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Zaidan: Vida de treinador não anda fácil. Nem mesmo para o Zidane

Zidane acompanha jogo entre PSG e Real Madrid no Parc des Princes - Thomas Samson/AFP
Zidane acompanha jogo entre PSG e Real Madrid no Parc des Princes Imagem: Thomas Samson/AFP
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

23/09/2019 11h43

A instabilidade do emprego de treinador de futebol no Brasil já virou provérbio. Mas isso está longe de ser mais um daqueles fenômenos exclusivos de Pindorama. Eis que, de uns tempos para cá, a vida dos técnicos também não anda fácil na Europa. Vejam o caso de Zinedine Zidane.

Tratemos de abstrair, por instantes, que ele foi um dos melhores jogadores da história do futebol; pensemos exclusivamente no que já ocorreu em sua carreira de treinador, até aqui restrita ao Real Madrid. Zidane, comandando o Real, faturou um Campeonato Espanhol e levantou três vezes seguidas a Liga dos Campeões, além de ganhar dois Mundiais.

No primeiro semestre do ano passado, ele resolveu ir embora. Não foi possível avaliar o impacto de sua saída, pois Cristiano Ronaldo também se mandou, o que, é óbvio, enfraqueceu decisivamente o time. O resultado para o Real foi uma temporada sem títulos e, para o padrão do clube, tecnicamente medíocre.

Zidane voltou, mas já não havia muito o que fazer para mudar as coisas. A expectativa de retomar a normalidade de vitórias e títulos ficou para esta temporada. O primeiro sinal preocupante veio no período de amistosos anteriores às competições oficiais; e veio forte: uma goleada histórica, em julho, por 7 a 3 para o rival Atlético Madrid. Nas primeiras rodadas do Campeonato Espanhol, algumas decepções seguidas de vitórias que não empolgaram muito.

Na semana passada, a desconfiança e a preocupação foram fartamente alimentadas logo na primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões: o Real perdeu por 3 a 0 para o Paris Saint-Germain, que estava sem Neymar, Mbappé e Cavani. No dia seguinte, parte da torcida começou a pedir a contratação de José Mourinho. O assunto chegou a ser abordado em entrevista com Zidane, que limitou-se a dizer que não vai desistir e que considera normal os torcedores sonharem com a volta de Mourinho.

O Real Madrid, maior vencedor da Liga dos Campeões com 13 conquistas, é quase sempre forte candidato a todos os títulos que disputa, o que provoca pressão constante sobre seu treinador. E o presidente Florentino Pérez, também sujeito aos protestos de torcedores e sócios naturalmente exigentes, não costuma esperar muito tempo para demitir o treinador. Fez isso, aliás, em 2015 com Ancelotti. No ano anterior, o técnico italiano, comandando o Real, venceu a Champions e o Mundial e foi escolhido melhor treinador da temporada. Ancelotti perdeu o emprego simplesmente porque Florentino não tolerou ver o Barcelona ganhar tudo em 2015.

O atual contrato de Zidane só termina em 2022, mas multas altas não costumam impedir o Real de mudar o comando do time. A maior paciência com Zidane, se confirmada, será motivada por ele ter dirigido o clube durante três temporadas vitoriosas, ganhando, repito, três títulos europeus e dois mundiais seguidos, e por se tratar de um dos melhores jogadores da história do Real.

De resto, Mourinho é um treinador extraordinário, mas parece longe de sua melhor fase. É pelo menos questionável se, hoje, ele pode fazer pelo time mais do que Zidane tem feito. O Real Madrid é um dos quatro clubes espanhóis que, por terem um quadro associativo consolidado e forte, não precisaram virar empresa - as outras exceções são Barcelona, Athletic Bilbao e Osasuna. Os demais passaram a ter proprietários, o que também pode se tornar um problema para os técnicos.

Aconteceu no Valencia: as idiossincrasias de seu dono levaram à demissão do Marcelino, que fazia um ótimo trabalho. Na Itália, a compra de clubes por milionários estrangeiros, alguns dos quais não têm a menor familiaridade com a cultura do futebol local, produz pressão sobre treinadores, que passam a conviver com a instabilidade de seus empregos. Mesmo clubes tradicionais são atingidos pelo fenômeno, como vimos acontecer com a Inter de Milão nos anos recentes.

Os investimentos trazem pressa por bons resultados, como se nota até mesmo na Inglaterra, que tem, há algum tempo, o melhor dos campeonatos nacionais. E essa pressa geralmente faz do treinador sua vítima preferencial. Sim, o treinador é quem vai para a rua, ainda que seu elenco não ajude muito. Quando o assunto é técnico de futebol, sempre me lembro da definição feita pelo Otto Glória. Já a citei incontáveis vezes (uma delas aqui mesmo na coluna Campo Livre, do UOL Esporte). Pois repito o que disse, faz mais de 50 anos, o Otto: "Treinador, quando seu time ganha, é bestial; quando seu time perde, é uma besta".

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