PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Campo Livre


Campo Livre

Finais da NBA - Vitória do coletivo

Jimmy Butler e LeBron James em ação durante jogo da temporada 2020 da NBA - Michael Reaves/Getty Images
Jimmy Butler e LeBron James em ação durante jogo da temporada 2020 da NBA Imagem: Michael Reaves/Getty Images
Gustavinho Lima e Pedro Bombonatti

Gustavinho Lima e Pedro Bombonatti

Gustavinho Lima é ex jogador, atual supervisor do Corinthians Basquete e apresentador do Diquinta Podcast. Pedro Bombonatti é sócio da O.C Branding.

30/09/2020 04h00

As finais do melhor basquete do mundo começam hoje. Los Angeles Lakers e Miami Heat são os dois únicos times que ainda estão hospedados em hotéis na Disney, em Orlando, onde foi montada a bolha da NBA. Muito longe do clima de férias que as instalações sugerem, as equipes só conseguem pensar em trabalho e na série melhor de sete jogos que começa nesta quarta-feira (30).

Case de sucesso absoluto desde os protocolos de segurança como alternativa ao Covid-19 (nenhum atleta ou funcionário infectado nos mais de 3 meses de confinamento) e fazendo questão de ser uma plataforma que impulsiona posicionamentos sobre questões de injustiça social, fortalecimento do Black Lives Matter (declarações em entrevistas, frases de protesto nas camisetas dos atletas, no piso da quadra e também nos telões) e importância do voto nas eleições que se aproximam, a temporada 2019-2020 terá um embate histórico (e, para muitos inesperado) neste playoff final.

LeBron James - Kim Klement-USA TODAY Sports - Kim Klement-USA TODAY Sports
LeBron James
Imagem: Kim Klement-USA TODAY Sports

LeBron "the King" James lidera os Los Angeles Lakers, primeiro colocado na Conferencia Oeste. Ele chega a sua décima final (nona nos últimos dez anos). Pela frente, os underdogs do Miami Heat, que se classificaram em quinto lugar do Leste e não jogavam uma final desde 2014, justamente quando tinham James como a principal estrela da franquia. Naquele ano, LeBron, que na opinião de muitos já era o melhor jogador de basquete do planeta, formava um Big Three de respeito com o superstar Dwane Wade e com um dos pivôs mais bem pagos da liga, Chris Bosh. Eles chegavam à sua quarta final consecutiva em busca do tricampeonato, mas esbarraram no muitíssimo bem orquestrado San Antonio Spurs, que, no jogo coletivo do técnico Greg Popovich, pôs fim à dinastia de Miami e venceu a série por 4 a 1. Ao final desta temporada, Bron deixou Miami sob (mais uma) chuva de críticas e haters. Para ele, estava na hora de voltar a Cleveland —e todos sabemos o que aconteceu.

Com exceção a 2018/19, em que LeBron se machucou, o craque jogou (e muito) todas as finais desde 2010/11. É mais ou menos assim: se o Papai Lebron tá no seu time, então já pode se planejar para torcer até último jogo do campeonato. As últimas finais do Lakers foram exatamente um ano antes de LeBron começar a sua sequência. Eles não sabiam o que é uma final desde 2009/10, quando o eterno Kobe Bryant abocanhou o troféu da NBA e de MVP das Finais. Sem dúvida, a possibilidade de ser campeão novamente no ano da morte do Black Mamba é um estímulo para o camisa 23 e para toda a equipe da Califórnia.

O Miami, após a saída do Rei, entrou em processo de reformulação encabeçado pelo experiente presidente da organização, Pat Rilley, conhecido como "the Godfather". O apelido não é a toa: Riley foi um técnico de altíssimo nível e tem um dos currículos mais vitoriosos da história da NBA. Possui nove anéis, um como jogador, um como assistente, cinco como técnico e dois como gerente geral. Sempre visto como ótimo na gestão de grupo em todas as esferas, soube tomar conta da família de Miami. Resistiu à cultura do "resultadismo" e, mesmo sobre fortes críticas, manteve o treinador Erik Spoesltra, que está à frente do cargo desde 2008, coisa cada vez mais rara no esporte de alto rendimento.

Spoelstra venceu seu primeiro anel como assistente de Pat Rilley com o Heat em 2006 e assumiu como treinador principal em 2008. Super estudioso, tem como marca registrada o trabalho em equipe. Mesmo com quatro finais e dois anéis em 2012 e 2013, sempre sofreu com desconfianças. Para muitos críticos, sua atuação era secundária nas conquistas de Miami. Felizmente, o tempo mostrou que não era bem assim. O Godfather sabia disso, confiou no trabalho e bancou o coach, que soube manter o mesmo foco e linha de conduta e foi coroado com o título da Conferência Leste dessa temporada. Grupo com a cara da organização, em que todos sabem o seu papel dentro de quadra.

Jimmy Butler - Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images - Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images
Jimmy Butler
Imagem: Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images

Erik e Pat construíram um time sólido que não é dependente de sua grande estrela, Jimmy Buttler. Jimmy, por sua vez, sabe dividir o protagonismo, sem deixar de ser decisivo nos momentos chave. Sob a alcunha de Jimmy "Buckets" e famoso por seu trash talk (provocação), disse com convicção em entrevista à Rachel Nichols, da ESPN, no inicio dos Playoffs da Bolha, que, mesmo não sendo favoritos, podiam ganhar tudo e de qualquer um, usando seu já famoso "I think that we can win this thing".

Escolheram um armador esloveno, Goran Dragic, dono de um QI de basquete impressionante e que comanda tudo dentro das quatro linhas. Deram moral pra dois jovens chutadores que tem jogado com personalidade de gente grande. Um deles é o rookie (novato) de 20 anos, recém-saído da universidade de Kentucky, Tyler Herro, que, com perdão do trocadilho, tem sido o herói do Miami, sendo um dos principais playmakers e matando bolas muito quentes na hora H. O outro é Duncan Robinson, que quase parou de jogar, foi garimpado aos 26 anos na terceira divisão do basquete americano e é um brilhante arremessador que tem sido mortal na linha de três pontos. Sem contar Kendrick Nunn, que, devido a sua atuação durante a temporada regular, foi escolhido para o primeiro time de novatos da NBA.

Souberam observar o mercado e trazer doses de experiência, intensidade e liderança de Jae Crowder e Andre Iguodala (que disputa sua sexta final consecutiva, cinco delas com os Warriors), deixando o elenco ainda mais profundo e cascudo.

Por falar em casca, precisamos falar de Bam Adebayo. A sensação da Bolha já era a grande surpresa na temporada regular (seria o meu voto para jogador que mais evoluiu). Bam Bam é uma realidade de 23 anos que vem sendo o jogador de maior impacto dos playoffs e o coração da equipe. Muito atlético e ativo, tem sido fundamental dos dois lados da quadra. É o motor da defesa, escolhido com méritos para o quinteto ideal de defesa da NBA. Bam arrancou elogios do mundo todo, em especial de Magic Jhonson, após aquele toco histórico em Jaysun Tatum. Para Magic, "a maior jogada defensiva que ele já viu em um jogo de playoffs". Acho que não é exagero dizer que aquele toco definiu o rumo da série. Mas Bam é mais do que apenas um grande defensor. Extremamente versátil no ataque, ele corre bem a quadra, possui ótima leitura nos "pic&rolls" (jogada de dupla), tem passe, machuca o aro adversário com dunks e seu vasto repertório de movimentos. É o tipo de jogador "pau pra toda obra". Joga o fino da bola e também faz o "trabalho sujo".

A equipe de Miami, com a assinatura de Spoelstra, assimilou a risca o plano tático. É muito constante e uma delícia de se ver jogar. Não deram chance para Indiana, passaram por cima do Milwaukee Bucks, o time do MVP grego Giannis Antetokoupo, e desbancaram o poderoso Boston Celtics. Agora, são uma vez mais os underdogs contra o Lakers, que além de LB, tem Anthony Davis, que figura seguramente entre os top cinco jogadores do mundo.

Se Miami se sente bem na condição de underdog, os Lakers não se incomodam com a pressão do favoritismo. Parecem seguir à risca a frase de Doc Rivers na série The Playbook: "Pressão é um privilégio". Já mandaram pra casa o então embalado Portland, do clutch (decisivo) Damian Lillard, o Houston, do barba James Harden, cestinha da liga, e o Denver da dupla mais espetacular da Bolha, formada pelo pivô/armador Nikola Jokic e pelo moleque abusado Jamal Murray, todos por 4 a 1.

Esse embate traz questionamentos extremamente valiosos para a cultura do esporte coletivo. Muito tem sido dito sobre essa final ser o duelo de duas estrelas versus um trabalho em equipe. Discordo radicalmente desse ponto de vista.

Pra mim, LeBron é o melhor jogador de basquete do planeta há pelo menos dez anos. Porém, uma de suas principais virtudes é a capacidade de agregar novos atributos ano após ano. Nesta última temporada, exerceu a função de armador e foi o líder de assistências da liga com média de 10,1 assists por jogo —além de 25,3 pontos e 7,8 rebotes. Quase um triple-double por jogo. Pra mim, merecia ser o MVP desta temporada, mas esse não é o ponto. O ponto é que, como se diz na linguagem da bola laranja, Lebron "faz o time jogar". Fomentou o craque Anthony Davis, com 28,8 pontos de média e também soube envolver o restante do elenco, formando duplas interessantes e improváveis, como a com Alex Caruso.

Frank Vogel, o técnico do Lakers, sofre as mesmas críticas que Spoesltra sofreu em 2014. Dizem que tem pouca interferência no bom andamento da equipe. O que considero uma tremenda de uma bobagem. LA tem dois dos melhores do mundo e Frank Vogel tem conseguido fazer os jogadores terem consciência para explorar o potencial da dupla e seguirem motivados com suas funções. O elenco de apoio roxo e dourado tem muita experiência e pode ser o diferencial nessa série. O "garçom" Rondo tem o DNA de competidor e já está em "modo playoff". Uma curiosidade relevante sobre ele: Rondo pode ser o primeiro jogador da história a vencer um campeonato por Boston Celtics e outro por Los Angeles Lakers.

Danny Green está habituado ao clima de final e certamente deixará suas pêras. Dwight Howard finalmente entendeu que não é mais o Super-Homem e tem sido muito bem utilizado por Vogel quando a situação do jogo pede a presença do intimidador, "ring protector" (protetor do aro) e pegador de rebotes ofensivos. Carushow e Markieff Morris agregam boas coisas em ambas tabelas. Outro elenco com profundidade e casca.

Dois times muito diferentes, mas que tem em comum um ótimo TEAM WORK. O equilíbrio promete ser a tônica durante toda a série entre esses dois timaços. Acredito em um ligeiro favoritismo pra LA, muito devido ao poder de liderança e decisão do LeBron.

O basquetebol passou por transformações substanciais nos últimos anos, em termos de velocidade, regras, ritmo de jogo e chutes cada vez mais de longe, mas acredito que, em 2020, o que chamou mais atenção em todas séries em Orlando foi o dedo do técnico em cada estratégia de jogo. A individualidade pode ser ainda o diferencial, como nos acostumamos a ver durante anos com Jordan, Kobe, Curry ou Kevin Durant, mas é lindo ver os treinadores, que passam horas preparando a equipe, assistindo e editando vídeos, estudando, ouvindo críticas e muitas reclamações, tendo finalmente seu trabalho valorizado.

Com tanta tragédia em 2020, a NBA tem sido a salvação e alívio do ano. Atletas unidos dentro de quadra, com olhar altruísta, pensando no outro, pensando de forma colaborativa, fortalecendo o movimento negro, amplificando os protestos antirracistas, fazendo campanha de conscientização para o voto, sendo elogiosos com companheiros de time e dando o melhor dia após dia nesse confinamento.

Minha maior alegria é ver nesta NBA o símbolo dos valores do esporte sendo aplicados com tanta consciência. Em 2020, qualquer que seja o Campeão, a vitória vai ser do COLETIVO, dentro e fora das quadras.

Campo Livre