PUBLICIDADE
Topo

Plural é um projeto colaborativo do UOL com coletivos independentes, de periferias e favelas para a produção de conteúdo original


Comunidades de tradição oral vivem desafio adicional com mortes por Covid

Fernando Penteado é membro do Departamento Cultural e da Velha Guarda da escola de samba Vai-Vai, em São Paulo - Marcelo Justo/UOL
Fernando Penteado é membro do Departamento Cultural e da Velha Guarda da escola de samba Vai-Vai, em São Paulo Imagem: Marcelo Justo/UOL

Livia Martins, do Alma Preta

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

19/08/2020 04h00

A transmissão oral é um dos pilares para a manutenção de espaços que resistiram às influências dos pensamentos eurocêntricos, seja na maneira de manifestar a ligação espiritual, no prosseguimento de costumes ou na perpetuação de uma cultura. Calcados fortemente na ancestralidade, muitos grupos sociais buscam valorizar quem se dedicou a ser fonte legítima de conhecimento, mantendo a memória viva e respeitada, mesmo em situações adversas.

Essa tradição, contudo, foge ao controle durante a pandemia.

As pessoas mais velhas são as detentoras da memória em comunidades como quilombos, religiões de matrizes africanas, indígenas, na cultura do samba. A morte, inevitável, é precedida da transmissão desses saberes. Porém, de repente, cem mil brasileiros morreram, a maior parte deles não-brancos, pobres e idosos. Isso afetou essas comunidades, causando rupturas imprevistas.

As mortes repentinas e em massa de pessoas mais velhas são entendidas como perda de legado cultural dessas comunidades, explica Magno Nascimento, membro do quilombo África, no nordeste do Pará.

"É uma alteração incalculável do nosso sistema de crenças e saberes. É parte da nossa ancestralidade que se vai repentinamente", explica ele. Magno afirma que, no momento, a manutenção do conhecimento acontece pelo compartilhamento oral dentro do seio familiar, pois as reuniões coletivas estão paralisadas no momento. "Qualquer que seja a atividade de manifestação cultural na comunidade - dança ou festa, por exemplo -, não estamos fazendo para não incentivar a aglomeração", explica.

Só no estado do Pará, 43 quilombolas morreram em razão do novo coronavírus - dois faziam parte do quilombo África, localizado no município de Moju. Até o momento, 152 pessoas dessas comunidades foram vítimas pelo Brasil. Os dados são publicados e atualizados na plataforma da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e do Instituto Socioambiental (ISA).

"Os ritos e as tradições tiveram de ser suspensos, alterados e modificados. Ainda que tenhamos a condição de fazer no futuro, quando a doença estiver controlada, não será a mesma coisa para quem foi", diz Magno.

Já na tradição iorubá, a perpetuação da memória da religião é oral e passada do mais velho para o mais novo a partir das vivências e experiências que já ocorreram. Com um histórico de perseguição e adaptação, essas comunidades já tinham recursos para minimizar a ameaça atual. "Nossa cultura não é afetada no quesito de compartilhar saberes, pois faz parte da comunidade o compartilhamento entre gerações. Alguns terreiros até produzem materiais, como cartilhas para orientação pedagógica e ensinamento de mitos, por exemplo", ressalta o Bábà Diba de Iyemonjá.

Mas, mesmo com novas plataformas e abordagens, as comunidades sofrem. Os povos indígenas, sucintamente e de modo generalizado, costumam difundir informações de maneira oral e pelos anciãos, com contação de histórias e mitos para todos da aldeia, por exemplo. Antes da pandemia, grandes celebrações com os diferentes povos do Baixo Tapajós, no Pará, também eram uma forma de resgatar a ancestralidade e proteger a memória indígena.

"Na região existem diversas aldeias indígenas que praticam formas de expressar a sua própria cultura, dentro e fora de suas aldeias, incluindo a maneira de se despedir de quem falece", explica Priscila Tapajowara, da aldeia Tapajós.

Na Mukameesawa Tapajowara Kitiwara (MUTAK), ou Mostra de Arte Indígena do Tapajós, por exemplo, 13 povos se reúnem presencialmente desde 2016 para celebrar e realizar um intercâmbio com troca de saberes entre eles. Também é aberto ao público não-indígena para apresentar diferentes tipos de culinária, fotografia, pintura, dança e etc.

"Esse ano não teremos esse evento cultural em razão da pandemia. A MUTAK só é possível presencialmente e estamos aguardando a pandemia passar para conseguirmos organizar o evento", explicou Israel Campos, um dos produtores da mostra.

Velha Guarda

"A velha guarda de uma escola de samba é quem garante que a memória e as características de uma agremiação não se percam. É quem segura o refrão", explica Fernando Penteado, 73 anos, membro do Departamento Cultural e da Velha Guarda da escola de samba Vai-Vai, em São Paulo. Em geral, para organizar uma ala dessa no carnaval, uma escola deve ter 35 anos de existência, no mínimo.

Penteado é neto de um dos fundadores do cordão carnavalesco "Cai-Cai", criado em 1920 e que se tornou agremiação em 1972. "Minha família está há seis gerações dentro da escola e ocupa diferentes postos", diz, destacando a função dos mais velhos de "passar para a frente o que é ser Vai-Vai". O compartilhamento do que é ser sambista começa a ser plantada em cada pequeno componente do "Vai-Vai do Amanhã", primeira ala de crianças de São Paulo, fundada em 1968 e, atualmente, comandada por sua irmã mais velha, conhecida carinhosamente como Tia Cleuzí.

"Podem desfilar crianças a partir dos 6 anos idade. Temos, em média, 150 crianças. Nessa ala, eles aprendem a respeitar, amar e ser do samba", explica Seu Penteado. A filha, Paula Penteado, ocupa o cargo de primeira porta-bandeira da escola de samba desde 2006, carregando e ostentando um dos símbolos máximos de uma agremiação: o pavilhão.

"Meu neto mais novo, de 3 anos, já sabe cantar os sambas-enredos da década de 1930. É muito potente e intensa essa forma de perpetuar o que é a escola de samba", afirma.

De março aos primeiros dias de julho, foram 28 mortes de componentes da escola, dez delas oficialmente causadas pelo novo coronavírus.

No Rio de Janeiro, os falecimentos também pegaram o mundo do samba de surpresa. David Corrêa, um dos maiores vencedores de sambas-enredos da Portela, faleceu em decorrência da Covid-19. O compositor também compôs sucessos do samba, como 'Mel na Boca', eternizada na voz do sambista Almir Guineto.

A atual campeã do grupo especial, Unidos de Viradouro deu adeus a Joel Lopes, presidente da velha guarda da agremiação por mais de 10 anos. A suspeita que o falecimento também tenha sido causado pelo novo coronavírus.

A forma segura que a escola Vai-Vai encontrou para prestar a homenagem a quem está falecendo são publicações de fotos e notas de pesar em todas as redes sociais.

Dessa forma, apesar das regras que impedem reverências e reuniões físicas, a comunidade do samba não deixa de dar adeus, mesmo que virtualmente.