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José Trajano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil precisa deixar em paz o coração de Dom Pedro 1º

O coração de Dom Pedro 1º em take do documentário "O Sentido da Vida", a ser lançado em 2023 - Reprodução
O coração de Dom Pedro 1º em take do documentário "O Sentido da Vida", a ser lançado em 2023 Imagem: Reprodução
José Trajano

José Trajano, carioca de 75 anos, é jornalista desde os 16. Trabalhou em jornais, revistas e emissoras de tevê. Fundador da ESPN Brasil, cobriu 5 Copas, 4 Olimpíadas e 7 finais de Champions League. Escreveu 4 romances. Tem 4 filhos e 5 netos. Torcedor fanático do América.

Colunista do UOL

27/05/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta-feira (26/5) da newsletter de José Trajano. Na newsletter completa, apenas para assinantes, o colunista trata da polêmica do pedido de empréstimo do coração de Dom Pedro 1º pelo Brasil, e da exposição no Museu de História Natural de Lisboa que mostra o futebol como palco de resistência contra a ditadura salazarista. Para receber o boletim, clique aqui.

"O coração tem razões que a própria razão desconhece". A frase de "Aos pés da Cruz", composição de Marino Pinto e Zé da Zilda, enorme sucesso na voz do grande Orlando Silva na década de 1940 e depois mais conhecida ainda com a gravação em 1959 do genial João Gilberto, foi retirada de uma reflexão do filósofo, inventor e matemático francês Blaise Pascal, do século XVII, e é usada a todo instante em várias circunstâncias.

Dois séculos a mais, em 1834, na cidade do Porto, Dom Pedro 1º — Dom Pedro 4º para os portugueses —, no seu leito de morte, desejou que seu coração fosse separado do corpo e guardado na cidade que o tem como herói pelas batalhas que travou contra seu irmão Dom Miguel durante 13 meses. Uma vontade fúnebre deixada em testamento, e que manifestava o desejo que o restante de seu corpo fosse levado ao Brasil, onde foi Imperador de 1822 a 1831, quando abdicou.

Os ossos foram para o Brasil em 1972 e colocados na cripta do Monumento à Independência, no bairro do Ipiranga, por ocasião dos festejos dos 150 anos. O coração, lacrado em recipiente de vidro transparente e embebido de formol, é guardado a cinco chaves — a primeira abre uma placa de metal; a segunda e a terceira movimentam uma rede; a quarta mexe uma urna; e a quinta desloca uma caixa de madeira. Está desde 1885 na Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e é considerada por alguns historiadores como o "maior tesouro da cidade do Porto".

A propósito da comemoração dos 200 anos da Independência, o governo brasileiro pediu (vejam só!) emprestado o coração de Dom Pedro 1º. E criou um enorme embaraço, um grande constrangimento entre os dois países.

O presidente da Câmara Municipal do Porto vê com preocupação o translado porque o coração talvez não resistisse à viagem, mas não se manifestou oficialmente, e fica empurrando com a barriga uma decisão.

Enquanto isso, gente como o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, a última pessoa a filmar o coração de Dom Pedro 1º, durante gravação em 2015 do documentário "O Sentido da Vida", que será exibido no próximo ano, é totalmente contrária, dizendo que entende o simbolismo, mas não confia em um governo que deixou incendiar o Museu Nacional e a Cinemateca e que não cuida de seus bens mais preciosos, conforme contou recentemente a Adriana Negreiros para o TAB.

Estou com Miguel Gonçalves Mendes e também com Laís Bodansky, que filmou "A viagem de Pedro" com Cauã Reymond no papel do Imperador do Brasil, e é totalmente contra. Ela classifica como farsa o empréstimo: "o coração está no Porto por um pedido do próprio, trata-se de uma situação contrária à de 1972 quando os ossos foram para o Brasil para atender ao pedido dele".

Deixem em paz o coração do "Libertador", do "Rei Soldado"! E ir agora para o Brasil de Bolsonaro pode deixá-lo um pote assim de mágoa, né, Chico?

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