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Mortalidade infantil cai até 34% em municípios com Saúde da Família

Júnia e Vinício são pais de Marcelo, Hugo e Catarina  - Arquivo Pessoal
Júnia e Vinício são pais de Marcelo, Hugo e Catarina Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Forte

De Ecoa, em São Paulo

10/03/2020 17h00

A mineira Júnia Patricia Souza Silva, 37, estava no meio do chá de bebê do seu segundo filho, Hugo, quando a bolsa estourou. Moradora do Vale do Capão, na zona rural do distrito de Palmeiras (BA), ela ligou para Natália e Áureo, enfermeira e médico que a atendiam por meio do Estratégia de Saúde da Família (ESF), programa do Sistema Único de Saúde (SUS). Em casa, ela conseguiu ter um parto humanizado, com menos dor que o primeiro, em um hospital de Belo Horizonte.

Um estudo divulgado nesta terça-feira (10) pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) revela que a estratégia é uma ferramenta importante na redução da mortalidade infantil e da mortalidade materna no Brasil, principalmente em áreas rurais.

Segundo o relatório "Impactos da Estratégia Saúde da Família e Desafios para o Desenvolvimento Infantil", em um período de oito anos, um município é capaz de reduzir em até 34% a mortalidade infantil. No Brasil, hoje, há 12,4 óbitos de crianças a cada mil nascidas vivas.

O levantamento mostra, ainda, que a metodologia é capaz de reduzir a mortalidade materna em 53,1% no mesmo período de atuação.

"Tive muito apoio e segurança com o auxílio de Natália e do doutor Áureo. Além de um acompanhamento regular no pré-natal e no pós-parto", lembra a auxiliar administrativo.

O Vale do Capão, onde Junia vive com o marido, Vinício, e três filhos (além de Hugo, de 2 anos, eles são pais de Marcelo, 5, e Catarina, 1), é uma das localidades onde o programa é mais ativo, de acordo com o estudo divulgado hoje: 85% das áreas rurais têm cobertura, a maior parte no Nordeste do Brasil.

Além da redução da mortalidade infantil, o relatório — composto por mais de 50 estudos sobre a primeira infância — revelou que o programa influenciou positivamente no desenvolvimento das crianças, contribuindo para o aumento da frequência escolar e desempenho nos estudos.

"Foram notados aumento na probabilidade de as crianças continuarem na escola entre os 7 e 9 anos e aos 12 anos de idade, e diminuição no atraso escolar aos 7 anos e aos 10 anos de idade", diz Naercio Menezes filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e membro do Comitê Científico do NCPI.

O NCPI é uma iniciativa que reúne pesquisadores do Insper, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Harvard e das organizações da sociedade civil Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, do Brasil, e Fundação Bernard van Leer, dos Países Baixos.

Informação precisa circular

Criada após a Constituição de 1988 e aplicada a partir de 1994, a Estratégia Saúde da Família tem como objetivos promover a qualidade de vida da população brasileira e intervir nos fatores que colocam a saúde em risco. Ela foi desenvolvida em um contexto de descentralização da oferta de serviços de saúde pelo Estado e representou uma importante ferramenta para reestruturar a atenção primária e o sistema de saúde dos municípios.

A equipe do programa é composta por um médica/o (generalista, especialista em saúde da família ou médico de família e comunidade), um enfermeira/o (generalista ou especialista em saúde da família) um auxiliar ou técnica/o de enfermagem e agentes comunitários de saúde, um cirurgião-dentista (generalista ou especialista em saúde da família), um auxiliar ou técnico em saúde bucal. A premissa da estratégia é o diagnóstico precoce, a promoção de hábitos saudáveis e o foco na mãe.

A saúde, para ser bem transada, precisa que toda a população tenha informação e cuide dela. A estratégia faz com que agentes levem essa informação até as pessoas. E os resultados são perceptíveis" Áureo Augusto Caribé de Azevedo, médico no Vale do Capão, Palmeiras (BA)

É Áureo que, com o auxílio de outras profissionais de saúde, dá suporte a Júnia e sua família desde 2017. Além da mineira, cerca de duas mil pessoas que vivem na região têm a saúde acompanhada pelo médico.

Júnia, Vinício e os filhos em retrato ao lado da enfermeira Natália  - Arquivo Pessoal
Júnia, Vinício e os filhos em retrato ao lado da enfermeira Natália
Imagem: Arquivo Pessoal
Taxa cai, mas cenário é preocupante

Apesar de o Brasil apresentar queda na mortalidade infantil, o país está longe de índices de países desenvolvidos. Japão e Finlândia têm menos de 2 mortes por mil nascidos vivos, segundo a "Tábua de Mortalidade 2018", divulgada em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Há, inclusive, uma tendência de aumento na mortalidade. Para o economista do Insper, a redução de investimento em programas do governo, como o Bolsa Família, são uma preocupação, pois há relação direta com o aumento da pobreza extrema. Ele avalia que, para que as estratégias sejam ainda mais efetivas, é preciso que os programas sejam combinados:

Para melhorar os índices, há uma certeza: é necessária uma harmonização dos programas, para que a saúde e a inclusão social andem juntas" Naercio Menezes filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e membro do Comitê Científico do NCPI

Júnia, quando pensa em voltar para Belo Horizonte, sempre volta atrás. Segundo ela, a estratégia de Saúde da Família faz com que não haja motivos para ela sair do Vale do Capão: "Não troco isso por nada. Me sinto rica por ter tido esse acesso. Somos muito felizes por não precisar de recursos financeiros para garantir a saúde da nossa família", finaliza.

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