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Pandemia faz clubes europeus buscarem novos modelos para comprar jogadores

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

07/10/2020 04h03

Por Thiago Braga

O grande destaque da recém-fechada janela de transferências do futebol europeu foi o Real Madrid. O clube espanhol, presidido por Florentino Pérez, é notadamente reconhecido como dos que mais gastam na hora de adquirir jogadores. Mas nesta última janela os "merengues" não gastaram um centavo. Reflexo da pandemia causada pelo novo coronavírus. E que gera a expectativa para a janela do próximo verão europeu. Kylian Mbappé e Erling Braut Haaland serão jogadores do Real Madrid?

Como consequência, clubes tradicionais recorreram a novas artimanhas na hora de reforçar seus elencos. Uma negociação que deixou claro a mudança de estratégia foi a ida do atacante Chiesa para a Juventus. A maior campeã italiana acertou empréstimo por dois anos com a Fiorentina. Ao final deste período, a Juventus tem de comprar o jogador

Na operação, ficou acertado que a Juventus vai desembolsar 3 milhões de euros no primeiro ano; 7 milhões de euros no segundo ano e 40 milhões de euros ao final do empréstimo obrigatoriamente, a depender de Chiesa atingir alguns objetivos como: Juventus participar da Liga dos Campeões nas duas temporadas; jogar 60% das partidas ao menos 10 minutos ou fazer 10 gols e dar 10 assistências por temporada.

"Os clubes possuem profissionais que pensam em como se adaptar às estruturas de controles. Assim como as empresas possuem tributaristas que tentam o tempo todo ser mais eficiente pagando menos impostos", pontua o economista César Grafietti, do ItaúBBA.

Grafietti acredita que o modelo beneficia tanto o clube grande quanto o pequeno. O clube vendedor se beneficia garantindo a venda de um jogador por um valor mais justo, mesmo em tempos de pandemia.

Já os clubes compradores podem negociar com mais atletas usando este modelo. "Os custos salariais são afetados imediatamente no ano da contratação. O clube pode contratar até 100 milhões de euros líquidos de vendas. Então, ao receber por empréstimo o impacto é reduzido. No caso, apenas 3 milhões de euros no primeiro ano. Além disso, tem a questão do endividamento. Se tivesse comprado o Chiesa, teria aumentado o valor das dívidas pelo valor a pagar, assim como o ativo. Mas sem a dívida, a conta fica mais leve", argumentou Grafietti.

Outros gigantes europeus também recorreram ao empréstimo com opção de compra para aumentar a qualidade do plantel.

Um dos clubes mais saudáveis financeiramente do mundo, o Bayern de Munique-ALE, apesar de gastar para repatriar Leroy Sané, fechou com o "free agent" Choupo-Moting, ex-PSG, e trouxe Douglas Costa, da Juventus, por empréstimo. Também na Alemanha, o Hoffenheim garantiu o empréstimo de Ryan Sessegnon, do Tottenham. Justin Kluivert foi emprestado da Roma-ITA ao RB Leipzig.

O questionamento fica sobre a possibilidade de clubes com grande poder financeiro serem ainda mais beneficiados, gerando um maior desequilíbrio entre os times nos torneios disputados.

"Sim, são legais. São ferramentas que foram se aperfeiçoando em paralelo ao Fair Play Financeiro. Um caso simbólico e que ilustra bem essa engenharia financeira foi a contratação do Mbappé pelo PSG. Não vou entrar no mérito da justiça, mas sim das regras, e elas validam o negócio. Isso é recorrente em diversas indústrias, quem tem maior poder financeiro acaba apertando seus fornecedores, esticando os prazos de pagamentos. Isso pode complicar o ciclo financeiro de um clube menor, mas ele eventualmente pode estar na ingrata posição de não poder recusar uma venda assim", afirma o gestor esportivo João Ricardo Pisani.

A ECA [Associação Europeia de Clubes] estimou o prejuízo geral em 4 bilhões de euros. Nem mesmo a Premier League, liga mais rica do mundo, escapou da recessão criada pela Covid-19. O número caiu de 1,5 bilhão de euros em 2019 para 1,3 bilhão de euros em 2020. Clube que mais gastou dinheiro nesta janela, o Chelsea, que desembolsou 247 milhões de euros (80 milhões apenas para tirar o meia Kai Havertz do Bayer Leverkusen-ALE), foi beneficiado por ter sido punido com a proibição de contratar por duas janelas e despejou todo o dinheiro represado para reformular o time.

A crise de caixa causada pela pandemia forçou a Uefa a reembolsar 575 milhões de euros às emissoras de TV por causa da interrupção na Liga dos Campeões e na Liga Europa.

Mas nem todo mundo registrou apenas prejuízo com o encolhimento dos negócios nesta janela de transferências. O super-agente Jorge Mendes está entre eles. Operando habilmente em um mercado instável, Mendes trabalhou com clubes em dificuldades financeiras procurando equilibrar suas contas.

Entre os negócios capitaneados por Mendes e sua agência, a Gestifute, estão a ida do zagueiro Rúben Dias, do Benfica-POR ao Manchester City-ING; o Benfica recebeu em troca, além de dinheiro, outro cliente de Mendes, o zagueiro Otamendi.

Ele também foi o responsável por tirar James Rodríguez do Real Madrid e levar o colombiano para o Everton-ING, onde James aparenta ter recuperado o futebol que lhe rendeu um Prêmio Puskas de melhor gol de 2014, anotado nas quartas de final da Copa do Mundo no Brasil, no Maracanã, contra o Uruguai. Alé disso, ele conseguiu que o Wolverhampton-ING vendesse o zagueiro irlandês Matt Doherty para o Tottenham-ING e o atacante português Diogo Jota para o Liverpool-ING.

"Para projetar uma volta ao normal nos valores de transferências, o ideal é começar pelos contratos de direitos de transmissão. Quem já não foi afetado porque foi pego com seus processos de renovação no meio da pandemia, acabou impactado pelo atraso dos jogos. E para completar, soma-se a isso a falta da receita dos dias de jogos", finaliza o gestor esportivo João Ricardo Pisani.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL