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Maternidade negra é retratada no maior mural de arte urbana do país

Obra de Robinho Santana em Belo Horizonte - Divulgação
Obra de Robinho Santana em Belo Horizonte Imagem: Divulgação

Lígia Nogueira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

16/10/2020 13h49

A maior empena de arte do Brasil acaba de ser entregue em Belo Horizonte e mede quase 2 mil m². Não são apenas as dimensões da obra, que ocupa uma lateral do Edifício Itamaraty, na Rua dos Tupis, com 33,20 m de largura X 57 m de altura, que chamam atenção. É o traço potente de Robinho Santana que atrai o olhar para uma mulher negra e seus dois filhos.

A obra faz parte da 5ª edição do festival de arte pública CURA - Circuito Urbano de Arte e foi a segunda empena pintada por Robinho, que se dedica à pintura em tela em seu ateliê, com o dobro do tamanho da primeira. Em agosto o artista de 36 anos —nascido em Diadema e hoje baseado no bairro paulistano do Bixiga— pintou sua primeira empena em São Paulo a convite do MAR - Museu de Arte de Rua, em que retrata a paternidade.

"Nos dois trabalhos eu falo sobre a real família brasileira, sobre a força de um pai e de uma mãe que precisam cuidar e dar amor a um filho numa sociedade que o discrimina simplesmente pela cor de sua pele", diz Robinho em entrevista à coluna Boas Notícias.

"Minha missão em pintar algo desse tamanho aqui em São Paulo ou ir para Belo Horizonte é fazer com que as pessoas que entrem em contato com essas obras se conectem e se reconheçam pela grandeza. É uma continuidade de toda minha pesquisa e de minha obra, em que tento colocar mais uma vez o povo preto de forma digna como protagonistas."

Busquei traduzir em imagem a importância de uma construção da negritude com as nossas crianças através de potências, através do afeto, do cuidado e de eventos positivos para que sejamos moldados no amor e na força dos nossos ancestrais

Robinho Santana, artista

O artista comenta a importância da representatividade na arte hoje. "É muito importante que nós possamos falar de nós mesmos, é muito importante que a nossa história seja contada por nós mesmos, tudo isso é sobre verdade e valorização da cultura e do criador da cultura —do contrário, quem poderá falar por nós?"

"Sentir-se representado de forma digna faz com que você olhe para outros lugares para além daquele em que a sociedade te colocou, te faz querer conhecer, te inspira a ser e a entender que você também pode ser aquilo que o outro parecido contigo é. O poder e a importância da representatividade negra nas artes plásticas, por exemplo, me fez estar aqui, quando lá atrás me vi em outro artista negro e vislumbrei que era isso que eu queria fazer de minha vida", conta o admirador de Jean-Michel Basquiat (1960-1988).