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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

15/11/2021 08h45

Um dia vou contar para os meus netos que um piloto ultrapassou 14 concorrentes no sábado e mais 9 no domingo. Vou dizer que, em duas corridas, o cara saiu de último para primeiro. Vou falar que, no mesmo fim de semana, correndo no Brasil, ele igualou todas as vitórias brasileiras na F-1: Emerson, Piquet, Senna... Eles não vão acreditar;

(Sim, foram 14 no sábado, não 15. Ele não ultrapassou Raikkonen, que se enroscou com Giovinazzi e caiu para último na segunda volta. Isso não diminui um milímetro do feito do inglês, mas é importante pelo registro histórico)

O momento mais tocante após o show de Hamilton em Interlagos não foi mostrado pela TV, ficou restrito ao circuito interno da sala de imprensa: a entrevista coletiva. Foi quando a adrenalina começou a baixar, a ficha começou a cair. Ele estava emocionadíssimo, voz embargada, segurando-se para não cair no choro. "Foi um fim de semana muito difícil para a equipe e acho que fui inspirado pelo foco e pela determinação de todos. Ninguém desistiu... É fácil ficar pra baixo quando surgem obstáculos como irregularidades e penalidades. Mas todos se mantiveram otimistas, todos trabalharam muito bem. Os mecânicos fizeram um trabalho excelente, e nossa estratégia foi muito consistente. Eu imaginava sair de último e... Não, eu sabia que seria possível, mas dei tudo o que eu tinha. Foi definitivamente um dos melhores fins de semana, se não o melhor, que vivi na carreira";

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Lewis Hamilton segura o choro na entrevista coletiva após a vitória no GP de São Paulo
Imagem: Fabio Seixas/UOL

Hamilton, claro, não tem ideia do simbolismo de tremular a bandeira brasileira no momento de tensão que o Brasil vive. Que bom. Porque seu gesto foi inocente, não teve nenhuma conotação política, foi um resgate à imagem de seu ídolo. Depois de muito tempo, voltamos a vibrar com aquela bandeira sem pensar em Brasília, sem falar de esquerda ou de direita. Deixamos tudo isso de lado e fomos, por alguns momentos, também um pouco inocentes. Mal percebemos e estávamos emocionados. Devemos essa ao inglês;

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Lewis Hamilton e Max Verstappen durante a premiação do Grande Prêmio de São Paulo
Imagem: REUTERS

E Verstappen? Foi educado, foi polido, quase chegou a reverenciar o rival. Disse que se divertiu na disputa, que o ritmo da Mercedes era muito forte e que fez uma corrida para minimizar o prejuízo. "Éramos mais lentos. E eles estavam muito rápidos nas retas. Mas foi divertido. É claro que gosto de vencer, mas estou satisfeito com o segundo lugar hoje, com as estratégias de defesa que adotamos. Ainda estamos na frente no campeonato. Há fins de semana que são nossos, há outros que são deles. Acho que vai ser assim até o fim";

Havia também alguma preocupação no seu discurso, sentimento que foi escancarado por Marko no paddock, após a corrida. "De alguma forma, eles estão com um foguete nas mãos nesta altura do campeonato. Já chamamos a Honda para conversar e ver o que podemos fazer. Se continuar assim, nossas chances de título já passam a não parecer tão boas";

Verstappen exagerou na defesa de posição na 48ª volta? Ele foi duro, foi ao limite do respeito. Mas não foi sujo. Que bom que os comissários, entre eles Roberto Moreno, entenderam da mesma forma. Se o holandês tivesse sido punido ali, ficaríamos privados da ultrapassagem do ano, 11 voltas depois;

A Ferrari voltou a colocar seus dois pilotos nos pontos _Leclerc em quinto, seguido por Sainz_, enquanto a McLaren só pontou com Norris, em décimo. Com isso, os italianos abrem 31,5 pontos de vantagem na disputa pelo terceiro lugar no Mundial de Construtores. Acho que essa vaca inglesa já foi pro brejo;

A corrida de ontem ainda estava nas primeiras voltas e já havia mecânicos desmontando boxes. Duas horas depois da bandeirada, boa parte dos equipamentos já estava encaixotada. Ao fim das entrevistas protocolares, pilotos saíram correndo para os helicópteros. Tanta pressa tinha razão de ser: em dois ou três dias tudo precisa estar montado de novo... no Qatar. A F-1, com seu calendário cada vez mais inchado, se tornou uma máquina de moer gente. Conversei com funcionários de equipes e colegas estrangeiros em Interlagos e todos estão esgotados;

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Mecânicos das equipes de F-1 desmontam os boxes de Interlagos após o GP de São Paulo
Imagem: Fabio Seixas/UOL

Segundo a organização do GP, 181.711 pessoas estiveram no autódromo no domingo. Seria o recorde de público da história do evento. Acho estranho esse número. Sim, estava lindo e cheio, mas já vi Interlagos com mais gente. Não preciso nem voltar aos anos 90, basta lembrar das primeiras vezes de Barrichello na Ferrari;

Sobre ingressos, aliás, um aviso importante. Já está aberta a lista de espera do primeiro lote de ingressos para 2022. A venda começará oficialmente já no dia 9 de dezembro, para os setores A, B, M, R, Q e G. O primeiro passo é se cadastrar no site oficial do evento, neste link aqui

Falando ainda da organização: impecável. Nenhum reparo a fazer. Tudo funcionou de maneira perfeita. A estrutura de Interlagos hoje não deve nada a nenhum autódromo do planeta. Dá orgulho;

Há dois zunzunzuns que podem virar notícia nos próximos dias. A primeira é esperada para amanhã, o anúncio do chinês Zhou na vaga de Giovinazzi na Alfa Romeo. A segunda é mais grandiosa: a Audi teria comprado o Grupo McLaren, e esta seria a porta de entrada da Volkswagen na F-1. A ver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL