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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A vida não é só boleto: Cleyton Mendes, o carteiro poeta

Poeta carteiro - Divulgação
Poeta carteiro Imagem: Divulgação

Tony Marlon

20/03/2021 04h00

Em outubro, Cleyton Mendes completa uma década trabalhando como carteiro pelas ruas do Bom Retiro, centro de São Paulo. O poeta é que nasceu antes, ali por volta dos 10, 11 anos de idade. Mas ele só soube disso um bom tempo depois, que era um escritor igual aqueles e aquelas que lia nos livros da escola. Que as coisas que escrevia em seu diário de bordo, no quarto de casa em Poá, zona leste, eram poemas também, se não: "Eu achava que eram só desabafos".

Foi preciso que entrasse para os Correios e que encontrasse o artista Carlos Malungo para ligar todos os pontos que, como dizem, a gente só conecta mesmo olhando para trás. O convite veio assim do amigo que hoje é um carteiro aposentado, que na vida toda foi um músico talentoso: eu vou tocar num sarau, vem me assistir.

Nem sabia direito o que era um sarau, foi. Encontrou uma multidão de pessoas comuns, que sairíam cedo de casa para trabalhar no outro dia, no primeiro ônibus da madrugada, feito ele faria e fazia, declamando suas dores, declarações de amor. Contando a vida que viviam, as pessoas que quase nunca eram contadas. Isso foi no Sarau Bodega do Brasil e mudou tudo para frente.

"Quando eu conheci o sarau foi um despertar para um mundo novo. Eu fazia poesia tem muito tempo, os cadernos que eu tenho é tudo sobre isso", imaginou naquele dia.

Daí para falar seus próprios poemas no Sarau Suburbano Convicto, do Alessandro Buzo, foi um pulo. E de lá para cá, Cleyton subiu em dezenas de palcos, declamou seus textos outras dezenas de vezes e publicou quatro livros. O último, A África é logo aqui, bebeu na ideia de um diário do tempo em que era criança para contar a viagem que fez à Moçambique. Tudo na cara e na coragem, como me disse. A literatura, feito sua profissão, o carrega a cada dia para mais longe.

"Os carteiros antigos falam que as cartas eram diferentes, que eram de pessoas apaixonadas, de parentes distantes, trazendo boas notícias", me explicou. "Daí como eu estava apaixonado pela poesia periférica, eu queria também contar isso para os clientes. Resolvi juntar as duas coisas." Cleyton passou a entregar poemas junto às cartas e encomendas que deixa nas casas, que entrega para as pessoas pelos portões. Os textos são de escritoras e escritores das periferias e favelas da cidade, que pouca gente conhece muito, mas que ele conhece todas.

Funciona assim: Cleyton acorda às cinco da manhã para entrar no trabalho às nove, na Luz, região central da capital paulista. Entre as tarefas do dia, tem uma, começo de tudo, que é a triagem, quando carteiros e carteiras organizam as correspondências por CEP, depois por rua e em seguida pelo número das casas. É geralmente aqui que ele saca da bolsa os poemas que imprime nos fins de semana e anexa aos boletos infinitos, aos documentos e encomendas de todo tipo. A pessoa está esperando o IPVA, o IPTU, e recebe de presente um poema da Jô Freitas, do Sérgio Vaz.

"Quem manda carta hoje em dia são pessoas que estão no sistema penitenciário, que estão fora do país, mandam cartão postal ou de projetos específicos de troca de correspondência", me explicou. "O restante é conta, encomenda ou mensagens comerciais. Até por isso que imaginei trazer a poesia, para deixar a vida mais leve", me contou.

Tem funcionado. Prova disso é o apelido que ganhou pelas ruas: o carteiro poeta. Ou seria o poeta carteiro? "Durante a pandemia está muito corrido, eu não estou conseguindo deixar textos todos os dias, em todas as casas. Mas eu sempre levo comigo na bolsa. Ando com muito trabalho, olha a hora que estou te respondendo!" Nisso eram quase 10h da noite.

Cleyton, que é formado em Publicidade e Propaganda, enxerga que sua vida é toda conectada, parecida com uma costura mesmo. É um escritor trabalhando numa empresa de comunicação, como mensageiro, entregando histórias para as pessoas. Seja usando as correspondências, seja entregando pedaços de poemas deixados nas caixinhas de correio.

"A poesia não entrou na minha vida, eu descobri que ela sempre esteve comigo. É diferente", me respondeu quando perguntei como se deu este encontro. "Quando eu me deparo com o sarau e descubro que a literatura periférica também é arte, eu passei a lembrar que minha mãe, meu avô, já faziam aquilo. E que tudo era poesia, que eu sempre fui cercado de arte, só não sabia que era".

Faz bem para a esperança e para a sensibilidade seguir de perto a literatura feita pelo Cleyton. O escritor, poeta, slammer, carteiro e produtor cultural pode ser acompanhado aqui. Ou numa rua próxima de você, caso tenha essa sorte. "Poesia é o que a gente sente, né?", ele disse outro dia. E faz sentido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL