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Preconceito contra idosos na era Covid-19 faz ainda menos sentido no Brasil

Casal de idosos comendo - iStock
Casal de idosos comendo Imagem: iStock

Carina Martins

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

29/05/2020 17h21

Não tem sentido em lugar nenhum, é claro. Mas as características da pandemia no Brasil fazem com que o agravamento do preconceito contra idosos seja ainda mais ridículo. Seria também menos tolerável, se houvesse gradação de tolerância para discriminação.

O uso de dados científicos deslocados como embasamento para fomentar teorias de exclusão é uma estratégia tão velha que, sobre essa, sim, está liberado dizer que merece caducar. Foi alicerçado sobre dados que indicam a mortalidade concentrada na faixa etária acima dos 80 anos que se construiu discursos como o de que o governo lava as mãos, as "famílias colocam o vovô e a vovó num canto e é isso". E, evidentemente, é a coluna de sustentação da opção administrativa de mandar a população para o sacrifício e ver o que sai do outro lado da carnificina.

Acontece que, no Brasil, a média de idade dos doentes é de 39 anos, faixa que estaria bem longe de se aposentar até na época em que se aposentar era possível. São adultos jovens ocupando leitos, desfalcando famílias, ficando em casa querendo ou não.

A mortalidade por Covid-19 no Brasil também se concentra entre os mais idosos, mas muito menos do que o discurso leva a crer: quase um a cada três brasileiros mortos por Covid-19 tem menos de 60 anos.

E um em cada cinco lares tem em um idoso sua principal fonte de renda.

Contra o "gerontocídio"

"Deixa morrer! Já viveu muito! E daí?' Parece que ninguém se importa mais a morte de alguém que já viveu. É o que eu chamo de gerontocídio", afirma o idoso, médico gerontólogo e ex-diretor da OMS Alexandre Kalache, 74, em entrevista à Folha de S. Paulo. Segundo ele, o preconceito contra os idosos cresce durante a pandemia, com consequências como o aumento da violência doméstica contra eles.

Com a palavra

Duas mulheres com cem anos ou mais contaram a Viva Bem como foi sua experiência ao contrair e superar o coronavírus. "Apesar da minha idade, sou muito independente, tenho noção daquilo que eu posso fazer. Me sinto bem e feliz com 100 anos, é como se tivesse nascido ontem. Não sei quanto tempo ainda tenho, mas quero viver até o dia em que Deus me chamar", diz Sebastiana, 100.

"As pessoas precisam ficar em casa para esse vírus poder sumir e eu poder voltar a receber a visita dos meus filhos e netos e poder beijá-los e abraçá-los. Fiquem em casa!", pede Luísa, 103.