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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Qual é o valor da derrota numa sociedade que só reconhece quem vence?

Cena da série "Losers", disponível na Netflix - Corbis/VCG/Getty Images
Cena da série 'Losers', disponível na Netflix Imagem: Corbis/VCG/Getty Images

Tony Marlon

14/06/2022 06h00

Era aquele período entre o Natal e o Ano Novo, quando poucas coisas acontecem. Minha cabeça e o meu coração já estavam no descanso, nos livros que ia ler, os encontros que aconteceriam, quando chegou o e-mail que eu tanto esperava. Era um sonoro não para uma oportunidade que sonhava e precisava muito àquela altura. Que precisou de alguns meses de dedicação e fé, na qual eu estava muito confiante, por muitos motivos; que daria novos rumos para o que construía como trabalho e vida. Tudo isso desabou em duas linhas de resposta e uma de assinatura.

Me ensinaram que a derrota é pedagógica, que nos ensina a corrigir a rota, errar diferente da próxima vez. A sairmos do outro lado melhores do que entramos. Mas é difícil lidar com ela, quando todo mundo ao seu redor acredita que o segundo colocado do último campeonato é o primeiro de todos os perdedores. E não o segundo melhor. Aquele e-mail me devastou de tão maneira, que eu não contei para ninguém: fui para o quarto mais cedo, dormi umas 14 horas de tristeza.

Isso tem alguns anos e muitas outras situações, que poderíamos aqui chamar de pequenas derrotas da vida adulta, aconteceram desde então. Chegaram por e-mail, em ligações, no Whatsapp e até ao vivo, enquanto se comia um bife acebolado com arroz e salada numa terça-feira à tarde. Situações indigestas que fazem você voltar para casa com a cabeça encostada no vidro do ônibus, com alguma música imaginária triste tocando ao fundo, que diz: amanhã é outro dia, não é? Eu nem sei por que me sinto assim...

Lançado em 2019 pela Netflix, 'Losers' é uma série que recomendo. O resumo é assim: numa sociedade onde só a vitória interessa, como nos comportamos ao perder? Com oito episódios, e somente uma temporada até agora, a produção passeia por histórias e personagens de países culturalmente muito diferentes, usando o esporte como pano de fundo para encontrar o lugar da derrota em nossas vidas.

Você não precisa entender de curling , aquele esporte em que uma pessoa joga uma pedra numa pista de gelo e as outras vão "varrendo" até ela bater em outras, para acompanhar um dos episódios mais interessantes da série. "Sangue Frio", nome do episódio, resgata uma derrota inacreditável num campeonato nos anos 1980, que faz com o que o "perdedor" fique de tão maneira focado em um dia voltar, e vencer, que o leva a inventar jogadas, estratégias e inovar até a maneira de treinar o esporte. O final é surpreendente, vai por mim.

O interessante dessa série é que ela ilustra várias maneiras de lidar com a derrota, mostrando que nem sempre existe uma segunda chance como a que aconteceu na história aí de cima. A vida tem disso, às vezes, a derrota te afasta de uma vez por todas de um caminho e te empurra para outro completamente diferente. Que acaba se revelando o seu melhor jeito de andar pela vida. Dois episódios falam um pouco sobre isso: "Um ex-lutador" e "Black Jack".

Não se trata de celebrar a derrota, nem a romantizar. Só quem lembra daquele gol de barriga do Renato Gaúcho em 95, já no fim do Fla x Flu, sabe o quanto dói o sonho escapar por segundos. As derrotas da vida prática são ainda piores. Mas faltava um filme ou série que humanizasse o derrotado, a derrotada. Que naturalizasse que, às vezes, a gente vence, mas tem dias em que a gente perde, também. Que, se é importante não se perder na vitória, é essencial não desistir na derrota. Que a vida é assim, todos os dias. Não só no esporte.