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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cobrar sem dar em troca: a história do futebol feminino brasileiro

Seleção brasileira feminina abraçada durante decisão de pênaltis contra o Canadá - Philip Fong/AFP
Seleção brasileira feminina abraçada durante decisão de pênaltis contra o Canadá Imagem: Philip Fong/AFP
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

30/07/2021 13h39

A seleção de futebol feminino foi eliminada pelo Canadá dos Jogos Olímpicos de Tóquio, na disputa de pênaltis, depois de um empate sem gols. Volta para casa invicta, o que deve servir de pouco consolo para quem sempre tem ambições maiores.

Mas de onde vêm estas ambições? Com base em que esperamos mais de um país em que a modalidade para mulheres foi proibida por décadas e mal subsistia menos de uma geração atrás? Única resposta possível: o talento das brasileiras, que resiste apesar de todos os pesares.

Meu feed no Twitter está pipocando com considerações de gente que acompanha o futebol feminino desde sempre - coisa que eu, honestamente, não faço. A mensagem? Parem de cobrar o que vocês nunca deram. Parem de esperar mais milagres. E, pelo amor das deusas, parem de sugerir bobagens como diminuir a trave ou o campo ou qualquer outra coisa que não seja o preconceito.

Como disse a rainha Marta: parem de cobrar tanto o que nunca foi investido antigamente.

É impossível avaliar o futebol feminino apenas pelo que acontece dentro de campo. Claro, o time é melhor do que o que vimos hoje, Pia poderia ter feito substituições melhores e mais cedo etc, etc, etc. Não dá, porém, para ignorar o contexto em que as jogadoras estão inseridas.

Como bem lembrou a colega Renata Mendonça, não havia investimento consistente até 2019 (também conhecido como ontem). A chegada de Pia e mudanças internas na CBF se seguiram à Copa do Mundo daquele ano, depois de o Brasil precisar atuar na Rio 2016 com uma seleção permanente pela falta de estrutura de clubes no país. As seleções de base ficaram acéfalas por um ano, e 2019 marcou também a estreia do primeiro campeonato nacional feminino da base.

E adivinhem? Não há bolo sem ingredientes. Churrasco sem carne. Chope trincando sem isopor com gelo. As conquistas do Brasil até aqui desafiam a lógica. Como tantas brasileiras, nossas atletas dão nó em pingo d'água, fazem chover no deserto, botam água no feijão e se viram com praticamente nada.

No meio desse deserto, pasmem, floresceu a maior de todos os tempos. Sem água e sem adubo, como as flores mais lindas do cerrado, Marta veio nos brindar com sua genialidade - e, sem querer, alimentar nossa ilusão de que talento basta. E não basta, mesmo um talento como o dela ou a longevidade de uma Formiga, que aos 43 anos disputou sua sétima (!) edição dos Jogos.

O que o futebol feminino precisa é de dinheiro, ponto. Mais dinheiro, mais progresso, mais trabalho, da base ao topo da pirâmide. Não adianta querer que as pessoas torçam no dia a dia com campeonatos chinfrins, partidas em horários ruins, estádios capengas. Sem investimento não há retorno, como nos ensina a vida todos os dias.

Portanto, paremos de encher o saco de quem já opera milagres e comecemos a pressionar quem assina os cheques capazes de mudar a situação delas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL