Catadora que morou no aeroporto é sucesso nas redes com dicas de reciclagem

Quem vê os simpáticos vídeos da catadora Laura da Cruz, de 61 anos, dando dicas de reciclagem para os quase 80 mil seguidores do perfil do projeto Cataki, não imagina o caminho que ela trilhou até fazer sucesso nas redes sociais.

Há oito anos, Laura decidiu sair de Belém do Pará para refazer a vida na capital paulista. Mãe, avó, bisavó e "filha do dono do mundo", como ela se descreve, a catadora deixou sua cidade onde trabalhava como servente no ramo da construção civil em busca de melhores oportunidades de trabalho para ajudar a sua família.

Uma clássica história brasileira, mas com um desfecho diferente vivido por muitos migrantes que compõe o grupo de mais de 42 mil pessoas, majoritariamente pretas, em situação de rua na capital paulista, segundo o censo municipal divulgado em 2022 pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (Polos-UFMG). Mas Laura fez parte dessa estatística por um período.

Passagem só de ida

Sem conhecer ninguém na terra da garoa, a catadora, que comprou uma passagem de avião só de ida para São Paulo e desembarcou na cidade com apenas R$ 10 no bolso, enfrentou desafios e ficou à mercê da sorte e da ajuda de terceiros.

O primeiro grande desafio foi chegar de viagem sem ter para onde ir, o que a levou a viver no Aeroporto de Guarulhos por 15 dias.

"Durante esse tempo em que vivi no aeroporto, muitas pessoas me ajudaram ou ofereceram ajuda. Uma delas foi uma senhora que confiou em mim para olhar as bagagens dela enquanto ia ao banheiro, que era perto de onde eu 'morava'. Foi então que ela me ofereceu para ir para a casa dela e disse que me ajudaria a conseguir um emprego onde trabalhava, mas a ajuda durou pouco tempo", conta.

Assim que terminei de fazer uma oração ajoelhada no quarto para agradecer por não precisar mais dormir na cadeira do aeroporto, essa senhora me chamou e perguntou se eu era crente. Eu disse que era evangélica. Então ela me mandou embora porque não queria crente na casa dela. Laura da Cruz

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Imagem: Divulgação

Laura conta que o marido dessa senhora não concordou com a atitude da esposa, mas não conseguiu reverter a decisão.

Era uma sexta-feira e, por isso, o casal decidiu que a levaria de volta para o aeroporto na segunda-feira.

"Passei esses três dias trabalhando na casa deles, porque achei o mais honesto, já que eu tinha comida e cama, mas eu acho que ela só queria alguém para limpar a casa dela naquele momento. Então ele [o marido] me levou de volta para o aeroporto e me deu R$ 50 e um Bilhete Único. Até hoje tenho esse bilhete guardado na minha casa."

Primeiro contato com a reciclagem

De volta ao "não lugar", Laura chamou a atenção de outra família. Um casal de irmãos (um homem e uma mulher) se apresentou para a catadora e, ao saber da história dela, decidiu oferecer uma oportunidade de trabalho em uma cooperativa de reciclagem. E, ao contrário da primeira experiência, ser evangélica foi uma vantagem, uma vez que os irmãos eram da mesma religião.

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"Fui para a casa da moça em São Carlos (interior de SP). Chegando lá, mais uma vez, entrei na faxina. Tinha até larva dentro da pia, porque ela foi viajar e deixou a louça suja. Era uma 'casona'. Fui colocada num quarto que tinha até câmera. E passei uma semana lá. Numa sexta-feira, fui levada para conhecer a cooperativa de reciclagem. Foi a primeira vez que eu tive contato com esse universo", conta a catadora.

Laura foi colocada para trabalhar sem conhecer nada sobre separação de resíduo. Sua meta era separar uma "pilha generosa de descarte". Tarefa dada, tarefa cumprida. A recém-chegada a São Paulo aprendeu rapidamente a fazer a separação e terminou o trabalho antes do previsto. O que era para ser algo positivo virou um problema.

"A moça não acreditava que eu tinha feito um trabalho bom e rápido. Aprendi as cores de coleta na hora e terminei o serviço primeiro do que ela. Mas ela achou que eu não iria dar conta", conta Laura

De acordo com ela, o irmão da moça percebeu que ela estava agindo de forma estranha com Laura e perguntou o que estava acontecendo. "Ela disse que estava preocupada em colocar gente na casa dela, principalmente de Belém do Pará, onde 'só tem ladrão'".

E foi assim que voltei para o aeroporto. Eu ganhei R$ 700, mas ela me cobrou R$ 300 pela estadia. Laura da Cruz

Reciclando a vida

Esses foram apenas alguns dos desafios que Laura enfrentou até fazer desse dinheiro que ganhou na cooperativa sua chance de conseguir um lugar para morar. Sua família em Belém do Pará não tinha a menor ideia do que a catadora vivia em São Paulo. "Eu sempre dizia que estava tudo ótimo."

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Laura então se jogou no Centro da capital paulista e morou em pensão, na casa de imigrantes haitianos e num albergue. Os bicos variavam. Um deles foi como embaladora de CD em uma igreja, onde ganhava R$ 30 por semana. Nenhum lugar foi fácil.

Certa vez, numa tentativa de ajudar, uma pessoa a levou para o Cras (Centro de Referência da Assistência Social), onde deram a ela a opção de voltar de graça para Belém. "Eu disse que eu queria ajuda para trabalhar e não para voltar para casa. Então me encaminharam para um abrigo."

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Imagem: Divulgação

No abrigo enfrentou discriminação, perigos e descaso. "Era como estar na rua".

E foi dentro dessa condição que a catadora decidiu que daria um jeito na sua vida, Ela conta que durante uma das refeições viu o anúncio de uma vaga para trabalhar com reciclagem em um supermercado, mas não foi aceita porque era mulher. "Voltei chorando. Eu queria sair do albergue. E a moça do abrigo me ajudou a arrumar um trabalho em uma cooperativa de reciclagem.

Laura tinha tido uma única experiência com a separação de resíduos, mas passou no teste por prometer que daria conta do trabalho. Ousada, a catadora, ainda em período de teste, conseguiu alugar uma casa na zona leste de SP.

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A diretora do abrigo disse assim antes de eu sair: 'A senhora está vendo essa porta aberta? Pois ela vai ficar aberta, porque a senhora vai voltar.' Eu disse: 'Pois então, feche. Laura da Cruz

Reciclagem abriu as portas

Foi assim que a reciclagem abriu tantas outras portas. Os desafios continuaram até Laura conseguir, realmente, se estabilizar. Nessa jornada, a catadora foi descobrindo o que considera uma vocação e uma missão. E foi dentro do projeto do Cataki, do Pimp My Carroça, que encontrou um lugar de valorização da profissão e também espaço para falar para milhares de pessoas sobre reciclagem.

"Eu quero falar do que eu aprendi, eu quero passar para as pessoas. Todo mundo tem o direito de aprender sobre reciclagem. Minha família está orgulhosa de mim por causa da minha história e a oportunidade de estar nas redes sociais. Mas o que importa para mim é lembrar que catador não é invisível. Devo tudo a Deus e à reciclagem."

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