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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Instituto custeia estudo de jovens de baixa renda em escolas de elite de SP

Estudantes beneficiados pelo Instituto Sol - Instituto Sol/Divulgação
Estudantes beneficiados pelo Instituto Sol Imagem: Instituto Sol/Divulgação

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, em São Paulo (SP)

19/04/2022 06h00

Até o nono ano do ensino fundamental, João Guerra, 18, nunca tinha ouvido falar do Santa Cruz, colégio de elite de São Paulo onde viria a cursar o ensino médio com bolsa integral.

Ele estudava na Escola Estadual Doutor Kyrillos, no distrito de Raposo Tavares, quando foi apresentado à proposta do Instituto Sol: promover a inclusão de jovens de baixa renda em colégios de excelência, aumentando suas chances de ingresso em um ensino superior de qualidade com o objetivo final de torná-los vetores de transformação da sua realidade.

Parecia bom demais para ser verdade. Durante a apresentação do Sol em sua escola, João e uma amiga desacreditaram que o suporte oferecido pelo instituto não tivesse mesmo nenhum custo para os alunos. Ambos acabaram sendo selecionados para participar, durante aquele ano, de um cursinho preparatório e foram admitidos no exame de ingresso do Santa Cruz para o ensino médio, recebendo a partir daí suporte financeiro, acadêmico e psicossocial da organização.

Os dois estudantes fazem parte de um total de 50 jovens apoiados pelo instituto desde a passagem para o ensino médio até a conclusão do ensino superior — a meta é chegar a 100. Desse total, 13 já estão em universidades públicas e privadas de primeira linha. Quando conversou com a reportagem de Ecoa, João Guerra estava prestes a se mudar para Ribeirão Preto (SP), onde irá cursar direito na USP.

Estímulo a jovens com potencial acadêmico

O Instituto Sol foi fundado em 2017 por um grupo de executivos insatisfeitos com o fato de o acesso à educação de ponta ser uma realidade para poucos no Brasil, já que as melhores escolas são privadas e têm custo alto.

De acordo com o Relatório de Monitoramento da Educação Global da Unesco, divulgado em 2021, os altos custos da educação privada aumentam a desigualdade e a exclusão no mundo. O documento aponta o Brasil como uma das nações do continente americano com níveis mais altos de estratificação social em decorrência das desigualdades educacionais.

"A missão principal do Sol é dar chance para quem tem muita vontade de estudar, talento acadêmico, famílias que apostam em educação, mas que infelizmente não consegue consumir educação de qualidade", disse a diretora executiva do instituto, Camila Du Plessis.

O foco de atuação no ensino médio se deve aos desafios dessa etapa educacional. De acordo com a PNAD Contínua 2019 do IBGE, a passagem do ensino fundamental para o médio é quando o abandono escolar mais ocorre, principalmente pela necessidade de trabalhar.

Somos uma areinha no deserto, mas cada jovem em que a gente desperta esse potencial acadêmico é super vitorioso, mesmo que a gente não resolva [todo o problema]. Não somos política pública, não atuamos no Brasil inteiro, mas se cada região tiver um projeto parecido teremos um impacto muito grande.

Camila Du Plessis, diretora executiva do Instituto Sol

O instituto busca nos jovens da rede pública não o mais alto desempenho escolar, mas o que chama de potencial acadêmico: interesse em seguir com os estudos e indícios de ter condições para isso.

"Um monte de jovens tem um potencial acadêmico muito bom, mas não sabe que tem, ou porque estão numa situação em que isso não é explorado, ou porque eles não conseguiram se conectar com a forma do processo de ensino-aprendizagem, ou porque têm medo de dizer que sabem, por estarem num contexto de desvalorização da educação. A gente ajuda o jovem a descobrir o quanto ele é bom", disse Du Plessis.

Da seleção ao início de carreira

O principal foco do instituto é selecionar estudantes de colégios públicos que não oferecem ensino médio, como é o caso do EE Doutor Kyrillos, frequentado por João. A aproximação com as escolas públicas ocorre via diretorias de ensino de São Paulo, priorizando escolas não muito distantes dos colégios privados com que o instituto mantém parceria. Esse recorte é feito para garantir que os alunos consigam chegar de transporte público ao novo colégio.

Atualmente, o projeto trabalha com quatro diretorias: uma na região Norte, uma na região Leste, Centro-Oeste e Centro Sul. Em 2022, o projeto visitou cerca de 40 escolas da rede pública para estimular a inscrição de seus alunos na seleção.

Podem se inscrever alunos de baixa renda que morem em São Paulo (ou com parentes na cidade que possam acolhê-los), com requisitos como bom comportamento e bom índice de frequência nas aulas. Depois da inscrição vem o processo seletivo, em que os estudantes passam por prova, entrevista e uma conversa com as famílias.

Apesar dos requisitos de desempenho existentes, a diretora do Sol enfatiza que o corte feito na seleção não é apenas acadêmico. Ela conta o caso de Enzo Frediani, aluno que não ficou entre os melhores classificados nos testes aplicados pelo instituto, mas foi selecionado em função do potencial acadêmico. Recentemente, Enzo foi aprovado na Unesp, USP e Unicamp no curso de Ciências Biológicas.

Para o estudante João Guerra, o processo seletivo é "justo e contempla o conteúdo que a escola pública oferece".

Uma vez aprovados na seleção, os alunos têm aulas de português, matemática e redação no contraturno escolar. Na pandemia de covid-19, essas aulas têm sido ofertadas à distância. O cursinho os prepara para prestar os exames de ingresso de colégios particulares ou de escolas públicas melhor avaliadas, como as ETECs. Segundo o instituto, cerca de 70 jovens participam do cursinho por ano e mais de 200 já passaram por ele desde 2018.

São 11 vagas para receber o apoio do instituto ao longo de nove anos, até o início da carreira profissional, com cinco bolsas integrais para o Colégio Santa Cruz e seis para o Bandeirantes, outra escola de elite de São Paulo. Entre os demais participantes do cursinho, de acordo com o instituto, 39% são aprovados em ETECs, 28% em outros programas de bolsa de colégios privados e 13% permanecem na rede pública, mas com aumento do desempenho escolar.

Os 11 aprovados, chamados pela organização de "jovens Sol", recebem acompanhamento acadêmico (com acesso a reforço escolar e curso de inglês, por exemplo) e psicossocial (terapeutas disponíveis e acolhimento por alunos "veteranos" do programa) ao longo de todo o ensino médio, em parceria com a coordenação das escolas. Necessidades como alimentação, transporte, uniforme e excursões também são financiadas pelo instituto.

Na etapa final desse ciclo, os alunos contam com o suporte de uma psicóloga para realizar uma boa escolha profissional. Esse processo envolve o contato dos alunos com profissionais que atuam nas áreas de interesse, visita a universidades e pesquisa sobre mercado de trabalho.

No caso de João, a escolha pelo direito passou pela vontade de ter um impacto positivo na sociedade. Ele cita a decisão do STF que criminalizou a LGBTfobia como uma de suas inspirações.

O apoio do instituto vai até o primeiro ano dos jovens no mercado de trabalho, com um programa de mentoria concedida por um profissional da mesma área de atuação para ajudá-los a tomar boas decisões no início de carreira.

Quem são os 'jovens Sol'

Segundo o instituto, dos 50 alunos contemplados até o momento, 45% se autodeclaram pretos, pardos ou amarelos e 70% são mulheres. Uma minoria entre os responsáveis pelos jovens têm ensino superior ou médio completos, o que é visto por eles como um indicativo do potencial de transformação desses jovens.

Jovens Sol - Divulgação/Instituto Sol - Divulgação/Instituto Sol
Estudantes apoiadas pelo Instituto Sol
Imagem: Divulgação/Instituto Sol

No caso de João, seu pai estudou até o 4º ano do ensino fundamental e a mãe chegou ao ensino superior, mas não pôde concluí-lo. Foi ela a maior incentivadora para que ele e os irmãos estudassem.

O Sol é sempre um facilitador, sempre faz o possível para atender nossas demandas. É como uma segunda família, uma das coisas mais maravilhosas que me aconteceram.

João Guerra, calouro do curso de direito da USP

O Instituto Sol se mantém através de doações de pessoas físicas e jurídicas. Para apoiar o projeto, clique em: https://doe.institutosol.org.br/

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