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Fábio Seixas

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Há 60 anos, uma das vitórias mais heroicas da F-1

Stirling Moss, no GP de Mônaco de 1961, correndo com uma Lotus sem os painéis laterais  - Reprodução
Stirling Moss, no GP de Mônaco de 1961, correndo com uma Lotus sem os painéis laterais Imagem: Reprodução
Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

Uma das mais heroicas vitórias da história da F-1 completa 60 anos nesta sexta-feira.

Um episódio que gerou uma imagem icônica e que, observado com os olhos de hoje, pode até parecer um chocante espetáculo de irresponsabilidade. Prefiro outra abordagem: é uma crônica de outros tempos, de uma era romântica do automobilismo, e que no fim das contas só escancara como a segurança da categoria evoluiu década após década.

Imagine isso hoje: um piloto, insatisfeito com o desempenho na pista e preocupado com o calor, decide arrancar as laterais do carro e disputar todo um GP com as pernas expostas. Não é só isso: o cenário era Mônaco, onde uma das maneiras de identificar os carros mais rápidos era observar o quanto carregavam de tinta branca dos muros após cada treino.

Aconteceu em 14 de maio de 1961, abertura do 12º Campeonato Mundial da F-1. Era a estreia de um novo regulamento, com a capacidade dos motores reduzida de 2,5 litros para 1,5 litro numa tentativa de diminuir a velocidade dos carros, cortar custos e atrair novos fabricantes.

A Ferrari chegou ao principado com o carro mais veloz do grid: o modelo 156 "nariz de tubarão", um dos mais belos da história. Eram três os pilotos da escuderia naquela prova: os americanos Phil Hill e Richie Ginther e o alemão Wolfgang Von Trips.

Na classificação, porém, deu zebra. Pole position para Stirling Moss. Resultado surpreendente não pela sua competência - o inglês tinha sido quatro vezes vice-campeão na década anterior -, mas pelo carro que ele tinha em mãos.

Naquela época, eram comuns as equipes privadas, que compravam componentes das fabricantes, se jogavam na disputa do Mundial ou disputavam apenas algumas corridas.

Pois bem, Moss tinha em mãos um carro da Lotus empurrado com motor Climax de 4 cilindros da equipe Rob Walker. Estima-se que era 40 hp menos potente que os motores V6 da Ferrari, que chegavam aos 200 hp.

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Stirling Moss pilota a Lotus 18 no Festival de Goodwood de 2009, na Inglaterra
Imagem: Reprodução

Como melhorar o desempenho? Ou, pelo menos, como tornar menos sacrificante a tarefa de pilotar por quase três horas, num circuito de rua, sob forte calor? Foi aí que Moss teve a ideia que entrou pra história. Arrancou os painéis laterais do carro. Criou, digamos, um inusitado sistema de refrigeração. E, de quebra, deixou sua Lotus mais leve.

Todo mundo estranhou, mas ninguém entrou com protesto. Repito: eram outros tempos.

Na largada, Moss caiu para terceiro. Ginther, segundo no grid, assumiu a ponta. Jim Clark, com uma Lotus da equipe de fábrica, colocou-se entre eles, mas logo enfrentou problemas e perdeu posições.

Na 14ª volta, Moss ultrapassou a Ferrari e reassumiu a liderança. Mas o dia estava longe de ser tranquilo. Porque o que se seguiu foi uma perseguição de cinema: uma Lotus que mais parecia uma lata de sardinhas entreaberta seguida por três Ferrari reluzentes, lindas e mais potentes.

Na 75ª das 100 voltas, vejam só, a Ferrari deu uma ordem de equipe! Taí algo que não mudou. Ginther, que havia caído para terceiro, ultrapassou Hill sem dificuldades e se lançou no ataque final contra o inglês.

A cada volta voadora do americano, Moss respondia com uma ainda melhor. E foi assim até a bandeira quadriculada, que tremulou após 2h45 de corrida. Foi a primeira vitória de uma Lotus, marca que se tornaria uma das mais importantes da F-1.

"Liderar uma corrida em Mônaco é tão difícil como lutar por posições. A concentração precisa ser absoluta. É por isso que considero aquela minha melhor corrida na F-1", dizia Moss. "A cada volta eu me empenhava em consertar um erro da volta anterior. E só assim eu consegui chegar ao fim."

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Miniatura da Lotus de Moss no GP de Mônaco de 1961
Imagem: Reprodução

Aquela cena, de um piloto com as pernas expostas vencendo em Mônaco, entrou para a galeria de grandes imagens da F-1. E foi imortalizada: hoje é possível comprar camisetas, quadros e miniaturas que homenageiam Moss.

Em 2009, o feito do inglês foi relembrado no Festival de Goodwood, encontro anual de pilotos e carros históricos de competição, na Inglaterra. Todos os detalhes foram observados: ele pilotou aquele mesmo carro azul-escuro, sem os painéis laterais.

Há cinco anos, o mesmo carro disputou o GP Histórico de Mônaco, novamente sem os painéis. Moss novamente estava presente e foi homenageado.

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Stirling Moss com a Lotus 18 que pilotou em 1961 durante homenagem em Mônaco, em 2016
Imagem: Reprodução

Provavelmente foi a última vez que ele encontrou aquela máquina fantástica. O inglês morreu em abril do ano passado, aos 90 anos. Sem nunca esquecer daquele 14 de maio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL