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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O caminho da fome no corpo

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Tony Marlon

18/05/2021 06h00

No primeiro dia você já acorda sem futuros na cabeça, a fome faz isso. Além de sustentar o corpo, a primeira refeição do dia, seja ela qual for, com quais alimentos for, não deixa de ser também um ritual de passagem. E as outras refeições também. Você estava existindo, daí você come e passa a acontecer.

Acontecer na vida é sair para o trabalho, para a escola. Ligar o computador e escutar música, dar carga no celular e ver a sua rede social. Construir planos para o dia, para os meses e para os anos seguintes.

Existir é estar aqui no mundo, sinais vitais normais, o ar entrando e saindo dos seus pulmões, por exemplo. Feito quando a gente dorme, a gente está lá: existindo. Existir é ter um corpo para manobrar no mundo, acontecer é outra coisa. É dar direção e ritmo a ele, um sentido.

Para sustentar essa máquina incrível que é o corpo humano, uma pessoa adulta precisa em média entre 1500 e 2 mil calorias diariamente. Com elas, o corpo produz energia. Com energia, a máquina funciona. Com tudo funcionando, podemos buscar acontecer no mundo. E acontecer é um direito, feito acessar alimentação adequada também é. Consta ali no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

Vamos colocar no papel: 25 bilhões de neurônios, outras 220 bilhões de células e 97 mil quilômetros de veias que, se fossem alinhadas, dariam duas voltas e meia na Terra. E mais: um tubo digestivo que mede entre 7 e 10 metros, imagine só. E 180 litros de sangue limpo filtrados pelos rins a cada dia. E tem muito mais. Tudo isso rodando entre 1500 e 2 mil calorias por dia. Tudo funcionando sustenta corpos, que acolhem pessoas que, se tendo assegurado o direito básico da vida, podem ter a chance de acontecerem no mundo. Entendeu?

Mas, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, 55% das famílias brasileiras sofreram algum tipo de restrição alimentar durante a pandemia. Mais da metade do país, um absurdo.

Cientificamente, quando uma pessoa para de se alimentar ou come de maneira insuficiente, o organismo tenta produzir energia recorrendo a gordura do corpo. Lembra que a fonte primária de produção de energia é a glicose, certo? Ou seja, sem comer direito, o corpo busca uma segunda solução. E se ele não consegue nada nem com gordura, passa a literalmente comer os músculos para obter a energia que mantém algum comando sobre os órgãos.

Perder o comando quer dizer, de maneira prática, cair drasticamente a produção de substâncias fundamentais para nosso desenvolvimento. Os órgãos entrando numa espécie de curto-circuito. Daí vem tontura, enjoos, náuseas e dificuldade para raciocinar. Não sei se você concorda, mas é inacreditável que em pleno 2021 a gente tenha famílias inteiras tendo que passar por isso.

Desde o minuto zero da pandemia que pessoas de todos os cantos do Brasil trabalham incansavelmente para garantir que outras possam, primeiro terem assegurado seu direito de continuarem existindo, depois rumarem para acontecer no mundo. Não existe pensar em próximos passos numa vida sem comida no prato, compreende.

São organizações sociais, grupos auto organizados e até pessoas que se movimentam sozinhas por também acharem um absurdo existir gente passando fome no país que se orgulha de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Mais uma das muitas contas que não fecham no país do 1 + 1 = 2, desde que seja interessante para quem é dono da calculadora.

Continue essa conversa

Apoiando famílias para se alimentarem durante a pandemia
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/03/23/fome-no-brasil-como-ajudar-pessoas-a-comer-e-sobreviver-na-pandemia.htm

Entendendo como a alimentação afeta o desenvolvimento infantil
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/05/08/muito-alem-do-peso-mostra-como-a-ma-alimentacao-afeta-a-saude-de-criancas.htm

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL