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Fogaça: Como analisar se seu time jogou "de igual para igual"?

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Gustavo Fogaça

Gustavo Fogaça

Conhecido como Guffo, é comentarista da DAZN Brasil, analista de desempenho e cineasta

26/12/2019 15h32

O grande debate desse dezembro nas redes sociais foi se o Flamengo jogou "de igual para igual" com o Liverpool na final do Mundial de Clubes. O assunto também invadiu as pautas dos programas esportivos de rádio e televisão, com colegas jornalistas se digladiando sobre o tema. Afinal, como se analisa se um time jogou de igual para igual com um adversário superior?

É claro que há algo mágico no futebol, que é a sensação que temos da emoção da partida. Nosso cérebro junta vários pontos de referência e gatilhos emocionais para nos dar uma conclusão sobre o jogo. Na maioria das vezes, esse "feeling" tende a não ser preciso com a realidade do que aconteceu em campo. E tudo bem com isso! Futebol também é pura emoção.

Mas se a gente quer entrar em uma área mais científica ou analítica sobre o esporte, precisamos nos cercar de ferramentas e conhecimentos que podem nos ajudar a sermos mais precisos em nosso diagnóstico.

E para entender melhor como um time performou, precisamos saber como ele vinha jogando em seu passado próximo. Não o histórico dos times em 20 anos de confrontos. E aí, as médias recentes dos fundamentos nos falam muito sobre aquela equipe. Não estou falando das médias pura e friamente; elas precisam ter um contexto.

Por exemplo, nessa minha análise aqui no UOL Esporte, eu trazia o comportamento do Flamengo e do River Plate contra times que tiveram mais posse que eles. Então, o uso da média de posse aqui tinha um propósito e um contexto. Se entende?

Com as médias que nos interessam em mãos, podemos comparar se naquela partida o time atuou abaixo ou acima do que ele vinha produzindo com adversários similares ou que tivessem médias parecidas ao atual adversário.

Muita gente disse que o Liverpool "tirou o pé" contra o Flamengo. Como podemos medir isso? Existe uma métrica que mede a intensidade defensiva. Você já me viu utilizando o PPDA (pass per defensive action) em várias análises aqui na coluna.

Pois bem; a média do Liverpool no Campeonato Inglês é 1.76 PPDA. Na Liga dos Campeões, 1.78. Contra o Monterrey na semifinal do Mundial, foi para 1.67. E contra o Flamengo, subiu para 2.5 PPDA.

Lembrando: quanto MAIOR o valor, MENOS intenso defensivamente foi o time. Então, os números não mentem: contra o Flamengo, o Liverpool foi BEM abaixo da sua média de intensidade defensiva. Tirou o pé sim.

Isso não tira o mérito do bom futebol apresentado pela equipe de Jorge Jesus contra os Reds. Mas não podemos brigar contra a verdade, e ela aponta um Liverpool bem menos intenso na defesa do que é na sua média.

Há muitos anos, em um papo informal com o professor Carlos Alberto Parreira, ele me ensinou algo valioso: o jogo está dividido em quatro dimensões. A anímica, a física, a tática e a técnica. Como o futebol é um esporte sistêmico, é IMPOSSÍVEL analisar um time ou uma partida sem visualizar o desempenho nessas dimensões.

Anímica: qual a postura do time com e sem a bola? Time errou muitos passes na pressão da torcida? Time levou muitos cartões amarelos ou fez mais faltas que a sua média? Como os jogadores reagiram nas entrevistas do jogo, antes e depois? Como time reagiu ao gol do adversário? A uma expulsão? São vários pontos de comportamento anímico a serem analisados.

Na parte física, fica mais complicado de analisar sem ter acesso aos números de corridas, distância, lactato e tantas outras métricas da fisiologia. Podemos ver o aproveitamento dos desarmes, por exemplo. Mas isso também é técnica. O PPDA pode entrar aqui também, mas é uma métrica tática. Enfim, é a dimensão mais complicada de medir sem números oficiais. Só dizer que "o time cansou" não serve.

A parte técnica é a que a maioria das pessoas enxerga mais facilmente. Se o time acertou mais passes que a média, se criou melhores chances, a qualidade dessas chances (expected goals), se o goleiro teve um desempenho acima da sua média (Diego Alves, por exemplo, fez mais defesas difíceis contra o Liverpool que na sua média). Nessa dimensão, temos acesso a várias métricas e índices que nos permitem avaliar o desempenho do time.

A parte tática tende a confundir bastante as pessoas, e os comportamentos coletivos são mais difíceis de identificar para quem não é analista ou profissional da área. E tudo bem com isso. Torcedor não precisa ser especialista! Mas pode-se ver se os movimentos se o time costuma fazer deram certo, se funcionaram as ultrapassagens, os tipos de marcação, a eficiência da construção coletiva... Coisas simples que quem observou um time previamente pode avaliar naquele jogo.

Já Pep Guardiola nos ensinou que o jogo tem três pilares a serem controlados: a bola, os espaços e o tempo. E quem conseguir dominar esses pilares estará mais próximo da vitória.

Controle da bola, controle e aproveitamento dos espaços no campo e, principalmente, dominar o tempo do jogo. Não permitir que o adversário imponha seu modelo e seu estilo quando ele quiser, e sim quando eu permitir. Esse grau de dominância é muito difícil de ser atingido, e talvez o Flamengo tenha conseguido em vários momentos dominar o tempo na final contra o Liverpool.

Sabendo que o Liverpool é um time que geralmente controla o Tempo dos adversários, o Flamengo ter feito isso - mesmo que por alguns minutos - nos permite dizer que sim, o time jogou "de igual para igual" nesse quesito.

Conheça as médias de desempenho das equipes. Entenda quais os padrões anímicos, físicos, técnicos e táticos daquele time. Perceba se ele conseguiu controlar a bola, os espaços e o tempo do jogo. Com o domínio sobre essas ferramentas, as pessoas podem dizer o que elas quiserem, mas você com certeza estará mais próximo da realidade ao fazer sua análise e cravar: meu time jogou de igual para igual com o seu.

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