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Ziraldo, Laerte e mais artistas doam "sorrisos" para máscaras beneficentes

O feirante Sérgio Koga com máscara que recebeu do projeto - Arquivo Pessoal
O feirante Sérgio Koga com máscara que recebeu do projeto Imagem: Arquivo Pessoal

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

27/05/2020 04h00

O cartunista Ziraldo, de 87 anos, havia quebrado um dente quando em uma de suas participações no antigo programa Jô Soares resolveu fazer uma brincadeira diante do entrevistador: levou uma máscara com um sorriso desenhado. A arte foi colocada em uma cartolina dura, com uma haste que ele usava para levantar e abaixar o acessório em frente ao rosto. Anos depois, a mesma ilustração está estampada em máscaras doadas pelo projeto Contagiando Sorrisos, de Curitiba. Além do criador de O Menino Maluquinho", artistas de diversos cantos do Brasil se juntaram à iniciativa que fornece gratuitamente máscaras a trabalhadores de serviços considerados essenciais durante a pandemia.

Cada um dos chargistas, ilustradores, grafiteiros e cartunistas participantes cedeu pelo menos um sorriso ao projeto. Mais de 20 artistas integram a ação, incluindo nomes conhecidos nacionalmente como Laerte Coutinho e Ademir Paixão. A meta é reunir 500 colaboradores e doar 100 mil máscaras.

"Queríamos desenvolver uma ação que pudesse ajudar na pandemia e que usasse da criatividade. Convidamos, então, os artistas para participar com desenhos inéditos ou que eles já tinham", relata um dos idealizadores do projeto, o produtor Conrado da Luz, de 43 anos. O objetivo, salienta Luz, além de incentivar o uso da máscara, é apresentá-la como algo positivo em meio à crise sanitária.

Máscara criada por Ziraldo para o projeto Contagiando Sonhos - Divulgação - Divulgação
Ziraldo aproveitou o sorriso usou no Jô Soares para ilustrar máscaras do projeto
Imagem: Divulgação

Para Ziraldo, trata-se de uma missão possível. "Fiquei muito alegre em poder fazer algo para ajudar. A máscara com sorriso chama atenção. Como o povo é muito brincalhão, rende mais usar uma máscara sorrindo do que a formal", comenta o cartunista. De oito trabalhos enviados por ele para o projeto, dois estão impressos em máscaras.

O colega de profissão, o paranaense Paixão, 67, acredita que máscaras com ilustrações desse tipo ganham um significado diferente no dia a dia. "Passam uma mensagem boa, mais alegre, com humor. Hoje, você olha para as pessoas e só vê os olhos, parece que estão todos preocupados", diz ele, que durante a quarentena, se retirou para um sítio, de onde criou o desenho para o projeto. "O que a gente puder fazer para amenizar esse pavor que as pessoas estão sentindo é muito gratificante", define.

Rodízio entre confecções

De acordo com Luz, a produção das primeiras mil máscaras foi feita com recursos doados pela agência Remix Promo Criativa, da qual ele é sócio. A ação tem como voluntárias três agências de comunicação (Remix Promo Criativa, Hubox e Lide Multimídia), uma empresa de consultoria (Estesia Business Inovation) e um coletivo audiovisual (Lacini). Eles seguem em negociação com a iniciativa privada para financiar mais impressões.

A nova parceria, antecipa o produtor, deve ser com uma construtora. "Do total fechado, metade fica para a nossa distribuição e metade para a empresa doar para seus colaboradores, sendo proibida a venda", explica ele, ao observar que a costura das peças é feita por confecções locais. "Cada lote de mil fazemos com uma empresa. Para girar a economia, optamos por não concentrar tudo em uma confecção só", assinala.

Por enquanto, já receberam as máscaras com sorrisos trabalhadores de feiras livres, da Defesa Civil, maternidades, clínicas e hospitais de Curitiba que não estão na linha de frente de combate à Covid-19. Houve ainda envio de lotes para o interior do estado, para uma comunidade indígena, em Piraquara, na região metropolitana, e para o Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Segundo da Luz, é impossível receber uma das máscaras do projeto e não querer tirar uma selfie. O feirante Sérgio Koga, 58, concorda. Ele conta que os acessórios, além de proteger, têm feito sucesso com quem o procura para comprar pescados. "Nunca tínhamos passado por isso, de não poder dar um sorriso para o cliente. Agora, as pessoas nos vêem e percebemos que já chegam alegres. Isso ajuda a aliviar a tensão. É bom para os dois lados", comenta.

A máscara criada por Laerte para o projeto Contagiando Sorrisos - Divulgação - Divulgação
Máscara criada por Laerte para o projeto Contagiando Sorrisos
Imagem: Divulgação

Sorriso de bichos e comidas

Por enquanto, o Contagiando Sorrisos tem 32 estampas diferentes. A criatividade dos artistas convidados foi além do básico: há sorrisos com itens do cotidiano, como bananas e croissants, e até de animais.

A cartunista e chargista Laerte Coutinho, 68, conta que "deixou a mão pensar por ela" para escolher o que entregaria ao projeto. O resultado foi o riso de alguém que concede um autógrafo. "Fico satisfeita por estar fazendo uma pequena parte num enorme esforço de sobrevivência. E consciente de que esforços assim exigem a participação de todos, realmente", avalia.

Radicada em Belo Horizonte, a quadrinista e ilustradora amazonense Laura Athayde, 30, por sua vez, se inspirou numa personagem da série "Aconteceu Comigo", vencedora do Troféu HQMix do ano passado. Criada pela própria Laura, a série conta histórias de discriminação enfrentadas por mulheres. "Para contar esses relatos, optei por um traço mais fofinho. Pensei que seria interessante aproveitar isso no projeto das máscaras", explica. Laura, que acredita que seu desenho deve fazer mais sucesso entre as crianças, também espera contribuir com mais leveza a quem precisa sair de casa. "Ficar dentro de casa o tempo todo já é estressante, mas sair pode ser ainda mais", pontua.