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Fogaça: O número que mostra onde River Plate vira favorito contra Flamengo

Borré comemora gol do River Plate contra o Boca Juniors pela semi da Libertadores - Alejandro PAGNI / AFP
Borré comemora gol do River Plate contra o Boca Juniors pela semi da Libertadores Imagem: Alejandro PAGNI / AFP
Gustavo Fogaça

Gustavo Fogaça

Conhecido como Guffo, é comentarista da DAZN Brasil, analista de desempenho e cineasta

14/11/2019 12h00

Se aproxima a hora da decisão para Flamengo e River Plate. A primeira final única de Libertadores será jogada em Lima no Peru no sábado 23 de novembro, confrontando o melhor time do Brasil contra o atual detentor do título. E há um consenso nacional de que o Flamengo é o favorito. Quero mostrar que talvez não seja tão bem assim.

O time de Jorge Jesus vem encantando a cada jogo, com um modelo de jogo bem definido, laterais que gostam de apoiar pelo meio com muita qualidade, meias de muita mobilidade e bom passe, e atacantes velozes, matadores e em grande fase. Sem dúvidas, o melhor Flamengo em muitos anos.

Em 33 jogos treinando o time (até rodada 32 do Brasileirão), Jesus alcançou médias invejáveis por partida: seis chances criadas com 33% de conversão em gols. O que leva a 2,1 gols marcados por jogo, a maior capacidade goleadora do Brasil. Levando em consideração que consegue 1,9 expected goal (xG) por jogo, o Flamengo marca 0,2 gol a mais do que é esperado.

Defensivamente também é uma máquina: 61% de acerto nos desarmes, apenas 0,7 gol sofrido por jogo com um xGA (gols sofridos esperados) de 0,9. Ou seja, sofre menos 0,2 gol do que esperado. O Flamengo marca muitos gols e praticamente não sofre!

Há um número do Rubro-Negro que me impressiona: nos 33 jogos sofreu apenas 14 finalizações de valor entre 0,41 e 0,99 xG. Tirando os pênaltis sofridos então, esse número cai para 9. Quer dizer que o Flamengo sofreu apenas NOVE finalizações dos adversários entre 41% e 99% de chance de gol. É muito pouco!

O River Plate também tem números excelentes, muito parecidos com os do Flamengo. Claro, Gallardo dirigiu a equipe em 53 jogos até aqui na temporada, o que dá uma margem maior de erros. Mas mesmo assim, as médias argentinas são tão boas quanto as brasileiras.

Os Millionários também sofreram poucas finalizações entre 41% e 99% de chance de gol: apenas 12. Em 53 jogos, isso dá uma média de uma chance dessas a cada cinco partidas. Fortaleza.

Mas há algo que equipara as duas equipes e é base do modelo de jogo de ambos treinadores: a posse de bola. Tanto Flamengo quanto River têm exatos 59% de média de posse. Ou seja, são duas equipes que gostam de ter a bola.

E isso se comprova ao vermos a quantidade de jogos que cada um teve em que o adversário teve mais posse. No caso do Flamengo, foram SEIS jogos em 33 (18%): Fluminense (0x0), Corinthians (1x1), Ceará (3x0), Inter (1x1) e duas vezes o Athlético-PR (2x0 e 1x1).

Nesses seis jogos, as médias ofensivas do Mengão caíram drasticamente: menos 36% de finalizações, menos 39% de gols esperados, menos 37% de gols marcados, menos 50% de chances criadas e duas considerações preocupantes: a probabilidade de gol por finalização caiu em 60% e a diferença entre gols marcados e esperados, 90%.

Isso quer dizer que se o adversário decide impor a posse de bola, o Flamengo diminui de forma maciça seu poderio ofensivo. Eu explico um pouco melhor isso neste vídeo aqui.

Também acontece com o River, viu? Os argentinos tiveram menos posse que o adversário em apenas TRÊS partidas em 53 jogadas (6%): Talleres (2x0), Arsenal (2x2) e Boca Juniors (0x1). Detalhe: o Superclássico da volta da semi-final da Libertadores, tendo o placar agregado de 2x0, o River propositalmente entregou a bola ao rival.

Então, podemos dizer que apenas em DUAS partidas de 53 (4%), o River realmente teve um adversário que resolveu impor sua hierarquia com a bola.

O time de Gallardo marcou 8% menos gols e criou 29% menos chances. Mas aí aparece o tal número REVELADOR: a diferença entre gols marcados e esperados nesses três jogos subiu 420%. Um absurdo.

O que isso quer dizer, senhoras e senhores? Que o River Plate gosta sim de ter a bola, mas se for o caso do adversário ter o esférico, ele segue sendo competitivo e consegue REALMENTE marcar mais gols do que é esperado. Uma marca que mostra ser um time "copeiro". Coisa que as estatísticas não mostram para o Flamengo.

Também é necessário dizer que este River Plate está cheio de cicatrizes talhadas em grandes embates. É um time traiçoeiro e competitivo, os números não mentem. E este Flamengo ainda não foi posto com a faca no pescoço contra a parede. Por sua qualidade, está surfando tranquilão no futebol brasileiro. Sem dúvidas será o jogo mais difícil da era Jorge Jesus.

É claro que em uma final tudo é possível. Ainda mais no futebol. Mas a questão desse Flamengo e River Plate é só uma: quem vai ficar com a bola? Aquele que tiver mais posse certamente será campeão. Nesse caso específico, a estatística da posse de bola tem uma importância ENORME, pois ambas equipes só respiram tranquilas quando cuidam da bola em seus pés.

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