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'Bom Senso' do basquete argentino derruba cartolas e dá lição ao Brasil

Astros da Argentina lideram movimento para mudar situação do basquete no país - AP Photo/Martin Mejia
Astros da Argentina lideram movimento para mudar situação do basquete no país Imagem: AP Photo/Martin Mejia

Daniel Neves

Do UOL, em São Paulo

30/07/2014 06h00

Vitorioso na última década, o basquete argentino foi sacudido por uma crise financeira e política que colocou em xeque até mesmo sua participação no Mundial 2014, a ser disputado entre agosto e setembro na Espanha. Situação que fez com que astros consagrados da ‘Geração Dourada’ dessem início a uma espécie bem sucedida de ‘Bom Senso’ na modalidade, provocando a renúncia de dirigentes por má gestão e exigindo mudanças na estrutura do esporte do país através de uma ativa atuação nos bastidores. 

A crise argentina teve início em abril, com a renúncia do presidente da Federação, Germán Vaccaro, devido ao desequilíbrio financeiro da entidade e denúncias de corrupção. Desde então, outros dois nomes assumiram e deixaram o posto logo em seguida após pressão dos atletas. Eleito no começo de julho, Daniel Zanni pediu para sair em menos de um mês. Seu substituto, Ricardo Siri, também renunciou, assim como todos os comandantes das federações regionais.

A dívida admitida pela Federação Argentina está na casa de 20 milhões de pesos (cerca de R$ 5,4 milhões), mas os atletas cobram uma auditoria externa por temerem que o valor possa ser muito maior. Deste montante, 5 milhões de pesos (R$ 1,3 milhão) são premiações e diárias atrasadas dos jogadores da seleção principal.

Diante da situação caótica, a ‘Geração Dourada’ da Argentina endureceu as cobranças por mudanças. Nomes como Manu Ginobili, Luis Scola e Andrés Nocioni se reuniram com dirigentes e cobraram a adoção de um modelo de gestão profissional, com afastamento dos atuais cartolas. Até mesmo um boicote ao Mundial foi cogitado.

“Para nós, seria muito mais fácil ir ao Mundial ou permanecermos em casa. Mas queremos mudanças profundas na CABB. Isto pode chegar a criar um legado mais importante do que o conquistado em quadra. Queremos saber onde foi parar tudo o que se gerou nestes anos”, disse Ginobili. “Nós [da NBA] jogamos uma competição e nos vamos. Mas atrás há milhares de jogadores na Argentina que merecem transparência e respeito”.

O movimento atinge toda a seleção argentina. No início da preparação para o Mundial, a delegação inteira, incluindo a comissão técnica, concedeu entrevista coletiva para reforçar as cobranças. Pressão que chamou a atenção do governo local. Secretário do esporte, Camau Espínola enviou inspetores à sede da federação e já fala em uma intervenção.

“Só sabemos que nossa seleção esteve 10 anos no topo do mundo e nada disso se vê refletido. Estamos exatamente iguais, ou piores, do que quando começamos. (...) Não queremos deixar só resultados e medalhas. Temos amor pela camisa, pelo basquete, e pretendemos algo mais”, afirmou Nocioni ao jornal Olé.

“Eles são a verdadeira matéria prima do basquete”, defendeu o técnico da seleção brasileira, Rubén Magnano, ao UOL Esporte. "São caras que têm muito peso, se falaram é porque alguma coisa aconteceu. Assim como o técnico precisa ouvi-los dentro de quadra, os dirigentes têm que escuta-los fora dela. Estão pedindo o que acham necessário para a melhora do basquete argentino, não têm ligações políticas”, completou o treinador, que dirigiu seus compatriotas na conquista do ouro olímpico.

E no Brasil?

O ativismo e a postura crítica dos jogadores argentinos contrastam com o pouco envolvimento dos atletas brasileiros com a atual situação da CBB, que também se encontra em uma delicada situação financeira após déficits consecutivos nos últimos cinco anos. De acordo com os balanços emitidos pela entidade, as dívidas da confederação subiram de R$ 800 mil em 2009 para R$ 9,5 milhões no fim do ano passado (crescimento de 1.088%).

Dentre as dívidas, R$ 1,9 milhão ao INSS e mais R$ 4,4 milhões em empréstimos bancários. Em análise feita ao blog Bala na Cesta, o professor Jorge Eduardo Scarpin, docente do Mestrado em Ciências Contábeis da Universidade Federal do Paraná, classificou a entidade como ‘falida’. O déficit constante tem ocorrido apesar do aumento de receitas da entidade. No último ano, houve arrecadação recorde de R$ 27,4 milhões, impulsionada pelo aporte de R$ 14 milhões do Ministério do Esporte.

Assim como na Argentina, os problemas financeiros também atingiram a seleção principal. Em 2013, o presidente da CBB Carlos Nunes admitiu ter atrasado o pagamento das diárias a jogadores das seleções masculinas e femininas que disputaram a Copa América. As comissões técnicas também receberam seus rendimentos com atraso.

A situação fez com que a gestão de Nunes à frente da CBB fosse duramente criticada pelo presidente da Fiba Américas, Alberto Garcia, e pelo secretário nacional de Esporte de Alto Rendimento, Ricardo Leyser, em fevereiro. O Ministério do Esporte, porém, aumentou seu aporte a entidade, que receberá um total de R$ 58 milhões em convênios até 2016.

Contestar a situação financeira da CBB, porém, parece não passar pela cabeça dos principais jogadores do país. Questionados sobre o assunto, alguns dos atletas da seleção brasileira que se prepara para o Mundial da modalidade afirmaram estar atentos à situação do basquete nacional, mas evitaram entrar em atrito e ressaltaram o bom relacionamento com dirigentes.

“É uma questão complicada. Eles [na Argentina] realmente tiveram muitos problemas com a confederação, não tem a fiscalização que temos aqui na CBB, que é toda auditada”, disse o pivô Tiago Splitter. “É uma situação totalmente diferente. Temos a nossa confederação muito mais analisada do que a deles”.

Membro da comissão de atletas do Comitê Olímpico Brasileiro, o ala Marcelinho Machado acredita que existe uma boa participação dos jogadores nacionais, que passaram a ter direito a voto nas reuniões da CBB. O veterano, porém, admitiu desconhecer os atuais números financeiros da entidade.

“Para fazer esse julgamento teria que ter acesso a todos os dados, não tenho acesso a isso. A gente conversa, o Guilherme [Giovannoni] é o presidente da associação de jogadores. Mas entendemos que a Eletrobrás saiu [como patrocinadora] da confederação e isso foi uma situação complicada de se administrar”, afirmou Machado.

Recém-criada, a Associação de Atletas Profissionais de Basquetebol do Brasil (AAPB) até agora tem evitado entrar em rota de colisão com os cartolas nacionais. Convidada para participar da última assembléia geral da CBB, a entidade deu seu aval na prestação de contas da CBB, aprovadas por unanimidade na reunião pelos presidentes de federações.

“Estou olhando meio por cima o que está acontecendo [na Argentina]”, comentou Giovannoni. “Provavelmente neste fim de semana eu terei um encontro com o presidente da associação de atletas deles no Rio. Nós nos encontraríamos por outros motivos, mas vou aproveitar para saber mais a fundo o que está acontecendo. Acho importante que os atletas [da Argentina] estejam tentando melhorar a modalidade, assim como estamos tentando fazer a mesma coisa por aqui”.

Curiosamente, o último jogador de peso a contestar cartolas da CBB faz parte da atual seleção brasileira. O pivô Nenê Hilário passou dois anos afastado da equipe nacional por divergir da gestão do então presidente da entidade, Gerasime Bozikis, conhecido como Grego, no início dos anos 2000.

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