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Contra 'naturalização da dor', ações pensam saúde mental da população negra

As psicólogas Ana Carolina Cruz e Tainara Cardoso criaram o projeto Psicologia em Diáspora - Arquivo Pessoal
As psicólogas Ana Carolina Cruz e Tainara Cardoso criaram o projeto Psicologia em Diáspora Imagem: Arquivo Pessoal

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

19/06/2020 04h00

Doença de rico, frescura, falta do que fazer. Por muito tempo, a depressão, ansiedade e outros transtornos psicossociais estiveram ligados a crenças e rótulos que, de alguma maneira, eram mais um obstáculo na procura por tratamentos. Em meio à pandemia de covid-19, o isolamento social não só impactou a troca de afeto, como também potencializou esses e outros gatilhos mentais, trazendo à tona a importância da prática do autocuidado e a negligência histórica do país com relação à saúde mental.

"A psicologia, historicamente, não foi pensada, organizada, para tratar as dores da população negra, as dores de minorias, indígenas, comunidades vulnerabilizadas. O Brasil foi fundado pela escravidão e segue existindo a partir da exploração de pessoas, que não encontram espaços para falar sobre os impactos disso em suas vidas", diz Tainara Cardoso, psicóloga e mestranda em Subjetividade, Política e Exclusão Social pela UFF (Universidade Federal Fluminense).

Como esperar que essas pessoas se preocupem em cuidar da saúde mental, quando não foram acostumadas a isso?

Tainara Cardoso, psicóloga

O questionamento da profissional se dá em um Brasil com mais de 18,6 milhões de pessoas sofrendo com transtorno de ansiedade, segundo relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde). O país está ainda em quarto lugar no ranking de pessoas com depressão. Entre adolescentes e jovens negros na faixa de 10 a 29 anos, há um crescente índice de suicídio. Segundo dados do Ministério da Saúde, esse risco aumentou 12% de 2012 a 2016 — e foi 45% maior entre negros do que entre brancos em 2016.

Apesar dos números, é minoria quem consegue tratar suas dores. Pensando em maneiras de democratizar o autocuidado, tão necessário entre uma população cujo sofrimento muitas vezes está atrelado ao racismo estrutural, Cardoso e a também psicóloga Ana Carolina Cruz criaram o projeto Psicologia em Diáspora.

"Somos de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro onde a população é majoritariamente negra, e estudávamos na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Durante toda a nossa graduação, percebemos um contraste muito grande de realidade. Enquanto nossos colegas tinham projetos de saúde mental na Barra [da Tijuca], no Recreio ou na zona sul do Rio, onde morávamos esses projetos e a preocupação com a questão emocional simplesmente não existiam", lembra.

No ano de 2018, as profissionais montaram um consultório no bairro de Alcântara, na região metropolitana fluminense, oferecendo atendimentos clínicos com valores acessíveis para populações de baixa renda.

"Aqui não é um processo imediato em que as pessoas estão familiarizadas em receber apoio psicológico porque a mãe, o pai, o irmão, o amigo ou alguém próximo já fez terapia e foi ótimo. É outro tipo de clínica. Uma clínica de base, de reconhecimento. De pessoas que já sofreram tudo que tiveram que sofrer na vida e agora estão aprendendo que podem, sim, ter um tempo para elas, falar sem serem julgadas ou censuradas. Temos uma parte da população que naturaliza o sofrimento — e aqui não estamos falando em uma resistência ou dificuldade financeira em procurar ajuda, estamos falando de quem entende o sofrimento, a dor, como um destino. Como se o autocuidado não fosse permitido", diz Cardoso.

Muitas pessoas não sabem dizer a dor que sentem justamente por não saberem nomear processos de violências. É preciso facilitar o reconhecimento

Tainara Cardoso, psicóloga

Nesse processo, o Psicologia em Diáspora busca entender os efeitos da escravidão na saúde e na memória da população negra. "Retirar a terra de povos africanos, de povos indígenas, por exemplo, é retirar suas memórias. Então, o que fica? Quais são as referências, o que é a memória para o povo negro? Crianças da zona sul [do Rio] sabem pelo sobrenome a história de vida de sua família. Já a população negra não tem essas informações no Brasil. Quais são os efeitos disso? O que a sua dor tem a ver com a cor que você carrega? Essa não é uma pergunta que requer resposta óbvia."

Ao falar de violência, a psicóloga relembra o caso do adolescente João Pedro Matos, 14, também de São Gonçalo, morto por um tiro de fuzil nas costas quando estava dentro da casa de seus tios. "É preciso se proteger tanto de um vírus quanto de uma ação policial. Quem já estava exposto a inúmeras violências e truculências cotidianas se torna ainda mais fragilizado. Por isso a importância de centralizar o debate racial", destaca.

Com as medidas de distanciamento, os atendimentos da Psicologia em Diáspora estão acontecendo de forma remota. A alternativa também foi adotada por outros profissionais e grupos que visam democratizar o acesso a saúde mental, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), do SUS (Sistema Único de Saúde). Em um país em que a população negra corresponde a 56% do total, e representa 73% entre os mais pobres, o atendimento gratuito é fundamental.

Em parceria com o Google, o instituto Vita Alere montou um mapa de saúde mental com serviços sem custo em todo o Brasil. "Em cidades muito pequenas, ou bairros mais afastados, queixas sobre a falta de psiquiatras em UBS (Unidades Básicas de Saúde) são comuns", conta Karen Scavacini, psicoterapeuta e fundadora da entidade. Na plataforma, há informações tanto sobre CAPS e UBS como ONGs e clínicas-escolas em diversos pontos da cidade, buscando a partir da região onde a pessoa que procura ajuda está.

"No Brasi, a gente tem uma questão do acesso à saúde no geral que reflete diretamente na saúde mental. As escolas poderiam ser um lugar para se aprender mais sobre isso. Infelizmente, o que a gente vê é que as pessoas que mais precisam são as mais esquecidas. Em contrapartida, a pandemia mostrou a força de coletivos, iniciativas privadas, em reconhecer a importância de não só facilitar esse acesso como de tratar a saúde mental como prioridade em políticas públicas", opina Scavacini.

Veja aqui o mapa da saúde mental e, abaixo, mais projetos psicossociais voltados para a população negra que centralizam o debate racial.

Instituto AMMA Psique e Negritude

A organização busca, por meio de formação e prática clínica, identificar, elaborar e desconstruir o racismo e seus efeitos psicossociais. O instituto também conta com uma página com informações e eventos relacionados à saúde da população negra. ammapsique.org.br

Saúde da População Negra

Psicóloga e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Jeane Tavares criou um espaço nas redes sociais para compartilhar informações técnicas e científicas sobre a saúde mental da população negra. instagram.com/saudementalpopnegra

Rede Dandaras

Criada pelas psicólogas Laura Augusta e Tainã Vieira, a rede trabalha com mapeamento e indicação de psicólogas negras, além de promover discussões em torno da saúde mental de mulheres negras. instagram.com/rededandaras

Roda Terapêutica das Pretas

Grupo que realiza atendimento clínico com o objetivo de promover uma escuta mais qualificada. Em tempos de pandemia, atendimentos onine dão prioridade a mulheres na linha de frente na saúde e em serviços sociais. instagram.com/rodaterapeuticadaspretas

Psicologia Denegrida

Coletivo de psicólogos e estudantes de psicologia negros que estuda pautas referentes à saúde mental e questões raciais, como branquitude e racismo. instagram.com/psicologiadenegrida

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