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Vírus "chato" e saudades: como duas centenárias enfrentaram o coronavírus

Após de recuperar da covid-19, dona Nenê diz que não quer nunca mais saber de hospital na vida - Arquivo pessoal
Após de recuperar da covid-19, dona Nenê diz que não quer nunca mais saber de hospital na vida Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

29/05/2020 04h00

Aos 103 anos, Luísa Peinado Campoi foi diagnosticada com o novo coronavírus na casa de repouso, em São Caetano do Sul (SP), onde vive. Internada por 15 dias no hospital, ela disse que a equipe foi uma "joinha" com ela e que contava piadas para os médicos. Na outra ponta da Grande São Paulo, em Guarulhos, Sebastiana, mais conhecida como dona Nenê, de 100 anos, também foi infectada e diz que nunca mais quer saber de hospital e que está uma "beleza" após ter sido curada. VivaBem conta a história dessas duas centenárias que se recuperaram da covid-19.

Depoimento de Luísa Peinado Campoi, 103

Contava piada para os médicos durante internação por causa de vírus 'chato'

"Em março, uma enfermeira me falou que as visitas no lar estavam suspensas porque tinha um vírus chato parecido com uma gripe mais forte que estava deixando muita gente doente. Depois de um tempo, uma das minhas amigas do lar teve febre e falta de ar.

As enfermeiras suspeitaram que ela estava com esse vírus chato —coronavírus— e acionaram a Secretaria Municipal de Saúde de São Caetano de Sul, que enviou uma equipe para coletar os exames de todos os residentes que ficaram no mesmo ambiente que essa minha amiga —cerca de 33.

Nós fizemos os exames e, apesar de eu não ter tido nenhum sintoma, foi confirmado que eu, ela e mais três pacientes fomos infectadas.

A enfermeira falou que eu e minhas amigas teríamos que ficar num quarto isoladas. Eu perguntei por quê. Ela disse que não poderíamos ter contato com outras pessoas para não transmitir esse vírus, mas que sempre haveria alguma técnica para cuidar da gente. Fiquei quatro dias isolada, mas um dos médicos me visitou e achou melhor eu ir para o hospital por causa da minha idade e para poder fazer mais exames.

Fui para o hospital de campanha de São Caetano do Sul no dia 29 de abril. Durante a internação, tive um pouco de falta de ar, só isso. As enfermeiras e os médicos foram muito 'joinhas' comigo, eles eram bastante dedicados. Toda hora alguém ia perguntar como estava me sentindo.

Dizia que estava bem e que não estava doente. Contava piada para os médicos, uma que eles deram bastante risada foi a de que se eu tivesse dente, eu ia dar um monte de mordida neles (risos).

Ficava o dia todo deitada, não podia andar nem fazer as coisas que estava acostumada no lar. Sou bastante alegre, quando estou no lar, gosto de caminhar com minha bengala pelos corredores e adoro bater papo e jogar bingo com as minhas amigas. A parte mais legal é ganhar os brindes. Já ganhei pulseira, brinco e hidratante. Também faço um botão da sorte. Eu pego um botão da camisa, recorto um pequeno papel da revista, colo no botão e dou para todas as pessoas que gosto.

O que mais senti falta no hospital foi da minha família. Aos finais de semana, meus dois filhos e meus três netos vêm me visitar e me trazem presentes. Quando meus netos não conseguem vir, eles me mandam lindas cartas.

Fiquei 15 dias internada e não chorei nenhum dia. Sabe por quê? Já chorei muito quando criança e chorar não resolve nada. No dia da minha alta —em 13 de maio—, a equipe que cuidou de mim fez uma roda, bateu palmas e ficou emocionada com a minha recuperação.

Assim que recebi alta, falei para a assistente social, a Catarina, que não era para ela contar para os médicos porque eles iam ficar tristes, mas a verdade é que eu não via a hora de voltar para casa. Infelizmente, umas das minhas amigas infectadas faleceu, outras estão hospitalizadas e outras voltaram para o lar.

Todo dia pergunto para a Catarina se a visita está liberada, mas ela diz que ainda não. Falei para ela que estou sentindo falta da minha família. Esses dias ela fez uma ligação e consegui vê-los na tela. Eles falaram que estão com saudades de mim e também estou morrendo de saudades deles.

Aqui no lar todo mundo está usando máscara para se proteger e lavando as mãos para ninguém mais ficar doente. As pessoas precisam ficar em casa para esse vírus poder sumir e eu poder voltar a receber a visita dos meus filhos e netos e poder beijá-los e abraçá-los. Fiquem em casa!"

Informações sobre datas, localização, hospital e tratamento foram dadas por Catarina Sotero, 39, assistente social do Lar Nossa Senhora das Mercedes.

Depoimento de Sebastiana Paschoal Coelho, 100

Depois desse vírus, estou me sentindo uma beleza, não sou mole

"No dia 10 de abril, comecei a me sentir fraca, cansada, a ter tontura e a ficar bastante sonolenta. Meu sono é leve, se passar um mosquito, já acordo, mas nesses dias só queria saber de dormir. Os enfermeiros Cláudia e Guilherme perceberam que estava muito quietinha, o que não é normal para mim, sou bem ativa.

Eles perguntaram se estava bem e disse que sim. Não é que estava negando, mas é um costume meu. Não gosto de reclamar nem de resmungar, isso não faz bem para ninguém. No dia seguinte eles viram que estava com 38,5 de febre.

Eles ligaram para a minha única filha, relataram o que estava acontecendo e acharam melhor me levar ao hospital, porque suspeitavam que estava com o vírus —coronavírus. Já tinha visto na televisão que esse vírus estava pegando todo mundo. Eles me levaram para o hospital de campanha instalado no Parque Cecap, em Guarulhos, no dia 11 de abril.

Fiz alguns exames e dei positivo para o vírus. Fiquei internada seis dias. Perguntava para os médicos: "Por que eu estou aqui? Não estou sentindo nada, quero ir embora".

Eles me tapeavam falando que estava fazendo um tratamento e que ia embora no dia seguinte, mas eu nunca ia. Minha saturação estava baixa e precisei usar um negócio no nariz para receber oxigênio. Estava tão bem na casa de repouso.

Tomava meus remédios apenas para pressão e anticoagulante e, de repente, me vi num lugar estranho, fiquei pensativa. Sentia falta de dormir na minha cama e de conversar com meus amigos. Tenho amizade com todos do lar, somos uma grande família.

No dia 17 de abril recebi alta. Os médicos e enfermeiros fizeram uma festança para mim e uma oração do Pai Nosso muito bonita. Eles disseram que gostaram muito de mim e que eu era atenciosa, deve ser porque tenho um jeito carinhoso de chamar todo mundo de filho e filha. Eles me desejaram saúde, me deram um girassol e bateram palmas.

Depois desse vírus, estou me sentindo uma beleza, não sou mole não e não quero nunca mais saber de hospital na minha vida.

Voltei para a casa de repouso, mas tive que ficar mais 20 dias em isolamento em um quarto sozinha. Nesse período, só tive contato com os enfermeiros e cuidadores. Sabia que tinha que fazer aquilo para não fazer mal para os meus amigos.

Hoje, minha rotina já voltou ao normal. Quando acordo, dobro o cobertor e arrumo minha cama. Sei o horário de todas as refeições e vou para o refeitório sem que ninguém precise me buscar. Tomo banho sozinha, mas uma cuidadora fica sempre de olho em mim. À tarde, gosto de andar de bengala, de conversar, de costurar minhas roupas e de fazer meu crochê.

Quando era mais jovem, fui costureira, fazia o uniforme dos médicos da USP.

Apesar da minha idade, sou muito independente, tenho noção daquilo que eu posso fazer. Meu desejo é que não exista nenhuma doença no mundo. Me sinto bem e feliz com 100 anos, é como se tivesse nascido ontem. Não sei quanto tempo ainda tenho, mas quero viver até o dia em que Deus me chamar".

Informações sobre datas, localização, hospital e tratamento foram dadas por Guilherme Silva, 23, enfermeiro da Casa de Repouso Don Benedito.

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