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Fogaça: O segredo do sucesso de Jesus no Flamengo

Jorge Jesus, técnico do Flamengo - Jeferson Guareze/AGIF
Jorge Jesus, técnico do Flamengo Imagem: Jeferson Guareze/AGIF
Gustavo Fogaça

Gustavo Fogaça

Conhecido como Guffo, é comentarista da DAZN Brasil, analista de desempenho e cineasta

10/10/2019 15h33

Quero falar do sucesso do trabalho do português Jorge Jesus no Flamengo e como isso vai na contramão da cultura do futebol brasileiro, que é de jantar treinadores estrangeiros no café-da-manhã. Mas para isso, preciso ANTES dar uma recapitulada em como as coisas são por aqui.

É que no Brasil, os primeiros chefes dos treinadores nos clubes são os jogadores. No geral, os clubes tratam os atletas como semi-deuses intocáveis e os treinadores como funcionários públicos imprestáveis. A imprensa e a torcida compra isso também.

Dentro desse caldeirão chamado "vestiário", onde os egos masculinos - geralmente frágeis e carentes - tendem a criar lideranças preponderantes, os treinadores que vêm de outros países se perdem facilmente. No Brasil, é o jogador que determina se vai aceitar ou não o trabalho do chefe. É de baixo pra cima.

Na Europa no geral, a cultura é bem diferente. Lá se sabe que o atleta e o treinador são funcionários do clube, e atendem a um chefe que determina e cobra comportamentos de todos. O treinador tem que ser muito traíra ou incompetente para ser derrubado pelos jogadores.

Essa mentalidade de "obedecer a hierarquia de mando" que existe nos clubes europeus, faz com que jogadores que aqui eram rebeldes, ao chegarem lá precisem se adaptar para ter sucesso. Ou voltarão fracassados. Nos clubes europeus, atleta OBEDECE o treinador, pois entende que ele está ali para melhorar o seu jogo.

Bom, colocado tudo isso, voltemos ao Flamengo e Jorge Jesus. Não vou falar da capacidade de treino, da metodologia, da parte tática ou física. Nem da qualidade técnica indiscutível do elenco rubronegro. Quero falar sobre LIDERANÇA.

O Flamengo tem em seu elenco hoje pelo menos 10 jogadores que tiveram uma boa experiência na Europa. O principal líder do vestiário HOJE é o camisa 10, Diego Ribas, que jogou em gigantes europeus como Wolfsburg, Juventus, Atlético de Madrid e Fenerbahce.

Outro líder importante do grupo é o goleiro Diego Alves, com mais de 10 temporadas na Europa. E o lateral Rafinha, com passagens por Schalke, Genoa e Bayern de Munique, que até já é apelidado de "Pai" pelos jogadores mais novos que o abraçaram como referência.

Esses caras SABEM da importância de fazer o que o treinador prepara nos treinos e tentar executar isso em campo. E eles realizando isso, como líderes, dão o exemplo ao grupo de como se comportar com o "Mister" e suas ideias.

Vamos pegar para comparar dois treinadores de ponta que por aqui estiveram e não deram muito certo: Paulo Bento e Juan Carlos Osório. Ambos com passados multi campeões, metodologias bem claras e com vontade de ter sucesso no futebol brasileiro.

O colombiano chegou no São Paulo em 2015 com um grupo recheado de estrelas. Dedicou tempo e energia para conhecer o grupo e passar suas ideias. Aquele elenco tinha SEIS jogadores com experiência européia: Alan Kardec, Centurión, Denílson (que saiu em seguida), Alexandre Pato, Michel Bastos e Luis Fabiano.

Os líderes do grupo na época eram o goleiro - e hoje treinador - Rogério Ceni e o atacante Luis "Fabuloso" Fabiano. Michel Bastos foi o primeiro a entrar em conflito com o treinador, ao ser substituído em uma partida (jogador que conhecia a mentalidade européia, mas "em Roma, atue como os romanos"). Isso influenciou bastante o grupo. E Ceni, como se sabe, jogou a vida inteira no Brasil.

Claro, a crise política interna do Tricolor ajudou muito na decisão de Osório de aceitar o convite de treinar o México. Mas faltou essa comunhão que a experiência internacional traz ao elenco para aceitar um treinador de fora.

Em 2016 o português Paulo Bento tinha um elenco com apenas UM jogador com experiência européia: o centroavante William, que tinha jogado no Metalist da Ucrânia. Os líderes daquele grupo eram o goleiro Fábio, o zagueiro Dedé e o volante Henrique. NENHUM dos três com experiência na Europa.

Obviamente que a metodologia e as ideias de Bento não teriam eco em um grupo onde a cultura de trabalho é 100% brasileira, e a qualquer guinada ou imposição que desagradasse ao grupo de jogadores, as lideranças minariam o trabalho do treinador.

A tese é simples: para um treinador estrangeiro de ponta DAR CERTO no Brasil, é necessário que os LÍDERES do grupo tenham a mentalidade européia de trabalho, e não a brasileira, onde a vontade e desejos dos jogadores se sobrepõe às ideias do treinador.

O Santos de Sampaoli pode ser a exceção que faça a regra. Somente três jogadores estiveram na Europa: paraguaio González, Jorge e Luan Peres. E nenhum é líder do grupo. Mas o "pelado" é meio louco também, e talvez consiga onde ninguém conseguiu antes.

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