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Diogo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diogo: Vitória sem glória - qual o limite dos desafios promocionais de boxe

Cartas de divulgação da luta entre Evander Holyfield e Vitor Belfort - Reprodução
Cartas de divulgação da luta entre Evander Holyfield e Vitor Belfort Imagem: Reprodução
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Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

16/09/2021 04h00

O desafio entre Vitor Belfort, 44, e Evander Holyfield, 58, foi, entre as lutas promocionais de boxe do ano, a mais desnecessária, para não dizer covarde.

Desde o início, essa luta não era para acontecer. O desafio apareceu com apenas uma semana de antecedência depois que o oponente original de Belfort, Oscar De La Hoya, foi hospitalizado com covid-19. A luta estava originalmente programada para acontecer em Los Angeles, mas a Comissão Atlética do Estado da Califórnia (CSAC) não aprovou Belfort x Holyfield, então, todo o evento foi transferido para a Flórida.

Holyfield, o grande campeão do meio pesado e pesado, não lutava há 10 anos. Um senhor aposentado, pai de 11 filhos com seis mulheres diferentes, demonstrou muita fragilidade e lentidão acertando somente um soco durante 1min59 de luta até a sua queda.

Por mais que os valores para subir no ringue nesses desafios possam ser tentadores, se o mundo das lutas não tiver ética, será a ruína deste esporte.

A não preservação da saúde e imagem de Holyfield demonstra como os eventos promocionais de boxe se não tiverem limite logo mais veremos desafios mais bizarros do que esse.

Após o confronto, houve uma enxurrada de críticas de lutadores, treinadores, pugilistas e médicos. Até o youtuber Jake Paul, que Belfort, após a vitória, chamou para um desafio de R$ 160 milhões, criticou a postura de Belfort em aceitar a luta contra Holyfield.

Em entrevista para o programa The MMA Hour, Jake simplesmente diz que é vergonhoso o que Belfort vem fazendo desde 2017, tentando uma luta contra ele.

Se fosse a trilogia entre Tayson e Holyfield com diferença de idade de 5 anos seria um desafio desnecessário, porém, mais saudável.

Agora, Belfort é 14 anos mais jovem e se mantinha em atividade.

Depois de vitórias e derrotas consecutivas no MMA, Belfort teve seu contrato encerrado com UFC de forma melancólica. Em 2018, Belfort assina com o torneio One Championship onde enfrentaria o peso-pesado camaronês Alain Ngalani, a luta, porém, nunca aconteceu. Essa, sim, seria uma luta justa para o brasileiro.

Outro ponto é a saúde mental e física de lutadores veteranos.

A concussão —lesão no cérebro provocada pelo agravamento de traumas na cabeça—, além de deixar sequelas irreparáveis como, por exemplo, demência, pode destruir o pós carreira de um atleta.

O ex-lutador de MMA Wanderlei Silva, por exemplo, declarou em entrevista ao resenha PVT que dos 10 sinais de demência pugilística, ele tem oito. Sendo eles: alteração de humor, esquecimento de algumas coisas, dificuldade de sono entre outros.

Quais as consequências de tais traumas repetidos na cabeça? Com o constante número de concussões em atletas, estudos indicam que o esporte favorece o aparecimento de uma síndrome neurodegenerativa chamada de Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), a clássica síndrome dos boxeadores.

Por mais que o porte físico de um senhor de 60 anos possa ser impecável, por dentro, todas as lesões da vida esportiva provocam impedimentos que podem se agravar e impedir até uma simples caminhada no futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL