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"Não é o agronegócio quem põe comida na mesa", diz advogada

A advogada Nádia Nádila, do projeto Banco de Tempo Brasília - Nicolas Noel
A advogada Nádia Nádila, do projeto Banco de Tempo Brasília Imagem: Nicolas Noel

Elena Wesley, do data_labe

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

17/08/2020 04h00

Pagar uma consultoria jurídica com uma faxina? No mercado tradicional, cada um desses serviços teria valores bem discrepantes, mas no Banco de Tempo Brasília isso é possível. Na iniciativa criada há três anos, mais de 1400 associados podem trocar uma hora de seu talento pelo mesmo período do talento de outra pessoa. Para a cofundadora Nádia Nádila, o banco dá exemplo de como é possível adotar, no cotidiano, práticas que fujam da lógica de exploração e priorizem a acessibilidade de todos.

Ecossocialista convicta, a advogada de 30 anos compartilha, nessa entrevista, suas crenças e os caminhos possíveis para um outro futuro no Brasil pós-pandemia. Um futuro no qual a noção de trabalho esteja menos atrelada ao acúmulo individual de bens, e mais próxima do benefício coletivo no campo, na cidade e na floresta.

Para isso, Nádia Nádila ratifica que "não existe luta ambiental no capitalismo" e questiona a priorização do agronegócio que, embora leve a fama de alimentar as famílias brasileiras, está diretamente conectado à exploração desenfreada da natureza e das pessoas.
"Não é ele [agronegócio] quem coloca leite e verdura na mesa do brasileiro. Quem faz isso é a agricultura familiar, ainda que com menos insumos, menos recursos. A produção do agronegócio é de exportação e é ele quem mata a população indígena, quilombola, e é o maior responsável pelo desperdício de água, junto da indústria".

Ecoa/Data_labe: O Banco de Tempo de Brasília se baseia no que vocês chamam da relação entre o paradigma da abundância versus paradigma da escassez, numa compreensão de que temos recursos suficientes para todos, mas nosso modelo de viver em sociedade se desdobra em uma má distribuição. A pandemia evidencia isso, com o acirramento das desigualdades. Como o banco se diferencia dessa lógica?

Nádia Nádila: O banco se propõe a impulsionar o outro a pensar além de si, a entender a importância da coletividade. O capitalismo é esperto porque não incentiva o restringir. É uma cultura de incentivo ao que se deve ter, numa lógica em que se trabalha para acumular. Toda a nossa fase educacional é pautada para que a gente seja uma peça desse sistema. Se eu sei inglês, eu sei para mim, não para ensinar o outro. Todo conhecimento vira produto. O paradigma da escassez e o paradigma da abundância vão apontar que temos condições para que ninguém passe fome, mas que os recursos estão concentrados nas mãos de poucas pessoas, de poucos bilionários.

O primeiro ponto do Banco de Tempo Brasília é que ele defende uma relação de igualdade. Não importa quanto conhecimento você investiu para dominar aquela atividade, o que vale é o tempo que você doa. Por exemplo, eu sou advogada, uma consultoria jurídica vai sair no mercado hoje a aproximadamente R$250, enquanto uma faxina aqui em Brasília pode ser paga por R$70. No banco, essa diferença não existe. Os dois serviços terão o mesmo valor: uma hora de cada um.

O segundo ponto é que o banco funciona com trocas indiretas. Você oferta o que você gosta de fazer e tem condição de obter serviços pelos quais talvez não poderia pagar, como uma sessão de acupuntura. O banco preza pela acessibilidade e defende que você ofereça não apenas aquilo que você tem formação, mas o que gosta.

Existe, então, um papel educativo, já que a troca não considera um saber maior que o outro, diferente da forma como o capitalismo ranqueia e monetiza. Existem outras atividades que o banco realiza nesse sentido da conscientização? Qual é esse impacto?

A gente acredita no potencial de conscientização do banco como uma outra forma de ver o mundo e as relações com o outro e com a natureza. É o tal conceito do Bem Viver, que se pauta na inclusão do outro e não da exclusão, e que dá nome ao nosso coletivo - Sociedade do Bem Viver - que conecta quem trabalha com agricultura familiar com quem deseja consumir comida sem veneno.

Atualmente, temos comunidades agroecológicas em Brasília, com o Movimento Sem Terra, e em Florianópolis, com comunidades indígenas guarani, num trabalho de fortalecer quem está no campo e não consegue escoar sua produção. Não tem essa de estou na cidade, logo não penso na natureza. As comunidades vão falar sobre soberania alimentar e questionar quem tem acesso a esse tipo de alimento.

Os projetos estão conectados: O Banco do Tempo, o Bem Viver, e o Subverta, organização política da qual faço parte e que pensa a conexão, vínculo e semelhanças entre campo, floresta e cidade. Todos os projetos estão interligados por essa concepção do Bem Viver, que foi adotada aos poucos pelo Banco, conforme fomos entendendo que o tempo não é linear, que é cíclico. Então, investimos na popularização do banco falando sobre ele nas escolas, em rodas de conversa nos territórios e a partir dos projetos sociais. A gente tem que pensar o território, pois é onde a gente se constitui como pessoa.

O banco possui três formas de trocas: as individuais, em que uma pessoa oferece um serviço e ganha uma hora de tempo para trocar pelo que quiser; as em grupo, em que alguém oferece um serviço para mais de uma pessoa, contabilizando apenas uma hora e doando as demais horas para um caixinha, e os projetos sociais, em que quem participa ganha recompensa em horas. Dessa forma, a gente tem os associados participando das ações sociais, como o Mutirão de Bioconstrução do Sol Nascente, em 2017, quando construímos a casa da Tia Alzerita junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Mais de cem famílias ganharam as terras, mas o governo dá um prazo para construir e, se não cumprem, toma as terras de volta. Então a ideia era levantar uma construção de pau a pique, com uso de barro, de bambu e outras matérias-primas e demonstrar que ela é mais barata, mais ecológica, mais acessível e tem boa durabilidade em relação às construções de alvenaria.

Esse momento me mostrou o quanto as pautas da negritude estão conectadas com outros temas, como a água e o direito à moradia por exemplo. Se eu falo de mulheres negras, eu falo de saneamento básico, do mundo do trabalho, está tudo interligado. Muito se fala sobre o quanto a esquerda abandonou a base e precisa retomá-la, se reconectar com as pessoas que formam a base da pirâmide social, que sustentam todo esse sistema, que são quem realmente detém o poder, mas que não consegue se enxergar na coletividade, porque o capitalismo mina isso. Ele pensa o agora, o quanto eu consigo crescer individualmente. E aí a gente chega numa crise sanitária que se desdobra em crise social, econômica, política.

Quem pensou muito essa questão foi o Partido dos Panteras Negras. Eles investiram numa estratégia de autodefesa para combater a violência policial até perceberem que havia pessoas sem ter o que comer nas comunidades. Nos deixa essa provocação de como fortalecer os sujeitos por eles mesmos.

Mas existe um limite para a economia solidária, certo? De alguma forma ela ainda é micro.

Temos 1400 associados em quase três anos de funcionamento, e com seis mil membros no Facebook, que é onde as trocas são definidas. Estamos num momento de transição para uma nova plataforma. Mas vale fazer uma autocrítica. Hoje a maior parte dessas pessoas pertence à classe média de Brasília. Se é uma plataforma online, não vai chegar com facilidade na favela e na periferia.

Outros bancos de tempo como o de Portugal, o de Barcelona, têm uma estrutura física, o que facilita o acesso dos participantes. O banco possui uma equipe diversa, de diferentes correntes, então não posso afirmá-lo como ecossocialista. Ele se propõe a pensar relações comunitárias e de vizinhança que possam estar mais fortalecidas, criar vínculos em um sistema que o tempo todo nos fragmenta, nos coloca em caixas. O banco de tempo é transicional. Tem gente que se cadastra e pergunta se consegue pagar em horas a luz, a água, o aluguel, então tem esse limite.

É aí que entra o ecossocialismo como uma proposta de modo de vida em que as relações não sejam tão desiguais?

Estamos num sistema que explora, oprime e destrói. Explora a mão-de-obra, o modo de vida das pessoas e deixa os meios de produção na mão de poucas pessoas. Oprime mulheres e quem são elas? São as mulheres do campo, a juventude negra, as pessoas LGBTQI+... [Oprime] por raça, por cor. E ele destrói o meio ambiente pelo agronegócio, as mineradoras, as hidrelétricas. O planeta não dá mais conta!

O ecossocialismo rompe com esse sistema e diz que não existe luta ambiental no capitalismo, que não há como ter desenvolvimento sustentável, que crescer com respeito ao meio ambiente é impossível num planeta finito onde as pessoas consideram a natureza um recurso. Não dá para manter essa lógica de que tudo é um produto. A mídia e o governo tentam valorizar o agronegócio, mas não é ele quem coloca leite e verdura na mesa do brasileiro. Quem faz isso é a agricultura familiar, ainda que com menos insumos, menos recursos. A produção do agronegócio é de exportação e é ele quem mata a população indígena, quilombola e é o maior responsável pelo desperdício de água, junto da indústria. Portanto, a mudança tem que ser estrutural.

O ecossocialismo rompe também com o socialismo produtivista do século 20, porque não adianta tomar os meios de produção e continuar explorando combustíveis fósseis. Precisamos de uma consciência ecológica. Existe um preconceito de que o ecossocialismo quer voltar à Idade Média e abandonar toda a tecnologia que temos hoje, o que não é verdade. O que queremos é repensar a forma de utilizar essa tecnologia. São três pilares: o que é necessário extinguir, modificar e criar. Se destrói a camada de ozônio, vale extinguir.

E o que você indicaria como primeiros passos para que a gente, como sociedade, possa subverter essa lógica que se mostrou tão nociva nesse contexto da pandemia?

É fundamental se organizar politicamente de forma coletiva, seja nas escolas, nos partidos, nas organizações e compreender que as lutas estão conectadas. Defender uma política de cotas, por exemplo, é ter uma visão do todo, entender que o acesso à educação reflete em outros aspectos sociais. Portanto, vale fortalecer a luta pela reforma agrária e a demarcação de terras indígenas, comprar do pequeno agricultor, participar de abaixo-assinados, acompanhar os debates sobre mudanças climáticas. Até mesmo as pequenas ações como compartilhar uma informação verdadeira, comparecer a uma manifestação, assistir a uma live da APIB [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil] são um caminho ecossocialista.

Existe uma concepção de enxergar um modo de vida diferente como algo muito utópico, mas se a utopia é a capacidade de sonhar, a gente não pode abrir mão dela. A utopia é o que nos movimenta. Anos atrás as mulheres poderem se divorciar era uma utopia. E isso não as impediu de pensar que outra vida era possível.

Colaborou Fred Di Giacomo (edição), do data_labe