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Fotógrafo de onça 'cancelada': 'A gente só preserva o que conhece'

Onça "cancelada" predando capivara - João Pedro Salgado / Reprodução Instagram
Onça 'cancelada' predando capivara Imagem: João Pedro Salgado / Reprodução Instagram

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo (SP)

19/04/2022 06h00

Logo em sua primeira vez no Pantanal, João Pedro Salgado, 22, assistiu a uma cena rara. O estudante de biologia não só viu o ataque de uma onça pintada a uma capivara como conseguiu registrar tudo em sua câmera fotográfica. As fotos viralizaram nas redes sociais e geraram polêmica. Por um momento, a onça chegou a ser "cancelada" na internet.

Comentários como "quem consegue ficar feliz vendo uma capivara morrendo?" e "não tem absolutamente nada nessas imagens que deva ser romantizado" abriram uma discussão sobre as fotos postadas por Salgado. Por outro lado, o estudante rebateu as críticas relembrando que na cadeia alimentar, a onça comer a capivara é algo normal na natureza.

"Não fiquei surpreso com esses comentários. Eu sabia que isso aconteceria porque já tinha publicado fotos parecidas e, de vez em quando, tinha uma reação assim. O que me deixou surpreso foi a proporção que isso tomou. Mas meu perfil, onde postei as imagens, é exatamente para isso", contou Salgado à reportagem.

Ao todo, o estudante de biologia conta com mais de 308 mil seguidores em suas redes sociais. Lá, ele divulga fotos autorais de animais e biomas brasileiros e, principalmente no Twitter, posta imagens de outros fotógrafos e threads explicativas sobre eventos biológicos.

A gente que trabalha com biologia e conservação leva como lema 'conhecer para preservar'. A gente só preserva o que a gente conhece.

João Pedro Salgado, graduando de biologia pela UFRJ e fotógrafo

Olha a onça!

A onça pintada é considerada uma espécie ameaçada de extinção, mas é em Mato Grosso do Sul que se encontra a maior concentração do felino no Brasil e no mundo. É lá, também, onde fica a principal base do Onçafari, projeto que produz pesquisa, ecoturismo, reintrodução e educação em relação às onças da região.

O Onçafari existe há 11 anos e foi por meio dele que João Pedro Salgado conseguiu realizar um sonho de infância de visitar o Pantanal, depois de ganhar um concurso de fotografia.

Assim que chegou à Estância Caiman, onde fica a base do projeto, foram cerca de cinco minutos, segundo o estudante, para que ele avistasse a onça e fizesse as fotos. "Foi tudo muito rápido. Em um minuto, no máximo, ela já tinha arrastado a capivara para dentro da mata", contou Salgado.

A ficha do que tinha vivenciado só caiu depois que Salgado chegou ao hotel onde estava hospedado e viu as fotos. "É muito raro ver essa cena. O próprio pessoal do projeto que trabalha lá há mais de 10 anos nunca tinha vivenciado isso", disse.

O ecoturismo é uma das formas que o projeto busca dar visibilidade à causa da onça pintada. Segundo o projeto em seu site, "os encontros com onças permitem que os visitantes aprendam mais sobre as espécies, conscientizando-se da importância desses predadores na natureza e envolvendo-se em seu processo de conservação". Já foram mais de 3400 avistamentos de onças feitos pelo projeto.

Um flash para a preservação

Se você entrar na conta de Salgado no Twitter não encontrará mais por lá as imagens da onça se alimentando da capivara. "Eu excluí porque alguns canais com que eu não concordo politicamente estavam comentando sobre e usando as minhas fotos para se promover. Não queria que isso acontecesse", explicou o futuro biólogo.

A relação de João Pedro Salgado com as fotografias de natureza começaram antes mesmo dele entrar no curso de biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar de ter nascido em Conceição de Macabu, cidade do interior do estado do Rio de Janeiro, e lá ter tido os primeiros contatos com a natureza, foi em Barra de São João, no litoral do estado, que começou a fotografar.

João Pedro Salgado do perfil Biodiversidade Brasileira - João Pedro Salgado/ Reprodução Instagram - João Pedro Salgado/ Reprodução Instagram
João Pedro Salgado, estudante de biologia e fotógrafo
Imagem: João Pedro Salgado/ Reprodução Instagram

Os primeiros registros eram da paisagem da cidade. Atualmente, já viajou não só para o Pantanal como também para o Cerrado em Tocantins só para fotografar. No Pará, onde trabalha como estagiário no bioma amazônico, também usa e abusa das imagens para contar histórias das espécies que encontra por lá. Para Salgado, a câmera o ajuda em seu trabalho de "formiguinha", do qual ele sente muito orgulho, de divulgar para ajudar a preservar.

O problema do negacionismo climático, é que os efeitos das mudanças do clima não são vistos tão a curto prazo como em relação à pandemia, por exemplo. O choque não é tão forte como o de uma pandemia. A única coisa que pode ajudar nessa situação é a divulgação de informações.

João Pedro Salgado, graduando de biologia pela UFRJ e fotógrafo

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