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Golfinho "tímido" do RJ para de falar e vira luta de pesquisadores

Mãe e filhote de boto-cinza nadam juntos - Rodrigo Tardin
Mãe e filhote de boto-cinza nadam juntos Imagem: Rodrigo Tardin

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

16/12/2020 04h00

O boto-cinza não é aquele golfinho extrovertido, que salta ao lado de barcos. Se você chegar perto demais, ele vai mergulhar e emergir a metros de distância para evitar contato. Apesar disso, biólogos afirmam que a interferência do ser humano está impedindo os botos de "falarem" entre si. Consequentemente, dezenas deles estão desaparecendo no litoral fluminense, e pesquisadores travam uma corrida há mais de seis anos para tentar salvá-los.

A presença do boto-cinza se estende pela América Central e por quase toda a costa brasileira, mas a Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, é o "habitat crítico" da espécie. Ou seja, a região originalmente tem condições perfeitas para o boto se alimentar, viver em família e dar à luz filhotes. Ilhotas, manguezais e cardumes tornam o local ainda mais rico em diversidade natural.

Há cerca de 20 anos, porém, foram instalados portos por onde são exportados minerais, como o alumínio. O vai-e-vém de cargueiros e a construção a manutenção de píeres mudou o ecossistema na região e complicou a comunicação dos botos tímidos.

Em um intervalo de vinte anos, os grupos da espécie diminuíram entre 50% a 60% na Baía de Sepetiba. A conclusão, exclusiva para Ecoa, é parte de um estudo chefiado pelo biólogo da UFRJ Rodrigo Tardin, coordenador do Grupo de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos. O grupo existe há 25 anos, mas nunca observou uma redução tão alarmante na Baía de Sepetiba como nos últimos dez anos.

A dificuldade de encontrar comida tem afetado a população de boto-cinza - Rodrigo Tardin - Rodrigo Tardin
A dificuldade de encontrar comida tem afetado a população de boto-cinza
Imagem: Rodrigo Tardin

O boto-cinza vive em grupos, em espécies de uma sociedade, dividida em grupos menores para se alimentar, por exemplo. De acordo com o pesquisador, se em 2007 foram registrados grupos com até 300 botos na Baía, hoje são formados por no máximo 100 membros. "Hoje os botos também estão muito mais magros, a ponto de ser possível enxergar as costelas enquanto nadam", explica Tardin. Em 2014, o Ministério do Meio Ambiente listou o boto-cinza entre as espécies ameaçadas de extinção.

O boto-cinza quer falar

O boto-cinza emite uma espécie de sonar para localizar comida, mapear o ambiente e se locomover e produz um som para interagir com o restante da família. As embarcações que atracam no porto, porém, produzem barulho embaixo d'água e dificultam a comunicação entre o grupo de golfinhos.

No início do ano, um estudo orientado por Tardin detectou uma redução de 90% das "conversas" mantidas entre os botos-cinza em um intervalo de duas décadas. "Antes, você colocava o hidrofone na água" — espécie de microfone — "e os ouvia conversando bastante. Agora, na maior parte do tempo eles estão mudos", diz o pesquisador.

A falta de comunicação atrapalha o encontro de alimentos como a corvina, lula ou sardinhas, principais presas dos botos. A mortalidade dos golfinhos, por sua vez, gera um desequilíbrio na região.

Se antes o boto-cinza ocupava o "topo" da lista e mantinha o ambiente diverso e saudável, o desaparecimento dele pode desencadear o crescimento de maneira exagerada ou diminuir de maneira irreversível a presença de outras espécies, alterando a vida natural da Baía. O desequilíbrio também afeta a vida de pescadores tradicionais na região, com redes cada vez mais vazias.

"Não adianta paralisar um projeto completamente para proteger a fauna, a flora e esquecer do lado social e econômico. Por isso, nos últimos anos temos dialogado com os pescadores, que são prejudicados pelos grandes navios", diz Rodrigo. "Quando a gente fala em conservação e preservação, é sempre um desafio".

Ampliação de porto causou mortes, afirmou MPF

O golfinho "tímido" também é muito caseiro. Diferentemente de cetáceos como a baleia, ele não migra e não percorre longas distâncias.

Os grupos vivem nas mesmas regiões há milhares de anos, e alguns são costumeiramente vistos no litoral norte de São Paulo, na Ilha Grande e até na Baía de Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro (onde foram reduzidos a cerca de 30 golfinhos).

A presença do boto-cinza foi tão grande e exuberante no passado que foram ilustrados na bandeira da capital fluminense. Hoje, porém, a interferência humana e acontecimentos fatais impedem enxergar o mesmo horizonte do passado.

O boto-cinza também está presente na Baía de Ilha Grande, vizinha à Baía de Sepetiba. A outra área tem sete áreas de conservação e, consequentemente, mais botos do que em Sepetiba. A conclusão é parte de um estudo encabeçado por Tardin e que foi publicado na revista científica "Aquatic Conversation" em janeiro de 2020.

Em 2010, a Baía de Sepetiba recebeu R$10 bilhões em investimentos de empresas como a Petrobrás, Vale e Odebrecht. Atualmente, possui quatro grandes portos em operação e um estaleiro da Marinha.

Em 2016, o Ministério Público Federal recomendou que 12 entidades privadas e públicas evitassem a extinção do boto. O pedido não era uma ordem judicial, mas o órgão previu que o bicho poderia desaparecer sem a união de forças de quem atuava na região.

O MPF afirmou que a ampliação de portos e estaleiros para aumentar o tráfego de navios na região agravou a situação dos botos e, de acordo com o Instituto Boto Cinza, provocou a morte de 170 animais entre 2013 e 2015 apenas na Baía de Sepetiba.

Entre 2017 e 2018, uma virose matou 170 botos em Sepetiba e Ilha Grande. As carcaças boiavam na água e eram encontradas por moradores. O vírus não era transmissível para humanos.

Grupo de botos-cinza avistados no mar - Rodrigo Tardin - Rodrigo Tardin
Grupo de botos-cinza avistados no mar
Imagem: Rodrigo Tardin

Boto-cinza não é o Flipper

O boto-cinza é conhecido por "chorar feito uma criança" quando cai nas redes de algum pescador por engano. A espécie costuma se debater tanto que provoca rasgos nas redes até fugir.

Na década de 1990, pesquisadores tentaram remanejar os animais, mas a experiência foi tão traumática que deles animais morreram de ataque cardíaco.

Ainda que boto e golfinho sejam termos sinônimos, os cientistas costumam pontuar que o boto-cinza não é igual ao "Flipper", o golfinho nariz-de-garrafa protagonista de uma série dos anos 1960. O boto-cinza é muito sociável entre si, mas só "acena" de longe para os humanos. Além do dorso cinza, podem ter a região do ventre rosada.

O cinza também é menor, medindo no máximo 2 metros, enquanto o Flipper costuma ter 3,5 metros. O boto-cinza vive até 30 anos em costas, estuários e baía. Os Flippers conhecidos podem ser vistos em alto mar e pelo mundo todo.

O boto-cinza tem uma cognição complexa e vive em sociedades com muitos paralelos às dos humanos. Cada boto tem um papel específico e existem membros que integram "panelinhas" até os "boa-praça", que socializam com todos do grupo.

"Eles se organizam para pegar um cardume por meio da comunicação. Um diz ao outro para ir pela direita, esquerda ou em cima. A comunicação entre si é essencial para se alimentar, se reproduzir e até para evitar outros predadores na região", diz Tardin.

Não há comprovação científica, mas pescadores relatam que os botos-cinza colocam os Flippers "para correr" na Baía de Sepetiba, mesmo com tamanho duas vezes menos. Já no litoral de Santa Catarina, pesquisadores analisaram que os Flippers foram mais agressivos e "tomaram o pedaço" do cinza.

União de forças para salvar o boto-cinza

Para tentar salvá-los, uma área de preservação para o boto-cinza foi criada em 2014 a partir de uma união entre empresas como a Petrobrás, Vale e instituições como o governo do estado do Rio, a prefeitura de Mangaratiba e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A iniciativa foi encabeçada pelo Instituto Boto-Cinza. A colaboração reservou 247 km² da chamada Área de Proteção Ambiental Boto Cinza (APA Boto-cinza) na costa do município de Mangaratiba, onde se concentra cerca de 40% da Baía de Sepetiba. O restante da baía banha o município de Itaguaí e a zona oeste do Rio de Janeiro.

Apesar de seis anos de intervalo entre a criação da APA e a divulgação de um projeto para coordená-la, a prefeitura publicou um plano de manejo em abril. O documento foi feito em parceria com biólogos, funcionários da prefeitura, associações de pescadores e também de profissionais do turismo da região.

Na APA, foi proibida a ampliação de zonas portuárias e da pesca irregular. Foram criadas áreas delimitadas para pescadores registrados, foi criado um conselho municipal com participantes da sociedade civil e prefeitura, foi instituído o turismo de observação para a geração de renda e educação ambiental, foram regulamentadas as embarcações de turismo que poderão navegar na região e houve a criação uma equipe exclusiva para gerar a unidade de conservação. Embora demarcada desde 2014, até agora não havia coordenadores nomeados para trabalhar na APA.

"É uma grande iniciativa. A partir dela será possível fazer uso do ambiente marinho e trazer benefícios para toda a fauna que ocorre ali, inclusive o boto-cinza. Se for bem-feita, dará muitos resultados", explica o professor Alexandre Azevedo, que dá aulas no laboratório de Mamíferos Aquáticos da Faculdade de Oceanografia da UERJ. Entre os resultados esperados a curto prazo estão a preservação da espécie e da biodiversidade da área. A partir do dia a dia do maneio, poderão projetar outras metas de preservação.

A prefeitura tem até cinco anos para colocar o plano de manejo em prática. Pesquisadores, porém, observam que mesmo "caseiro" e em parte da costa de Mangaratiba, o boto-cinza está se deslocando cada vez mais pela região para evitar as embarcações e o barulho gerado pelos motores.

Por isso, os cientistas defendem para o futuro que toda a Baía de Sepetiba seja considerada uma unidade de conservação, ou ao menos tenha um plano na manga para salvar os botos que há milhares de anos navegam de maneira tímida pelas águas da costa do Rio de Janeiro.

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