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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Andei pensando sobre a tristeza

Coluna Tony - iStock
Coluna Tony Imagem: iStock

Tony Marlon

08/06/2021 06h00

Faz alguns anos eu escutei que o poder gosta de corpos tristes. Faz sentido. Descobri faz poucos dias que o pensamento completo é do Gilles Deleuze, e é assim: "o poder requer corpos tristes. O poder necessita de tristeza porque consegue dominá-la. A alegria, portanto, é resistência, porque ela não se rende. A alegria como potência de vida, nos leva a lugares onde a tristeza nunca nos levaria."

Deve ser por isso que a Emma Goldman disse o que disse, lá atrás: "se eu não puder dançar, não é a minha revolução." Porque poucas coisas produzem tanta alegria no mundo como dançar. É uma espécie de síntese coletiva da liberdade.

Dançar no quarto ou na sala de casa até que é bom, vá lá, mas lembra quando chamávamos nosso par, era quase meia noite e a gente saia rumo ao Marco Zero? Era bonito demais, continuará sendo bonito demais, mas para isso precisaremos chegar vivos e vivas do outro lado da história. Não é hora de baixar a guarda.

Existe uma pandemia de mundo inteiro ali na esquina, o que mais é preciso acontecer para entendermos que somos interdependentes e só existiremos pra frente de maneira coletiva? Eu não sei. Mas continue se cuidando, fazendo tudo que estiver ao seu alcance para cultivar a vida. O futuro será sobre aqueles e aquelas que não se deixaram levar, que não baixaram a guarda.

Sim, tem sido cada dia mais difícil construir alegria em meio a pandemia de dores na qual estamos mergulhadas. E que parece não ter fim. A crise não é apenas sanitária, mas de esperança, me parece. E tem muita gente interessada que as coisas continuem como estão, em colapso. Como escrevi lá em cima, a tristeza é facilmente manipulável. Feito fazem com o medo. Por isso a esticam, a arrastam, a alimentam. Diariamente.

Até quem tem conseguido construir alguns instantes de felicidade não tem conseguido ir além disso, instantes: olha, eu ando com uma alegria desconfiada, sabe? Parece que está na hora e no lugar errado, descolada do espírito do nosso tempo. E está. Meio milhão de brasileiros e brasileiras estarão mortas em breve por um vírus para o qual já temos vacina. O que eu sinto são alguns instantes de tipo uma alegria culposa, foi assim que resumiram.

Eu tenho a sorte e o privilégio de acompanhar, diariamente, o futuro nascendo em cada nova conversa que presencio. São transformadores e transformadoras sociais, ambientais, econômicos, culturais, gente que está edificando agora as bases de um Brasil verdadeiramente para todo mundo daqui a 5, 15, 20 anos. Um projeto de país radicalmente diferente do que nos trouxe até aqui. Que está produzindo soluções sociais para questões que nem sabemos ainda que será uma questão, só lá na frente.

Hoje me doeu saber que nem todo mundo tem este contato que tenho, e a possibilidade de esperançar a vida conhecendo essas pessoas, essas organizações, estes movimentos. Mas elas existem. E para você que não consegue acompanhar, um pouco das notícias do lado de cá, viu: nosso dia vai chegar, teremos nossa vez. Como cantou o poeta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL