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Tainá de Paula

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clima, racismo e os caminhos da fome no Brasil

Eventos extremos, como o tufão Goni, estão cada vez mais frequentes no mundo - David Lee/via REUTERS
Eventos extremos, como o tufão Goni, estão cada vez mais frequentes no mundo Imagem: David Lee/via REUTERS

Tainá de Paula

03/10/2021 06h00

O motivo central para o avanço das mudanças climáticas é o modelo produtivo e de consumo que se consolidou desde a Revolução Industrial. O crescimento exponencial das emissões de gases de efeito estufa está levando à elevação da temperatura média do planeta, o que por sua vez aumenta a acidificação dos oceanos, põe em risco áreas costeiras e aumenta a frequência e intensidade de eventos extremos, como tufões e furacões (ver o relatório do IPCC de 2018).

O modelo produtivo altamente destrutivo que temos hoje não se restringe às indústrias. Também as monoculturas são parte importante do problema, em especial pela destruição de florestas para expansão dessa agricultura que homogeiniza a produção (basta ver que atualmente só vemos um tipo de cenoura, um tipo de batata, um tipo de milho, quando existem centenas, milhares de variedades desses legumes) e que destrói o solo e os lençóis freáticos.

O sistema da monocultura, além de um problema ambiental, também foi central para um problema social que estrutura o Brasil contemporâneo: o racismo. O sistema de plantations no Brasil colonial (e imperial, e republicano) era sustentado por pessoas escravizadas, sequestradas de África. Não é exagero dizer que a economia brasileira se construiu e se sustenta até os dias de hoje sobre injustiça socioambiental e racial, a partir do racismo ambiental, entendido da seguinte forma:

"Racismo ambiental é o conjunto de ideias e práticas das sociedades e seus governos, que aceitam a degradação ambiental e humana, com a justificativa da busca do desenvolvimento e com a naturalização implícita da inferioridade de determinados segmentos da população afetados - negros, índios, migrantes, extrativistas, pescadores, trabalhadores pobres, que sofrem os impactos negativos do crescimento económico e a quem é imputado o sacrifício em prol de um benefício para os demais." (Herculano 2006 apud Silva 2012, p. 106)

O agronegócio, herdeiro do sistema de plantations, segue sistematicamente destruindo florestas e modos de vida tradicionais de diversas partes do Brasil. Ainda, é um dos principais responsáveis pela especulação financeira que trouxe o país ao caos socioeconômico que vemos atualmente: dólar alto, inflação alta, preços elevados de combustíveis e alimentos. O agronegócio segue produzindo e exportando como nunca, enquanto a fome volta a assombrar milhões de brasileiros: já são 19 milhões em situação de fome.

Dada a destruição social e ambiental produzida pelo agronegócio, não se pode debater o enfrentamento às mudanças climáticas no Brasil sem falar de política alimentar. Aqui, parto do entendimento da necessidade de promoção de políticas de segurança alimentar e nutricional, que consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente.

Nos centros urbanos, a existência de áreas verdes é fundamental para a mitigação dos eventos de mudanças climáticas, como falei na última coluna. Essas áreas verdes incluem os chamados cinturões urbanos: áreas de produção agrícola próximas/dentro de áreas urbanas, que funcionam tanto como reguladores térmicos das áreas onde estão situados quanto como pontos de produção de alimentos - de preferência, uma produção familiar e agroecológica, que garanta alimentos livres dos venenos usados em larga escala pelo agronegócio.

Fica na zona norte da cidade do Rio de Janeiro a maior horta comunitária da América Latina, no bairro de Manguinhos. O espaço de cultivo, criado em 2013, emprega atualmente 21 moradores da região e produz cerca de 2 toneladas de alimentos por mês, beneficiando cerca de 800 famílias. É um exemplo de como áreas verdes urbanas podem ser áreas produtivas, gerando empregos e alimentando (com qualidade!) a população.

As mudanças profundas necessárias para enfrentar a crise climática passam também pelas mudanças profundas necessárias para enfrentar a desigualdade social e, de maneira mais urgente, o avanço da fome. Nessa esteira, precisamos consolidar cosmovisões brasileiras (no plural). Como construir cidades tropicais e a cosmovisão do sul? Que levem em conta os macroclimas e microclimas que compõem essa pluralidade que chamamos de Brasil?

Daqui, eu entendo que temos um dever ancestral de cuidar da mata. Numa nação é de Oxum e Xangô, não pode ficar sem mata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL