passou por cima de uma zebra, o carro decolou e ele se chocou violentamente contra uma barreira de pneus. Barrichello apenas quebrou o nariz. Mas o sinal de alerta era evidente.

Senna passou o final de semana preocupado e resolveu agir. Ele se reuniu com outros pilotos para discutir questões de segurança, determinado a recriar a Comissão de Segurança dos Pilotos. E, mais, foi cogitada até a possibilidade de eles não correrem no dia 1º de maio. Todos os pilotos, depois de muita conversa, decidiram correr.

O fato é: havia problemas. A F1 estava insegura. Ela precisava mudar. E só mudou por causa do episódio mais triste da história do automobilismo brasileiro.

Foram várias as mudanças em relação à segurança na Fórmula 1. Algumas delas haviam sido solicitas por Senna horas antes da corrida fatal.

Foram mais de 20. Elas se dividiram em carros e indumentárias; em pistas e regras.

Só para citar algumas: os carros ganharam proteção lateral, fortalecimento da estrutura das chamadas células de sobrevivência. Com relação às pistas, a chegada de novo padrão eliminou muitas curvas perigosas, como a Tamburello, que passaram a ter novos traçados. Além disso, foi criado o Instituto de Segurança da Federação Internacional de Automobilismo, órgão pensado para implementar medidas de segurança na categoria.

Enfim, a F1 mudou. Desde então, apenas Jules Bianchi morreu devido a um acidente em pista, no GP do Japão de 2014.
As regras do esporte mudam. E as mudanças aparecem depois de disputas jurídicas, como também após uma tragédia. Mas, repito, nunca uma tragédia terá saldo positivo. O que foi feito na F1 já era pensado e discutido por Senna.

A Lex Sportiva não pode ser resumida à uma Lei do Esporte. Ela é um sistema transnacional que ultrapassa os limites jurídicos, abrangendo também sociologia, cultura e diálogos, nem sempre tranquilos. Uma tragédia também participa desse sistema.

E, como eu sempre digo, o diálogo é sempre uma ferramenta importante na construção de uma sociedade melhor e também de um esporte mais seguro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL