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Camila Pitanga sobre futuro: Branquitude e negritude precisam estar juntas

Camila Pitanga participou de painel sobre curta com Papai Noel negro - Reprodução/Instagram
Camila Pitanga participou de painel sobre curta com Papai Noel negro Imagem: Reprodução/Instagram

Anelise Gonçalves

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

01/10/2020 04h00

O ataque ao racismo precisa ser direto. Assim, começou o primeiro dia do encontro virtual Afro Presença, ontem (30), focado em incluir jovens negros e negras no mercado de trabalho. Com doze horas de conteúdo ininterrupto, de 9h às 21h, o evento é idealizado e coordenado pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) e realizado pelo Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas).

A programação contou com a presença da atriz Camila Pitanga, do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli e mais dezenas de representantes do poder público, setor privado e organizações nacionais e internacionais, além de mais de 16 mil inscritos. Distribuídos em 25 painéis, os debates são divididos nos pilares de Sociedade, Mercado e Carreira. Na Vitrine de Oportunidades, são anunciadas mais de 5,000 vagas, que também estarão disponíveis nos outros dias de evento, que vai até sexta (2). As inscrições ainda estão abertas e a participação é gratuita.

Sob o comando do jornalista negro Jorge Soares, a abertura do evento destacou os desafios impostos pela desigualdade no mercado de trabalho brasileiro, no qual apenas 29,9% dos cargos gerenciais são ocupados por negros, segundo o IBGE. Apesar da iniciativa antirracista, o Afro Presença reflete a falta de diversidade racial em cargos de liderança no país. Dos nove integrantes da mesa de abertura, sete eram homens brancos. Havia apenas duas mulheres negras: a coordenadora-geral do Afro Presença, Valdirene Assis, e a secretária Executiva Adjunta da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, Elisa Lucas Rodrigues.

Coordenadora do projeto de inclusão de jovens negros e negras no mercado do MPT, Valdirene contou que o objetivo do evento é "promover uma ampla rede pró-equidade étnico-racial para que ocupem vagas como estagiários e trainees". Ela explica que a escolha do público-alvo se dá por conta do desejo de inclusão qualificada em postos estratégicos de conexão e gestão. Para mostrar como a criação de espaços faz diferença na vida do jovem negro, ela cita o exemplo do próprio apresentador, Jorge Soares, que relatou: "Oportunidade é tudo".

Em discurso, o ministro Dias Toffoli ressaltou os esforços do Poder Judiciário para ser mais inclusivo, como a reserva de 30% das vagas de estágio para negros. Mas reconheceu que ainda há muito a ser feito, como mostram denúncias à CNJ (Comissão Nacional de Justiça) de que, em dez anos, nenhum juiz foi punido por racismo. O ministro ainda condena a polêmica em torno do programa de trainee da Magazine Luiza, direcionado apenas para negros. "Isso demonstra que ainda vivemos numa sociedade desigual e extremamente discriminatória", argumentou.

Presidente do Pacto Global do ONU no Brasil, Rodolfo Sirol, explicou que o grande desafio para alcançar a Agenda 2030 da organização no Brasil, vetada por Bolsonaro em 2019, é a desigualdade. "O Brasil é o oitavo país mais desigual do mundo e isso impacta diretamente no alcance aos outros Objetivos do Desenvolvimento Sustentável", afirmou. "Para resolver isso, precisamos atacar diretamente o racismo."

No evento, os palestrantes são de maioria branca, como apontou a jornalista negra Mariana Bispo, mediadora do painel "Racismo Estrutural Empresarial". Ela celebrou que a sessão da qual participava contava com diversidade de gênero, mas lamentou a falta de pluralidade racial. A jornalista trouxe o conceito da "pirâmide social", na qual a ordem de privilégios seria "primeiro, homem branco, depois mulher branca, abaixo, homem negro, e mulher negra na base". Essa estrutura foi retomada no painel "Expoentes Negros" pelo redator negro, Rafael Silva.

Fundador da escola de criatividade Rua, Rafael relacionou essa pirâmide ao tema de assédio moral e sexual sofrido por mulheres negras nas empresas. "Mesmo sendo negro, não posso falar por elas. Porém, vejo que, por estarem na última posição, suas denúncias e reivindicações não são ouvidas", afirmou. Fechando a sessão, a primeira diretora negra em uma grande agência publicitária brasileira, Joana Mendes, foi assertiva: "esse país não é branco, cisgênero e hétero, mas, sim, construído por diversidade. E nós queremos um lugar na mesa".

Nos debates sobre carreira, durante a sessão "Quais as competências valorizadas pelo mercado?", o co-fundador do portal de vagas 99Jobs, Du Migliano, deu dicas de como "conquistar" um mentor. "Não se pode pedir direto para 'casar'. Primeiro, é preciso conhecer, buscar frequência nas conversas e abrir o coração. No máximo, ele vai falar algo com que você não concorde, mas isso ainda vai te ajudar muito", explica.

Ao conversar com o fundador da Comunidade Empodera, Leizer Pereira, Migliano fez uma crítica quanto ao próprio trabalho em relação à diversidade. "Eu percebi que, durante muito tempo, meu trabalho só atingia pessoas privilegiadas. Está na hora de reparamos socialmente quem precisa de oportunidade", pontua Migiliano. Dentre os painéis do dia, ainda foram discutidas as política de cotas, o impacto da Covid-19 para a população negra e como se tornar um profissional do futuro.

Em todas as sessões, os participantes puderam perguntar e comentar em tempo real. A participante Marília Rodrigues, por exemplo, deu seu retorno positivo aos palestrantes. "Hoje, acordei muito desanimada por olhar minha trajetória e não ver mudanças efetivas. Ouvir vocês me animou bastante", comenta. Já Daniela Barbosa destacou o vão racial no mercado de trabalho. "Vejo muitos negros com Mestrado aceitando cargos 'menores'. Eu falo inglês fluente, sou graduada, tenho experiência no exterior e estou desempregada há um ano".

Destaques do evento

Na mesa de honra do primeiro dia, Coca-Cola, Globo e WMcCann apresentaram o projeto "Juntos a Magia Acontece", feito em 2019, que traz o primeiro especial de Natal com um Papai Noel negro, interpretado pelo ator veterano Milton Gonçalves, e com elenco majoritariamente afrodescendente. Participante do curta, a atriz Camila Pitanga contou que acompanhou o projeto desde a concepção e destacou a importância de estratégias comerciais apostarem mais na pluralidade racial. "A melhor forma de se contrapor ao nosso histórico racializado de tanta dor, é entender que branquitude e negritude precisam estar juntas", pontuou Camila. A roteirista do projeto, Cleissa Martins, também negra, que foi descoberta no Laboratório de Narrativas Negras da FLUP (Feira Literária das Periferias), afirmou que o especial não poderia ter sido feito sem que fosse escrito e interpretado por pessoas negras. Segundo ela, "não haveria um drama se fosse um Papai Noel branco, pois eles já têm todas as oportunidades. É essa narrativa que o torna especial."

Para além das telas, o painel "Por onde as empresas podem começar na luta antirracista" destacou a necessidade de transformar profundamente o ambiente corporativo para ser chamado de plural. "Não adianta sair buscando profissionais negros para tirar foto no happy hour e depois esquecer a causa. Essas pessoas precisam ter um espaço de trabalho saudável e terem respeitados seu cabelo, gênero, religião e sexualidade", defende a consultora de diversidade, Heloise Costa. "As empresas precisam ter uma visão holística sobre o que é inclusão". A jornalista do UOL, Beatriz Santos, responsável pelo Banco de Talentos Negros do portal, defendeu que a diversidade nas empresas é fundamental e aumenta a produtividade. "Nós, negros, sabemos falar sobre inúmeros assuntos. Podemos e queremos ocupar diferentes espaços nas hierarquias", afirmou.

Na discussão dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU sob a perspectiva negra, o foco foi sobre como o alcance dessas metas passa, necessariamente, pela melhoria da qualidade de vida dessa parcela da população. Embora reconheça que as ODS sejam fundamentais para o desenvolvimento da Humanidade, a advogada dos Direitos Humanos Sheila de Carvalho afirmou que elas evidenciam o apagamento das pessoas negras. "As construções internacionais não consideram nossa vivência para construí-las. Só há uma meta que fala de raça e de forma bem diluída. É muito grave que nesse debate global, nenhum país tenha se preocupado em combater o racismo", argumenta. Ela aponta que a solução seria refazer a discussão para criar metas especiais para negros e se aprofundar nas questões raciais. E o diretor de operações da AEGEA, Marcos Valério, completa: "Saneamento é tão básico para a sobrevivência quanto igualdade racial."

O que vem por aí

Na programação de hoje, segundo dia, estão previstos debates sobre mitos e verdades em processos seletivos, como usar o LinkedIn e políticas de ações afirmativas. Já o terceiro e último dia reserva espaço para temas como igualdade de oportunidade e estratégias para combater o racismo institucional, LGBTQ+ sob a perspectiva negra e um show de encerramento.

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