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Lei em Campo

Contra racismo, jogadores do PSG e do Istambul abandonam jogo e dão exemplo

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

08/12/2020 17h51

Andrei Kampff

Um protesto histórico e que pode ser um marco no combate ao racismo n o esporte. O jogo entre o Paris Saint Germain e o Istambul pela Champions League foi paralisado devido a um suposto ato racista do quarto árbitro contra o Pierre Webo, membro da comissão técnica da equipe turca. As equipes abandonaram o campo e retornaram ao vestiário como forma de protesto.

As pessoas têm dificuldade em enxergar preconceito - lógico que aqui me refiro as pessoas que não são atingidas por ele. Por isso existe uma grande tendência das pessoas de diminuir, contemporizar, colocar na conta da "brincadeira'. Uma lição básica: preconceito existe quando atinge alguém que sofre com um determinado comportamento, que sente - e sofre - com a força de uma postura carregada de preconceito.

Essa postura histórica foi vista em um jogo numa liga norte americana, quando o time do San Diego Loyal abandonou o campo em forma de protesto na partida contra o Phoenix Rising, após um jogador adversário proferir comentários homofóbicos ao meio-campista Collin Martin. Mas o jogo desta terça tem um peso diferente. E histórico.

Ela contraria um silêncio constrangedor do esporte.

Futebol também é preconceituoso

O popular futebol também sofre com o preconceito, como homofobia e racismo. Isso mesmo, o futebol de Pelé, Garrincha, Djalma Santos e Ronaldinho ainda é pouco representado por negros fora do campo. Não existe presidente negro na série A no Brasil, e o número de técnicos não chega a 10%.

O preconceito também se manifesta nessa falta de representatividade. E nas manifestações de injúria racial que têm crescido no esporte segundo dados do Observatório da Discriminação Racial. A verdade é que a democracia das raças ainda é uma falácia, inclusive no futebol. É importante entender que a sociedade evolui, e o esporte não pode ficar preso a costumes discriminatórios. Ele precisa evoluir e integrar, aproximar e acolher a todos.

O movimento esportivo não deve permitir mais comportamentos discriminatórios. Para isso, ganhou um aliado. O novo Código Disciplinar da FIFA, uma espécie de lei do futebol, aumentou o cerco do combate ao preconceito no futebol. Apesar de mais enxuto, ele está mais completo e moderno, e reforça uma preocupação necessária do movimento esportivo, o combate a todo tipo de preconceito

Movimento esportivo tem papel de destaque na defesa de causas sociais

O apoio à diversidade tem sido uma batalha de vários movimentos ao redor do planeta. Vários movimentos sociais, como também influenciadores, artistas e atletas se manifestaram de diversas maneiras sobre a importância do respeito e da necessidade de inclusão.

O movimento de combate ao preconceito racial ganhou força depois do assassinato do negro #GeorgeFloyd, e a mobilização que começou nos Estados Unidos e tomou conta do mundo também repercutiu no esporte. Patrocinadores, coletivos internacionais e atletas se posicionaram de maneira rara, combatendo preconceito e cobrando mudanças.

A Nascar baniu a bandeira confederada (símbolo do período da escravidão nos Estados Unidos) das corridas. Na NBA, depois que jogadores se recusaram a jogar, a Liga assumiu uma postura institucional de combate ao racismo.

No futebol, atletas se mobilizaram e a FIFA fez rever punição a quem s se posiciona pela igualdade racial. No movimento olímpico, a pressão de atletas, movimentos sociais e patrocinadores está obrigando o COI a discutir a regra 50, que proíbe todo tipo de manifestação em evento esportivo.

Exemplos de agora.

E eles mostram a força que os atletas têm, e desconhecem ter. Eles fazem parte da cadeia associativa do esporte. E, por isso, precisam ter voz nas discussões, inclusive sobre regras.

O esporte sempre foi um catalisador de transformações sociais pelo mundo. Ele ajudou na luta contra o racismo, contra a discriminação aos mais pobres, até na abertura democrática brasileira durante os anos da ditadura.

No mundo, muitos são os exemplos de atletas que entenderam que sua força vai muito além de uma pista ou quadra ou campo, e que eles podem ser agentes importantes na construção de uma sociedade melhor, menos excludente e mais humana.

No Brasil, uma decisão do STF trouxe consequências para o esporte

Com a decisão do STF de usar a Lei do Racismo para punir crimes contra a homofobia, a Justiça Desportiva irá mudar, punindo também atitudes homofóbicas no esporte nacional. O ex-presidente do STJD, Paulo Cesar Salomão Filho, em bela palestra da Brasil Futebol Expo, se manifestou dizendo que o futebol tem que "evoluir com a sociedade e não pode permitir a segregação e o preconceito".

Essa postura, com a decisão do Supremo e o novo Código Disciplinar da Fifa, dão caminhos legais para a Justiça Desportiva punir o absurdo por aqui. Pelo mundo, também existem caminhos.

Mas é sempre necessário entender que mais importante do que punir é conscientizar. E os personagens do esporte têm papel fundamental nesse momento.

O silêncio compactua com o absurdo. O exemplo dos jogadores de antes do San Diego Loyal e o de agora dos jogadores do PSG e de Istambul são gritos contra o absurdo. E, dessa vez, o mundo está escutando.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL